Descrição de chapéu Eleições 2020

Em 'Guerra da Rebouças', avenida de SP é divisa entre bastião tucano e bairro mais jovem e pró-Boulos

No Jardim Paulista, Covas teve 44,5% dos votos; em Pinheiros, prefeito também ganhou, mas psolista obteve 31,8%, sua melhor votação na cidade

São Paulo

A Guerra dos Cem Anos, travada entre Inglaterra e França nos séculos 14 e 15, tinha os 33 km do Canal da Mancha apartando os dois reinos. A Batalha de Stalingrado, que opôs os nazistas aos soviéticos no século 20, tinha o Volga, o rio mais longo da Europa, separando os exércitos inimigos.

Já a disputa entre Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL) para a Prefeitura de São Paulo, neste século, parece estar resumida a uma barreira menor: os 30 metros de largura de uma avenida. É a "Guerra da Rebouças".

A sudeste daquela via, temos a zona eleitoral em que Covas teve a maior porcentagem da capital. No Jardim Paulista, ele atingiu o recorde de 44,5% de todos os votos do primeiro turno, restando a Boulos menos da metade dos eleitores que moram lá: 21,6%.

Atravessando a perigosa avenida —na faixa de pedestres, por favor—, o recorde é do inimigo. A noroeste da Rebouças está Pinheiros, região onde o psolista atingiu sua maior expressão: 31,8% dos votos. Foi a única zona eleitoral em que Boulos esteve acima dos 30%. Mesmo assim, não ganhou, pois Covas –que venceu nas 58 zonas da cidade, sem exceção— atingiu 38% por ali.

Há nove anos morando em Pinheiros, Michele Vieira Alves também trabalha no bairro. Vende doces (R$ 3 o brigadeiro) e salgados (R$ 20 a torta de frango com catupiri), as Gostosuras da Mimi, na saída do metrô Fradique Coutinho.

“Meus clientes são bem Boulos”, garante ela. “Aqui tem muita ONG, muita agência. Percebo pela maneira de falar que o pessoal aqui quer mudança, que luta pelos mais pobres.”

“Tsc, tsc”, reprova a corretora de imóveis Michele de Souza, 70, em uma ruazinha próxima.

“Eu imaginei mesmo que Pinheiros e Vila Madalena desse muito Boulos. Eu voto no Covas. Mas aqui tem todo um discurso progressista, tem gente mais alternativa. Que querem fazer algumas mudanças, sabe? Porque acham que é possível.”

Michele se refere, provavelmente, aos jovens. Na última pesquisa Datafolha, Boulos aparece com 65% das intenções de voto entre os jovens com 18 a 24 anos, deixando a Covas apenas 35% nessa faixa etária.

Enquanto ela fala, passam duas meninas com adesivos do Boulos em suas camisetas. São Luisa P. e Gabriela C., ambas de 16 anos, ambas de Pinheiros, ambas sem título de eleitora, ambas apoiando Boulos apesar de os pais votarem em Covas.

“Meu pai diz que só sou de esquerda porque não pago conta”, conta Luisa, que veste uma camiseta do Bon Jovi, grupo de rock que fez sucesso nos anos 1980. “É da minha mãe”, esclarece. Gabriela tem história semelhante: “Minha mãe diz graças a Deus que eu ainda não voto".

A administradora Rebeca de Sá mudou-se há apenas dois meses para Pinheiros e ainda não decidiu seu candidato —votou em Marina Helou (Rede) no primeiro turno.

Mesmo recém-chegada, ela sente no ar que o bairro tem tendências boulianas. “Muita gente jovem por aqui. Vejo faixas nas casas e adesivos nas camisetas. Do Covas, nada.”

Uma dessas casas é de Fred Ghedini, jornalista aposentado que mora no bairro desde os anos 1970. Em seu portão tremula o rosto de Boulos e de sua vice, Erundina, com a inscrição “Essa casa vai virar o jogo!”. “Os vizinhos já me pediram faixas. E é verdade, aqui atrai muito juventude. Mas agora está muito caro. Hoje, jornalista só consegue morar na perifa.”

Mas não iremos até a perifa nesta reportagem; vamos apenas atravessar a Rebouças. Na esquina da Oscar Freire com a Bela Cintra, a médica Ana Maria Ribeiro Fernandes passeia com os dogs Xico e Sansa. Covas tem a preferência da moradora dos Jardins.

Saída de Jundiaí (SP), o bairro lhe parece, às vezes, de direita demais. “Na época dos panelaços contra o Bolsonaro, eu ouvia mais gente xingando quem batia panela do que batendo. Era um inferno. Então eu vejo claramente que o bairro é Covas agora.”

O jornaleiro Rogério Pereira Silva, na esquina oposta, tem a mesma percepção da médica. “O pessoal vem comprar aqui e está sempre comentando política. Sobre o Boulos, é só negativo, falam que é um Lula da nova geração. Já o Covas, todo dia tem um elogiando."

Há 40 anos no bairro, a moradora Eliete Bispo diz que conhece “muita gente” por ali, mas não conhece absolutamente ninguém que tenha votado em Boulos no primeiro turno. Talvez ela tenha matado a charada: “Percebo que temos privilégios aqui. Se um buraco aparece, logo está arrumado”.

Buracos arrumados. É tudo o que espera o taxista Raimundo Mendes, que há 20 anos tem ponto na Oscar Freire. Assim como boa parte da clientela, ele não quer saber da esquerda. “Erundina, Marta e Haddad, só entramos pelo cano. Esse que está aí não é aquelas coisas. Não melhorou, mas não atrapalhou”, diz ele, declarando voto em Covas.

A restauradora de obras de arte Adriana Vera Duarte mora há 30 anos nos Jardins. Ela diz acreditar que as políticas têm que ser voltadas para o social.

“Mas para o Boulos ainda é cedo. Talvez eu vote nele no futuro, mas agora acho que Covas tem que ter uma continuidade.” O problema, no entanto, mora em casa. “Meu filho de 25 anos vota no Boulos. Ele e todos os amigos dele. A gente tem essa conversa, mas é muito nítida a divisão geracional.”

Geracionais ou não, as divisões de Pinheiros e dos Jardins seguem em sua marcha inexorável. Neste domingo (29), a Guerra da Rebouças chegará ao fim. E restarão um homem envolvido na lama da derrota e, do outro lado, um vitorioso.

Movimentação na avenida Rebouças
Movimentação na avenida Rebouças - Adriano Vizoni-1.mar.2013/Folhapress

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