Em lives no Rio, candidatos erram sobre saúde, pesquisas e estrutura da prefeitura

Com limitações impostas pela pandemia, candidatos substituem comícios por redes sociais

Nathália Afonso Chico Marés
São Paulo | Agência Lupa

Desde o início da campanha, os candidatos dos Rio de Janeiro têm realizado lives em suas redes sociais para conversar com os eleitores.

Sem debates e com atividades de rua limitadas, muitos recorrem à internet para divulgar suas propostas e criticar seus oponentes.

A Lupa acompanhou lives dos cinco candidatos mais bem avaliados nas pesquisas de intenção de votos —Eduardo Paes (DEM), Marcelo Crivella (Republicanos), Martha Rocha (PDT), Benedita da Silva (PT) e Luiz Lima (PSL)— e separou alguns erros e acertos feitos pelos postulantes ao cargo de prefeito do Rio de Janeiro. Veja o resultado.

“Hoje a prefeitura virou um melê de política pública. O cara [Crivella] tem [secretaria de] qualidade de vida junto com ciência e tecnologia e não sei mais o que”
Eduardo Paes, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com representantes da Casa Fluminense no dia 22 de outubro de 2020

FALSO A prefeitura do Rio não conta com uma secretaria de “qualidade de vida junto com ciência e tecnologia”. Na realidade, existem duas pastas separadas que tratam destes assuntos.

Em julho de 2019, o prefeito Crivella recriou as secretarias de Envelhecimento Saudável, Qualidade de Vida e Eventos e a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Tecnologia. Além disso, a prefeitura tem ainda em sua estrutura a Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia.

Procurada, a assessoria de imprensa do candidato respondeu que sua intenção era mostrar que a administração Crivella prometia diminuir as secretarias e, no fim, não cumpriu com essa meta. “Assuntos diversos foram acomodados em uma só estrutura, sem respeitar um critério lógico, eficiente e produtivo”, disse.


“O Rio teve o dobro do índice de mortalidade [de Covid-19] de São Paulo”
Eduardo Paes, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com o jornalista Rene Silva no dia 26 de outubro

EXAGERADO A taxa de mortalidade por Covid-19 na cidade do Rio de Janeiro foi 64% mais alta do que em São Paulo. No Rio, foram registradas 12.312 mortes da doença, para uma população total de 6,736 milhões —dados da PNAD Contínua Trimestral do primeiro trimestre de 2020. Isso representa 182,8 mortes para cada 100 mil habitantes. Em São Paulo, foram 13.715 falecimentos para uma população de 12,296 milhões. Isso representa 111,5 óbitos para cada 100 mil habitantes.

Procurada, a assessoria de imprensa do candidato disse que Eduardo Paes se referia à taxa de letalidade desses municípios. Taxa de mortalidade é o número de mortes em relação à população de uma determinada região, enquanto a taxa de letalidade é o número de óbitos em relação ao número de casos.

A nota cita o Monitora Covid, ferramenta da Fiocruz, para indicar que o Rio de Janeiro atingiu o topo da lista das 27 capitais por letalidade, com um índice de 10,25%. De fato, com esse índice o município tem mais que o dobro que a taxa de São Paulo, que é 4,36%.

Contudo, no vídeo ele fala especificamente sobre o número de mortes e a população das duas cidades. “O Rio tem metade da população de São Paulo e tivemos quase o mesmo número de mortes”, diz, logo na sequência.


“A gente implantou 117 [Clínicas da Família], chegamos a 70% dos cariocas”
Eduardo Paes, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com o jornalista Rene Silva no dia 26 de outubro

VERDADEIRO Em seu último dia como prefeito, Eduardo Paes abriu a 114º Clínicas da Família, alcançando a meta de cobertura de 70% dos cariocas pela Estratégia Saúde da Família. Segundo dados da prefeitura, no início da gestão de Paes, em 2009, apenas 3,5% dos cariocas eram beneficiados.


"Aquela coisa da equipe de saúde da família, não tinha concurso público, eram milhares de agentes, milhares de médicos, mas sem concurso público"
Marcelo Crivella, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro e prefeito da cidade, em live nas redes sociais no dia 02 de novembro de 2020

FALSO Publicações do Diário Oficial mostram que os profissionais da equipe de saúde da família precisavam passar por processos seletivos e concurso público para assumirem cargos em unidades de saúde do município antes da gestão Crivella.

Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde disse que não comenta “atos de outras gestões”, mas que, atualmente, os profissionais das equipes de Saúde da Família são contratados por concurso público realizado pelo Riosaúde, Empresa Pública de Saúde da Prefeitura do Rio.

Já os profissionais das equipes geridas pelas Organizações Sociais (OSs) passam por processos seletivos que são conduzidos pela empresa terceirizada.

Procurada, a assessoria do candidato não respondeu.


“(…) [O Datafolha e o Ibope colocam quase 40%] Quando o IBGE recomenda, e o TSE determina, que sejam 120 [12%] com curso superior [os entrevistados nas pesquisas de intenção de voto]”
Marcelo Crivella, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro e prefeito da cidade, em live nas redes sociais no dia 02 de novembro de 2020

FALSO Segundo o Datafolha, embora não haja uma determinação por parte do TSE, a segmentação da pesquisa é feita com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C) de 2018.

Segundo essa pesquisa, 32,7% da população do município do Rio de Janeiro têm ensino superior completo ou incompleto. Na pesquisa mais recente do instituto sobre a corrida eleitoral na cidade do Rio, 34% dos entrevistados tinham esse grau de escolaridade. Já no caso do Ibope, segundo o instituto, a segmentação é feita com base em três fontes diferentes: o Censo 2010, a Pnad-C de 2018 e o TSE.

O prefeito erra ainda ao mencionar o nível de escolaridade dos entrevistados do Datafolha e do Ibope. Na última pesquisa do Datafolha, 34% —e não 40%– tinham nível superior. O Ibope, por sua vez, entrevistou 1204 votantes e 37% tinham concluído o ensino superior.

Procurada, a assessoria do candidato não respondeu.


"Ele [Marcelo Freixo] é um deputado que tem sempre uma votação expressiva. Nessa última eleição perdeu apenas para o Hélio Bolsonaro. Uma quantidade de votos pequena. Os dois tiveram mais de 300 mil votos "
Marcelo Crivella, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro e prefeito da cidade, em live nas redes sociais no dia 02 de novembro de 2020

VERDADEIRO Em 2018, os deputados federais Marcelo Freixo e Hélio Lopes foram eleitos com mais de 300 mil votos, sendo que Lopes teve 4,46% dos votos válidos e Freixo teve 4,43%.

Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral. Durante a live, Crivella afirmou que Freixo desistiu das eleições para apoiar o candidato Eduardo Paes (DEM). Atualmente, o PSOL lançou a candidatura de Renata Souza.


“Eu não aceitei essa verba de gabinete (...)”
Martha Rocha, candidata à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com o jornalista Rene Silva no dia 5 de novembro de 2020

VERDADEIRO O portal da Transparência da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro mostra que a deputada e candidata Martha Rocha não recebeu verba de gabinete em agosto, último mês disponível para consulta.


“ (...) Em 14 meses, eu economizei mais de de R$ 500 mil [com verba de gabinete]”
Martha Rocha, candidata à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com o jornalista Rene Silva no dia 5 de novembro de 2020

EXAGERADO A Assembleia Legislativa oferece uma verba de gabinete de R$ 26,8 mil para os deputados estaduais utilizarem em atividades ligadas ao mandato. Sendo assim, em 14 meses, a candidata teria economizado R$ 375,2 mil —e não “mais de 500 mil” como disse durante a live.

Desde março de 2019 essa verba é facultativa e pode ser administrada livremente pelos deputados. Anteriormente, a verba de gabinete era administrada pela própria Assembleia.

Procurada, a assessoria de imprensa da candidata afirmou que, na verdade, ela se referia à economia feita desde que assumiu o mandato como deputada, em 2015. “Daí o total de R$ 534.187,05 economizados durante as duas legislaturas”. Contudo, vale ressaltar que, durante a live, ela estava falando especificamente dos últimos 14 meses.


“O atual prefeito [Crivella] extinguiu mais de 100 equipes da Saúde da Família”
Martha Rocha, candidata à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com representante da Universidade Castelo Branco no dia 21 de outubro de 2020

VERDADEIRO Os Relatórios Anuais de Gestão mostra que a gestão do prefeito Marcelo Crivella extinguiu 217 equipes da Saúde da Família. De acordo com levantamento de 2016, no último ano do governo Paes, o município contava com 1.296 equipes. Já o relatório de 2019, o mais atual disponível no site da prefeitura do Rio, mostra que esse número foi reduzido para 1.079.


“Foram aproximadamente 6 mil (...) que foram demitidos em plena pandemia pelo governo municipal”
Benedita da Silva, candidata à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com representantes da Casa Fluminense no dia 8 de outubro de 2020

FALSO O rompimento do contrato com a organização social Viva Rio, que demitiu pouco mais de 5.000 funcionários da saúde do município, aconteceu em janeiro de 2020. Naquela época, não havia casos de Covid-19 no Brasil. Na realidade, o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus surgiu em São Paulo no final de fevereiro. No Rio de Janeiro, o primeiro infectado foi confirmado apenas em março pelas autoridades. A pandemia também foi decretada em março pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com o rompimento de contrato da Viva Rio, a Organização Social (OS) parou de administrar 75 unidades de saúde pública do município. No fim de fevereiro, a Riosaúde assumiu a gestão desses estabelecimentos. Segundo a prefeitura, mais de 4 mil profissionais foram contratados pela empresa pública até o dia 18 de fevereiro de 2020.
Em junho, durante a pandemia da Covid-19, o Hospital Federal dos Servidores também demitiu quatro mil funcionários. Contudo, essa instalação não é de responsabilidade do governo municipal.

Procurada, a assessoria de imprensa da candidata afirmou que o vírus apareceu na China em dezembro de 2019 e que já estava preocupando a Organização Mundial da Saúde. “Eles foram aumentando ao ponto de ultrapassar oficialmente 800 mortos no mundo na primeira semana de fevereiro. Já superava o SARS, que matou 774 pessoas entre 2002 e 2003”, disse.


“A lei que eu propus, a Lei Aldir Blanc (...) ela é emergencial”
Benedita da Silva, candidata à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com Mídia Ninja no dia 5 de novembro de 2020

VERDADEIRO Em março de 2020, a candidata Benedita da Silva e outros deputados do PT, PSOL e PDT apresentaram o projeto de lei 1075/2020, que posteriormente foi transformado na Lei Aldir Blanc, em vigor desde junho. Com caráter emergencial, essa lei destina recursos para o setor cultural brasileiro que foi afetado durante a pandemia da Covid-19.


“Nós temos aí 104 condomínios do Minha Casa Minha Vida [no Rio de Janeiro]”
Luiz Lima, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com representante da Universidade Castelo Branco no dia 28 de outubro de 2020

SUBESTIMADO Segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura, Habitação e Conservação (SMIHC), o município do Rio de Janeiro conta com cerca de 300 condomínios do programa Minha Casa, Minha Vida.

Esses empreendimentos estão espalhados pelas zonas Norte, Oeste e no Centro da cidade. O site da secretaria informa ainda que o programa oferece, atualmente, cerca de 80.404 unidades habitacionais contratadas junto à Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. Dessas, pouco mais de 35 mil são para famílias com renda de até R$ 1.800.

Procurada, a assessoria de imprensa do candidato disse que ele se referia apenas aos condomínios localizados na Zona Oeste, região da Universidade Castelo Branco.


“O número de ônibus [de BRT] não cresceu [nos últimos anos]”
Luiz Lima, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com representante da Universidade Castelo Branco no dia 28 de outubro de 2020

VERDADEIRO Os dados da Secretaria Municipal de Transporte do Rio de Janeiro mostram que o número de veículos do BRT não aumenta desde 2017. Em 2016, antes do prefeito Marcelo Crivella assumir o cargo, o sistema contava com 367 veículos. Esse número aumentou para 376 em 2017 e permaneceu o mesmo até 2020. Sendo assim, o aumento da frota é foi de 2,4% durante a gestão Crivella.


“[Temos] 640 mil alunos [na rede municipal de ensino]”
Luiz Lima, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, em live com representante da Universidade Castelo Branco no dia 28 de outubro de 2020

VERDADEIRO A rede municipal de educação do Rio de Janeiro conta com 643.053 alunos, sendo que a maioria (430.532) está no ensino fundamental.

Segundo os dados da secretaria municipal de Educação, 35,47% do total de alunos está em tempo integral. A rede municipal tem ainda mais de 39 mil professores e mais de 13 mil funcionários de apoio administrativo (inspetor, merendeira e outros profissionais de apoio).

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