Em nome de propósito, mulheres ricas e bem-sucedidas decidem encarar campanhas eleitorais

Candidatas a vereadora e prefeita minimizam risco profissional e barreiras e dizem querer realizar sonho

São Paulo

A perspectiva de trocar a pressão e o salário de um escritório bem-sucedido pela rotina de um plenário, com momentos pouco gloriosos envolvendo a troca de nome de ruas ou a criação de feriados, pode parecer insólita demais à maioria.

Mas, para algumas mulheres, o plano é não só real, como também a concretização de um sonho.

Com patrimônios de muitos dígitos, e carreiras sólidas no mundo corporativo e jurídico, candidatas aos cargos de vereador e prefeito em 2020 alegam razões como propósito e a vontade de ajudar os outros para justificar abrir mão da atuação na esfera privada e se lançar à vida na política.

“Morei fora por muito tempo. Prometi a mim mesma que voltaria e usaria tudo o que aprendi em termos socioeconômicos e de desenvolvimento aqui no Brasil”, diz a farmacêutica e executiva Amanda Neves, 42, que concorre pela primeira vez a vereadora pelo Cidadania em Campinas, no interior paulista.

Depois de dez anos trabalhando em países como França, Canadá, Dinamarca e China com a construção de indústrias farmacêuticas e com tecnologia em geral, e também depois de abrir sua própria startup, Amanda afirma que sua intenção é colaborar com a sociedade.

“Eu poderia muito bem me manter no setor privado, mas acho que a forma mais rápida de contribuir com o progresso é se várias pessoas tentarem fazer isso na vida pública”, diz.

Em 2015, Amanda se inscreveu no RenovaBR, escola de formação política, que teve alunos como a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP).

“A reação foi de surpresa total. Minha vizinha de porta falou que não sabia que eu praticava política, que era politizada”, relembra a engenheira, advogada e headhunter Patricia Thais Duchnicky, 43, que tenta uma vaga de vereadora em São Caetano do Sul pelo PSDB.

“Colocar um adesivo meu no carro de um amigo é um desafio, porque nem todos veem a política com bons olhos", conta Patricia.

"Uma das minhas ideias é trazer uma escola de politização para a população”, segue ela, que mora sozinha em um apartamento de 80 metros quadrados em um bairro de classe média alta. “Me considero privilegiada.”

“O salário de vereador em São Caetano é de R$ 10 mil, e obviamente eu tinha remuneração maior”, diz. Ela acredita que às vezes seu padrão de vida pode atrapalhar. “Tanto que em alguns posts evito falar da minha formação, porque alguns não têm o ensino básico e isso pode me afastar de determinado público.”

Amanda Neves, que declarou patrimônio de cerca de R$ 2 milhões, pensa diferente. “O eleitor nem vê os bens declarados. Se visse, aliás, ia perceber a quantidade de informações erradas que tem lá. Candidatos com casas em bairros nobres declarando valor de R$ 30 mil”, afirma.

Para ela, o eleitor analisa apenas “a aparência e a credibilidade”.

“É possível que uma camada da população me olhe e fale que tenho cara de rica e que não entendo nada”, diz Cris Monteiro, 59, candidata a vereadora em São Paulo pelo Novo. “Quem investigar mais minha vida vai ver que sou rica, mas sou honesta, trabalhadora, e conquistei a duras penas o lugar que estou.”

Filha de uma empregada doméstica e de um sargento que virou taxista, Cris cresceu na periferia do Rio de Janeiro. Diagnosticada com alopecia ainda na infância, era mantida em casa com frequência pelos pais, com medo de como os amigos a tratariam. Acabou focando os estudos.

Formada em ciências contábeis, foi para São Paulo na década de 1980, onde fez carreira como diretora de bancos como o JP Morgan.

Declarou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) um patrimônio de R$ 17,8 milhões. “Eu já podia estar feliz com o que tinha. Ainda podia estar no mercado financeiro, ninguém me mandou embora.”

Em 2018, o RenovaBR teve 133 alunos, dos quais 11% eram mulheres. Já as turmas de 2019 e 2020 somam 1.820 alunos, com 35% de mulheres. Ao todo, 1.032 alunos concorrem nestas eleições municipais, com presença 30% feminina.

“Isso reflete o crescimento de mulheres que rompem barreiras sociais, familiares e de gênero para ocupar cargos eletivos. São mulheres que querem se sentir realmente representadas na política”, analisa Irina Bullara, diretora da entidade.

Empresária do ramo do café em Franca, no interior paulista, Flávia Lancha, 61, cresceu no meio da política, mas sempre sonhou em ser médica. A filha do ex-prefeito da cidade José Lancha Filho (PTB) se formou em ciências, letras e administração rural.

Concorreu em 2016 à prefeitura, terminando o pleito com cerca de 28 mil votos. Seu desempenho nas urnas a levou a se tornar secretária de Desenvolvimento Econômico, entre 2017 e 2018. Agora, tenta pela segunda vez um cargo eletivo, pelo PSD.

“Acho que vai ser uma rotina muito mais pesada que a de empresária. Primeiro pela própria cobrança, porque, quando você está na iniciativa privada, as decisões são suas. E, quando você está na vida pública, você é cobrado por uma população inteira”, compara Flávia.

“As demandas são muito grandes. Você nunca vai conseguir atingir todas, e vai ter muita gente descontente. Além disso tudo, você perde muito a privacidade. Deixa de ter a vida particular, é exposta o tempo todo a julgamentos, críticas, sugestões. A gente tem que ter um propósito muito grande.”

Especialista em direito tributário, mestre pela Universidade de Baltimore e com MBA em gestão, Cristina Rando, 45, trabalhou na MSC USA por anos até fundar sua própria empresa. Ela também imagina um dia a dia mais intenso caso seja eleita vereadora do Rio de Janeiro pelo Novo.

“No mundo corporativo, no período em que estive mais dedicada nos Estados Unidos, eu ainda conseguia desfrutar dos meus fins de semana. E acredito que na política vou ter um trabalho bem árduo e que ele vá entrar também nos sábados e domingos”, imagina.

Filiada ao partido desde 2015, ela conta que o “estalo” veio três anos depois. “Quando acabou o processo eleitoral, eu já estava pensando nisso. Só que é um processo complexo. Chequei em casa e perguntei se teria apoio”, conta.

Cristina vive em união estável há 14 anos com a mulher. “Ela morria de medo, disse que eu era maluca, ainda mais no Rio, com tanta violência. Em 2019, participei de uma pré-campanha e pensei que eu tinha que fazer isso também. Foi irresistível. Eu ia ficar muito mal de não fazer. Cheguei em casa e ela disse que tudo bem eu ir.”

Concorrendo a vereadora em São Paulo pelo PTB, a advogada pós-graduada em direito médico e hospitalar Gabrielle Brandão, 40, conta que recebeu do deputado estadual Campos Machado, dirigente do partido no estado, o convite para sua candidatura em plena pandemia do novo coronavírus.

“Como já sou muito ativa em rede social, direcionei meus perfis para a campanha”, explica. "Comecei a ser procurada pelas pessoas. Amigos da faculdade, do hospital, todos vinham falar que iam votar em mim”, diz. Por conta disso, Gabrielle diz acreditar na vitória.

“Não vou ficar frustrada se não acontecer, porque isso é mais uma realização pessoal muito mais ligada a poder ajudar do que de fato ter isso como uma melhora na minha qualidade de vida. Mas vou tentar de novo. Antes eu dizia que não. Mas agora estou começando a gostar disso", afirma.

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