Candidatos a vereador em SP concordam sobre Minhocão e divergem sobre volta às aulas em debate na Folha

Representantes de cinco partidos participaram de sabatina sobre temas do Legislativo municipal

São Paulo

Representantes de cinco candidaturas à Câmara Municipal de São Paulo nas eleições de 2020 concordaram em temas como o destino do Minhocão e discordaram em tópicos como o retorno às aulas presenciais durante debate virtual promovido pela Folha nesta segunda-feira (2).

Os participantes da sabatina foram: Nabil Bonduki, da candidatura coletiva Mais Direito à Cidade (PT), Elaine Mineiro, da candidatura coletiva Quilombo Periférico (PSOL), Marina Bragante (Rede), Wafá Kadri (Novo) e Luis Sobral (PSD).

Escolhidos com base na diversidade de partidos e propostas, eles falaram sobre urbanismo, segurança, educação, saúde e transporte, entre outros assuntos. Dos cinco, só Nabil, 65, já ocupou mandato no Legislativo paulistano (foram dois, 2001-2004 e 2013-2016).

Um diagnóstico foi consensual: o de que não é uma prioridade decidir o que fazer com o elevado João Goulart. A avaliação é a de que a desativação total do Minhocão como via de tráfego, com sua demolição ou transformação em parque, só deve ser feita quando houver solução clara para o trânsito.

O tema pode voltar à pauta da Câmara porque está prevista para 2021 a revisão do Plano Diretor, cujo texto inclui a questão do elevado. Pelo documento, transformado em lei, a interrupção do trânsito de veículos na via deve ocorrer até 2029.

Com a rediscussão no Legislativo, há uma brecha para mudar o destino do local. Pesquisa Datafolha de setembro mostrou que 54% dos paulistanos acham que o Minhocão deveria ser mantido como está.

"Esperamos que nesse período [até 2029] os transportes coletivos na cidade melhorem suficientemente, de modo que a sua desativação não gere tantos problemas do ponto de vista de mobilidade", disse Nabil, que, como vereador, foi o relator do Plano Diretor aprovado em 2014.

Desta vez, o petista concorre à Câmara em uma candidatura coletiva —formato que não é reconhecido oficialmente pela Justiça Eleitoral, mas já existe em outras casas legislativas.

Marina, 41, fez coro: "O Minhocão só pode ser derrubado se a gente pensar em qual o transporte público que pode ser oferecido. E eu estou querendo transformar São Paulo em uma cidade para outros modais que não só o carro".

A psicóloga e gestora pública, que já trabalhou na Câmara como assessora parlamentar, afirmou ainda que o debate sobre o elevado não pode roubar o foco da discussão sobre mobilidade e sobre a criação de parques, observando que a periferia é mais carente de áreas verdes do que a região central.

Elaine, 36, cuja plataforma de campanha é justamente voltada para as regiões periféricas, reforçou a tese sobre parques. A representante da candidatura coletiva do PSOL defendeu que o destino do Minhocão seja escolhido por meio de plebiscito, o que já foi decidido pela Câmara.

"Decisões como essa precisam ser discutidas com a cidade. A gente teve a modificação do Vale do Anhangabaú, que não teve a aderência e a discussão necessárias e que desagradou a muitos", disse.

Sobral, 42, afirmou que "fazer parque ou não fazer parque é um negócio que não resolve nem a parte de cima nem a parte de baixo. São Paulo tem muitas prioridades para discutir antes do Minhocão".

O empresário, que prioriza em sua campanha propostas para cultura e educação, foi superintendente do Sebrae de São Paulo e secretário-adjunto da Cultura estadual (2009-2012).

Estreante em eleições, Wafá, 23, fez a defesa de bandeiras de campanha suas, como o empreendedorismo e a oferta de microcrédito, ao ser questionada sobre o Plano Diretor e o Minhocão.

Estudante de relações internacionais na PUC-SP, ela sofreu críticas e ameaças em agosto depois de postar em sua rede social uma foto ao lado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

"Quando a gente fala em Minhocão, por que a gente não ocupa essas áreas e cria micropolos econômicos? Então, a dona Maria pode vender o seu produto no Minhocão, em um sábado, em um domingo. É importante unir as duas coisas", afirmou.

Os candidatos também discutiram como deve ser o retorno às aulas presenciais, suspensas por causa da pandemia do novo coronavírus. Em São Paulo, a gestão do candidato à reeleição Bruno Covas (PSDB)autorizou o retorno do ensino médio.

Wafá criticou a quantidade de dias com escolas fechadas. "Isso mostra o descaso da atual gestão [...]. A prefeitura correu para reabrir shoppings, restaurantes, bares. [...] Infelizmente isso não foi feito com as escolas. A prioridade sempre deveria ser educação", afirmou.

"No ano que vem, a gente tem um trabalho de, além de implementar reforço escolar, fazer com que as famílias, e eu não julgo as famílias, enxerguem o benefício de frequentar a escola", continuou, pregando a modernização do ensino público, para torná-lo mais atrativo.

Elaine, por sua vez, disse que "a escola precisa ser um ambiente seguro" e que "pensar no retorno das crianças, na periferia, no meio de uma pandemia, é típico de quem realmente só circula pela periferia de quatro em quatro anos dentro de um carro".

A porta-voz da candidatura coletiva do PSOL afirmou ainda ser um erro "pensar que uma estrutura como uma escola consegue abrigar crianças [depois do advento da pandemia] quando dentro da escola, em períodos normais, nem sequer há papel higiênico".

Para Nabil, "o desempenho da Prefeitura de São Paulo na pandemia em relação à educação foi extremamente deficiente". O candidato disse que não foram garantidas as condições para o ensino a distância e que "muitas crianças ficaram sem acesso à educação e à alimentação escolar".

A prioridade, para ele, será assegurar "que os alunos recuperem este ano perdido".

Marina disse que os vereadores, que têm o papel propor leis e fiscalizar o Executivo, devem acompanhar o trabalho da prefeitura especialmente diante de desafios como o aumento no número de alunos, com a migração de estudantes da rede particular para a pública.

"Temos que fiscalizar o município para garantir a qualidade do ensino. A educação é fundamental para a gente reduzir as desigualdades tão presentes no nosso município", afirmou, citando ainda o problema da evasão escolar.

O plenário da Câmara Municipal de São Paulo, que abriga 55 vereadores - Eduardo Knapp - 15.set.2020/Folhapress

No debate sobre saúde pública, Sobral fez uma defesa do modelo de OSs (organizações sociais), mas ressaltou a importância da transparência e da fiscalização para garantir a qualidade dos serviços.

"Eu me proponho a defender na Câmara Municipal um novo marco regulatório para as organizações sociais. A gente pode levar mais agilidade, competência, transparência e economia [com elas], mas precisa ficar no pé, fiscalizar", afirmou.

Outros participantes também defenderam um acompanhamento rigoroso das OSs contratadas pela administração municipal. Nabil e Elaine disseram ter restrições ao sistema e apontaram indícios de irregularidades em contratos.

"O modelo das OSs é bastante discutível, mas hoje se implantou de uma tal maneira na cidade de São Paulo que qualquer mudança vai gerar um certo período de transição", afirmou o petista.

Para Wafá, "se o estado não dá conta de trazer equipamentos e médicos", é necessário "abrir para mais parcerias". "A gente tem que usar ainda o modelo do SUS, que é universal. Tem esse mito de que a gente quer privatizar o SUS, isso não existe", afirmou.

Com 55 cadeiras, a Câmara Municipal paulistana é a maior do país. A Justiça Eleitoral recebeu na eleição deste ano 2.001 registros de candidaturas para a Casa, um aumento de 52% na comparação com o pleito de 2016, em que se apresentaram 1.315 candidatos.

O aumento é resultado do fim das coligações partidárias em eleições proporcionais, que vale pela primeira vez neste ano. Com a nova regra, cada partido registra os próprios postulantes ao cargo de vereador.

A Folha e o UOL também estão sabatinando candidatos a prefeito das principais capitais do país.

De São Paulo, foram entrevistados até agora Joice Hasselmann (PSL), Marina Helou (Rede), Antônio Carlos (PCO), Levy Fidelix (PRTB), Orlando Silva (PC do B), Vera Lúcia (PSTU), Andrea Matarazzo (PSD), Jilmar Tatto (PT) e Arthur do Val (Patriota).

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