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Eleições 2020 datafolha

Disputas como as de São Paulo e do Recife exigem cautela dos atuais líderes nas pesquisas

Nas duas cidades, primeiro colocado tem menos de 60% dos votos válidos, aponta Datafolha

Alessandro Janoni

Diretor de Pesquisas do Datafolha

Corridas de segundo turno em que o líder aparece abaixo do patamar de 60% dos votos válidos, como as que o Datafolha revela nesta quinta-feira (19) em São Paulo e no Recife, exigem cautela dos candidatos.

Ruídos na comunicação, arranhões na imagem, demandas sem propostas adequadas e potencial de abstenção podem reduzir a vantagem de maneira expressiva.

O alerta se baseia na dicotomia —quando há dois candidatos, a migração de intenções de voto se dá automaticamente de um para o outro, o que diminui diferenças significativas. Qualquer variação pode gerar movimentos que despertam a atenção dos eleitores.

Em um ambiente como o observado na capital paulista, onde cerca de 1 em cada 5 eleitores demonstra incerteza quanto ao nome que escolhe, variações negativas podem ser fatais. Entre os que pretendem votar em branco ou nulo, também há espaço para conversão —21% deles ainda acenam com a possibilidade de optarem por um dos dois candidatos.

Entre os eleitores de Bruno Covas (PSDB), a taxa dos que cogitam mudar o voto é de 18%. Entre os de Guilherme Boulos (PSOL), é de 17%. Se um dos lados prevalecer em campanha e debates, tanto Covas pode abrir vantagem irreversível sobre Boulos como o candidato do PSOL conseguiria inverter o jogo e vencer por pequena margem.

O desafio é conseguir isso em espaço de tempo tão curto.

O atual prefeito tem vantagem por atrair de maneira mais homogênea eleitores que votaram em outros candidatos no primeiro turno. O tucano consegue a maior parte dos eleitores de Celso Russomanno (Republicanos) e de Arthur do Val (Patriota), além de dividir com Boulos os de Márcio França (PSB).

O candidato do PSOL consegue a grande maioria dos que optaram por Jilmar Tatto (PT).

Sobre o perfil socioeconômico dos eleitores, interessante notar que Covas tem apoio importante em estratos onde o PSDB apresenta dificuldade histórica de alcance —os de menor renda e menos escolarizados.

O candidato do PSOL, por outro lado, atrai nicho ativo em redes sociais —lidera a disputa entre os mais jovens e fica acima da média entre os que têm nível superior e maior renda.

Com seu discurso voltado à periferia, Boulos não pode se esquecer também desse contingente de seus eleitores, principalmente agora que são os primeiros atingidos pela nova onda da pandemia na capital, vetor determinante desta eleição.

Além da escolarizada zona oeste, o candidato do PSOL vai bem em áreas periféricas da zona leste e norte, mas não da zona sul, onde reside.

O atual prefeito consegue um desempenho atípico para tucanos na região, talvez pelo apoio da ex-prefeita petista Marta Suplicy, que tem forte apelo no local.

Covas tem larga vantagem em regiões de tradição conservadora em São Paulo —consegue a grande maioria dos votos válidos nas áreas das zonas leste e norte mais próximas ao centro.

No Recife, a peleja familiar entre Marília Arraes (PT) e João Campos (PSB) começa com a petista na frente, numa espécie de continuidade da curva de intenção de voto que a candidata apresentou no primeiro turno até o dia da eleição, quando ficou próxima do primo nas urnas.

Marcar, com ênfase, o avô Miguel Arraes e a figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua campanha pode ter garantido a Marília sua atual vantagem —a petista já era forte entre os mais jovens e depois, quando adotou a estratégia, cresceu entre os homens e entre os mais velhos.

Ela ainda divide com Campos parte dos eleitores do terceiro colocado no primeiro turno, o bem votado ex-ministro Mendonça Filho (DEM).

A ideia de vender modernidade ao Recife, pregada por João Campos, pode soar aos ouvidos do eleitor como uma ruptura com a tradição da família, especialmente entre os mais velhos, e deixa o deputado muito dependente do balanço que a população da capital pernambucana faz da atuação dos governos municipal e estadual.

Tanto o prefeito Geraldo Julio como o governador Paulo Câmara são do PSB e foram duramente atacados pela oposição ao longo da campanha do primeiro turno, especialmente no combate à pandemia.

Esse, aliás, é o problema de Marcelo Crivella (Republicanos) no Rio de Janeiro. No segundo turno, a rejeição à sua administração reflete-se nos 71% de votos válidos obtidos por Eduardo Paes (DEM).

No total de intenções de voto, o atual prefeito da capital fluminense chega a empatar com os brancos e nulos (21% e 22%, respectivamente). E, pela taxa de cristalização do voto entre os eleitores de ambos os candidatos, há pouca margem de manobra para a reversão do quadro, mesmo com elevados índices de abstenção em segmentos de peso do eleitorado, como as que ocorreram no primeiro turno.

Se o padrão de abstenção que se observou no primeiro turno for mantido no segundo, com perfil concentrado em estratos de menor renda e escolaridade, candidatos que mantém bom desempenho nesse segmento podem perder pelo menos um ponto percentual nas urnas em relação às pesquisas de intenção de voto.

Em São Paulo, por exemplo, a abstenção ocasional (admitida pelo entrevistado ao Datafolha), que elimina a desatualização por falta de recadastramento —óbitos e mudança de cidade, por exemplo— alcança 10% do total da amostra e é concentrada entre as mulheres (62% contra 54% na média do eleitorado), os que têm até o ensino médio (51% contra 44% na média) e principalmente os que têm renda de até três salários mínimos (70% contra 58% entre eleitores de um modo geral).

Se a eleição fosse nesta quinta-feira, Covas perderia pelo menos um ponto percentual em razão do fenômeno e estaria com 57% dos votos válidos. Coincidência ou não, esse é o perfil que mais sofreu com a pandemia na cidade e que por isso parece mandar o recado: se você candidato não me ajudar, também não consigo ajudá-lo a se (re)eleger.

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