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Fome é problema mais urgente de Belém, diz Edmilson, que vê rival de 2º turno como 'muito violento'

Ex-petista hoje no PSOL enfrenta Delegado Eguchi (Patriota) e critica gestão 'genocida' de Bolsonaro na pandemia

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Manaus

Ex-prefeito de Belém, à época pelo PT, o professor universitário Edmilson Rodrigues (PSOL), 63, disputa o segundo turno no próximo domingo (29) para o comando da capital do Pará.

Seu concorrente, Delegado Eguchi (Patriota), se diz alinhado aos princípios do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em entrevista à Folha, Edmilson disse apostar no que considera uma perda de prestígio de Bolsonaro na região Norte para superar Eguchi nas urnas. Chamou seu adversário de "camarada muito violento" e definiu como "genocida" a gestão do presidente durante a pandemia.

Homem de máscara está sentado em mesa com apoiadores de campanha, também de máscara
Edmilson Rodrigues (centro), candidato do PSOL à Prefeitura de Belém - Divulgação

Nome histórico do PT, Edmilson chegou a ser cotado pelo diretório estadual à pré-candidatura do partido na eleição presidencial de 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito pela primeira vez.

Após o fim da sua segunda gestão municipal, em 2005, ele trocou o PT pelo PSOL e ficou longe dos cargos eletivos por seis anos, até ser eleito deputado estadual em 2010. Quatro anos depois, foi eleito deputado federal pelo Pará, cargo para o qual foi reeleito nas eleições de 2018.

Candidato de uma coligação que reúne PSOL, PT, PDT, PC do B, UP e Rede, Edmilson teve 32,22% dos votos no primeiro turno, contra 23,06% de Eguchi.

*


O senhor acredita que o apoio recente do presidente Jair Bolsonaro ao Delegado Eguchi (Patriota) pode influenciar o resultado do segundo turno nas eleições de Belém? O presidente tem perdido prestígio em Belém, segundo as pesquisas de opinião. Está desgastado. Então é possível que o apoio dele agregue alguma coisa, mas também vai desagregar.

É compreensível que apoie [Eguchi], pois têm [o candidato e Bolsonaro] visões muito próximas, no sentido do autoritarismo, do fascismo. Já vimos que os eleitos com discurso de combate à corrupção como única proposta não têm proposta para educação, para saúde, para habitação, para infraestrutura.

O senhor conseguiu reunir os partidos de esquerda em torno de uma única candidatura, ao contrário de outras cidades onde a esquerda pulverizou votos em candidaturas independentes. A nossa frente é de seis partidos, o que me permitiu chegar bem na frente, e agora que as adesões estão chegando. Creio que, de 35 vereadores eleitos, mais de 20 nos procuraram.

Vários sindicatos, centrais sindicais, instituições e líderes religiosos, os artistas todos se envolvendo... No PSB, a direção nacional reuniu e orientou que nos apoiasse. E a frente mantém o PDT, que se reuniu comigo com 43 candidatos a vereador para declarar apoio.

O que o senhor considera que seja o mais urgente problema de Belém e qual sua proposta para solucioná-lo? O mais urgente é a fome. No dia 1º de janeiro eu tomo posse e assino o decreto, imediatamente, do programa Bora Belém, de renda mínima, que vai complementar a renda das pessoas mais necessitadas com até R$ 450.

Caso eleito, o senhor pretende reabrir as escolas ou só irá retomar as aulas presenciais após termos uma vacina? Vou seguir o protocolo. Sou professor universitário com doutorado e isso me obriga a ter responsabilidade com a ciência. Então não dá para entrar no negacionismo, obscurantismo, negar a vacina, negar as técnicas avançadas.

Então, se a orientação técnica é não abrir, não abrirei. E estou muito otimista com as vacinas e, se for necessário, investir recursos municipais para comprar vacina, priorizar uma faixa da população que seja mais vulnerável, mas também viabilizar para as crianças, para poder fazer a reabertura das escolas.

O prejuízo é real e as pessoas têm que pôr na cabeça que é uma pandemia, ninguém conhece a doença. Não podemos, de forma alguma, simplesmente aprovar [os alunos]. Mas também não podemos reprovar, então há de se flexibilizar os calendários; a criança pode ingressar numa dinâmica de modo que, ao final de 2021, ela seja aprovada acumulando conhecimento de dois anos. A prefeitura pode criar uma política de reforço escolar no contraturno, de modo que a criança possa ser responsavelmente aprovada.

O senhor é a favor ou contra as medidas de restrição de circulação e distanciamento social? Pretende adotá-las em seu governo? Sou totalmente a favor. Estamos correndo o risco de uma nova onda e há de se considerar o conhecimento científico. Se eleito, minha primeira medida será reinstalar as dez unidades de urgência e emergência nos oito distritos de Belém em funcionamento 24 horas.

Porque, hoje, as UPAs [Unidades de Pronto-Atendimento] estão funcionando precariamente. Uma tarefa planejada é a criação de um centro de referência para o tratamento das sequelas da Covid-19, com fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e médicos.

Como o senhor avalia a gestão do atual prefeito de Belém no enfrentamento à pandemia? Foi sofrido, fechou portas de UPA em momentos críticos da pandemia. Foi caótica. Incapacidade de gestão, mau uso de recursos públicos.

E como avalia a gestão da pandemia pelo presidente Jair Bolsonaro? Como criminosa, genocida. É isso. Diz tudo.

Qual sua opinião sobre tratamentos citados em contexto político, como a hidroxicloroquina e agora as vacinas? Quem tem autoridade é o médico, eu sou arquiteto urbanista. A China pode quando é para comprar os produtos do agronegócio que estão relacionados ao desmatamento, para levar a carne bovina produzida extensivamente em função da extinção da floresta. Enfim, não pode ter vacina chinesa, mas pode ter o ingresso de bilhões de reais por ano por conta da exportação para a China?

Qual o papel da Prefeitura de Belém no combate ao avanço dos crimes ambientais, como o desmatamento ilegal na Amazônia? A cidade de Belém é o portal, aqui é o principal entreposto comercial. É daqui que saem as motos produzidas em Manaus e outros produtos da Zona Franca de Manaus. Além do que é produzido aqui no Pará mesmo de minério, madeira e alguns produtos industriais. Claro que tem competências, mas podemos fazer um debate e a Câmara Municipal também pode ajudar.

Como o candidato avalia seu concorrente à Prefeitura de Belém? Ele é um camarada muito violento, usa o nome de Deus como todo político de extrema direita num cinismo atroz, porque quem é contra a renda mínima para combater a fome não pode ser a favor da família nem ser cristão. Então, na verdade, estamos disputando com alguém que é muito arriscado para a cidade.

Raio-X

Edmilson Rodrigues, 63
Arquiteto e doutor em geografia humana, foi deputado estadual por dois mandatos (1987-1994 e 2010-2014), prefeito de Belém por dois mandatos (1997-2004) e atualmente é deputado federal (desde 2014). Foi filiado ao PT e hoje está no PSOL

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