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Erundina diz em sabatina Folha/UOL que gestão Boulos toleraria protestos e se fiaria no 'poder popular'

Candidata a vice na chapa do PSOL, ex-prefeita criticou vice de Covas e culpou mídia por impopularidade de seu governo

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São Paulo

A deputada federal Luiza Erundina (PSOL), vice na chapa de Guilherme Boulos (PSOL) na corrida pela Prefeitura de São Paulo, disse nesta quarta-feira (25) em sabatina promovida pela Folha, em parceria com o UOL, que um eventual governo dos dois toleraria protestos e se basearia no "poder popular".

Prefeita da capital entre 1989 e 1992, Erundina, à época no PT, enfrentou protestos contra sua gestão e lidou com problemas de governabilidade por ter minoria na Câmara Municipal. Sem experiência em cargos públicos, Boulos é líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), que luta por moradia.

"Nossa relação com a sociedade vai ser transparente, de respeito, de diálogo. E não vamos aceitar a violência. Somos contra qualquer tipo de violência e desordem. O que não significa que vamos inibir as manifestações públicas, coletivas, de demandas, inclusive em relação ao governo municipal", disse ela.

Segundo a parlamentar, manifestações fazem parte da democracia, e a participação dos cidadãos será uma tônica no governo do PSOL, caso a chapa saia vitoriosa do segundo turno, no próximo domingo (29).

Boulos tem 45% dos votos válidos, segundo pesquisa do Datafolha, e está atrás do candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), que alcançou 55% no levantamento divulgado nesta terça-feira (24).

"O que dá mesmo sustentabilidade quando não se quer ceder aos compromissos originais do programa é recorrer ao poder popular, que é um dos poderes na instância local, que é a sociedade civil. Foi isso que deu sustentabilidade ao nosso governo", respondeu ela sobre a relação com a Câmara.

Se eleito, Boulos terá que lidar com uma Câmara fragmentada. O PSOL elegeu seis vereadores neste ano, entre as 55 cadeiras do Legislativo.

Erundina repetiu o discurso de Boulos de que a pressão da sociedade sobre os parlamentares é suficiente para ajudar a aprovar projetos de interesse do Executivo e disse que a participação poderá se dar por meios digitais.

Ela reiterou ainda a proposta de inverter prioridades no Orçamento e dar atenção à periferia, foco absoluto da campanha neste segundo turno —Boulos já tem garantido o apoio de setores da classe média, dos segmentos mais escolarizados e de habitantes do centro expandido, onde ficam os bairros mais nobres.

"Nós vamos governar lá na ponta, nas regionais. A mídia virtual vai ser no sentido de colocar as informações sobre o governo, abrir as contas, explicar as licitações públicas. Será um governo aberto e radicalmente democrático", pontuou.

A postulante a vice disse, contudo, que é possível buscar a governabilidade por meio de uma relação republicana com a Câmara, sem ter que fazer concessões do ponto de vista ético. "Tem que construir alianças, ter uma relação de diálogo, transparente."

Luiza Erundina e Guilherme Boulos durante caminhada no centro de São Paulo em 2018
Luiza Erundina e Guilherme Boulos durante caminhada no centro de São Paulo em 2018 - Zanone Fraissat - 16.ago.18/Folhapress

Questionada sobre a baixa popularidade no fim de sua gestão, na década de 1990, Erundina culpou a mídia e disse que foi vítima de preconceito da imprensa e da elite paulistana por ser uma mulher, migrante paraibana, solteira, de origem humilde e filiada a um partido que combatia injustiças sociais.

"A mídia tinha uma má vontade muito grande contra o meu governo. Não me conheciam, tinham uma imagem de preconceito. Por eu ser mulher, nordestina e governar para os excluídos. Um preconceito que se traduzia por mentiras, calúnias", afirmou.

"Perguntavam qual era o homem que decidia, que governava por mim", relatou.

Segundo pesquisa Datafolha da época, 29% dos moradores de São Paulo consideravam ótima ou boa a gestão de Erundina no encerramento do mandato.

Na opinião dela, contudo, sua administração apresentou resultados que ainda hoje são lembrados. Boulos tem recorrido a exemplos do governo da vice para tentar conquistar o eleitorado e usado a experiência dela para rebater a crítica do PSDB de que ele não teria capacidade de assumir o cargo.

"Esse conjunto de fatores contribuiu para que o conceito que a mídia propagava a meu respeito fosse desqualificação. Mas, depois de 32 anos, as políticas e os modelos do nosso governo são referência", disse a deputada.

Erundina indicou, no entanto, que em um eventual mandato dela e de Boulos seu papel será o de auxiliar o prefeito. "Estou consciente da condição de vice-prefeita. Eu não sou a prefeita, a não ser nas ausências do prefeito, se isso ocorre", observou.

Ela também minimizou o fato de não ter ajudado a eleger seu sucessor —foi substituída no cargo por Paulo Maluf, à época no PDS— e apontou como justificativa, além da imagem negativa criada sobre ela, a dedicação do PT, seu partido, ao impeachment do presidente Fernando Collor.

"O próprio candidato do nosso partido, Eduardo Suplicy [à época senador], ficou mais envolvido, ocupado, interessado naquele processo que levou ao impeachment do que em cuidar de entender a cidade, conversar com os eleitores, dedicar-se de fato à campanha no município", afirmou.

De acordo com a ex-prefeita, o Partido dos Trabalhadores "não soube aproveitar" os acertos de seu governo, "e não foram poucos". O PT, derrotado no primeiro turno deste ano com o candidato Jilmar Tatto, agora apoia a candidatura do PSOL.

Erundina usou a entrevista para fazer ataques ao vereador Ricardo Nunes (MDB), vice na chapa de Covas. Ele também foi convidado para a sabatina, mas disse que não compareceria por problemas de agenda, "totalmente comprometida em reuniões, encontros e visitas aos bairros".

"O Ricardo Nunes me parece que está se escondendo. O próprio candidato [Covas] também não dá muitas explicações sobre por que o vice desapareceu. Deve ser porque ele deve explicações à sociedade e à Justica sobre denúncias muito graves que dizem respeito ao interesse público", disse Erundina.

A Folha revelou a denúncia de violência doméstica que foi feita contra Nunes por sua própria esposa em 2011 (hoje ela nega agressões) e as relações controversas que o candidato tem com empresas que administram creches terceirizadas da prefeitura.

A vice do PSOL disse que o adversário deveria esclarecer as acusações e que os fatos da vida doméstica de Nunes vão na contramão "daquilo que se defende hoje, na questão da violência contra a mulher".

"O vice, em determinadas ocasiões, assume [a prefeitura] ou deve compartilhar com a cabeça de chapa, o eventual eleito, as responsabilidades e as tarefas da gestão da cidade. Se ele não aparece, eu não sei qual vai ser o papel desse vice. É ruim para o eleitor não saber quem é essa pessoa, as explicações que ele dá."

A deputada federal exaltou a frente de partidos de esquerda que apoia a candidatura de Boulos no segundo turno e disse que a coalizão pode apontar para uma união em 2022, quando estará em jogo a disputa pela Presidência da República, hoje ocupada por Jair Bolsonaro (sem partido).

Além de PCB e UP, que já estavam aliados ao PSOL no primeiro turno, embarcaram na campanha PT, PDT, PC do B, PSB e Rede.

"A nossa cultura política não tem sido historicamente de frente, de unidades de forças, mas, quando isso se dá, e se dá sempre com a direita, com o conservadorismo, é em troca de interesses", disse ela, citando o acordo costurado por Covas e pelo governador João Doria para a chapa do PSDB.

Boulos tem dito que as alianças foram discutidas de maneira programática, sem incluir no momento debate sobre cargos e espaço das legendas em um eventual administração dele como prefeito.

Erundina foi entrevistada ao longo de 30 minutos pelas repórteres Carolina Linhares, da Folha, e Gabriela Sá Pessoa, do UOL.

Nesta quinta-feira (26), será a vez dos dois titulares das campanhas. O tucano Covas será sabatinado às 10h, e o psolista Boulos, às 11h. Cada entrevista durará 45 minutos.

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