Grupos judeus racham após circulação de vídeos de apoio e repúdio a Boulos

Ao menos 14 vídeos com apoio ou críticas ao PSOL trazem à tona conflito entre Israel e Palestina

São Paulo

A circulação de uma série de vídeos de apoio e repúdio ao candidato a prefeito Guilherme Boulos (PSOL) em grupos de judeus nos últimos dias evidenciou um racha político às vésperas do segundo turno, com o conflito entre Israel e Palestina como elemento central.

Depois que o vídeo "Judeus e Judias com Boulos e Erundina" viralizou em grupos de WhatsApp e o político o divulgou em suas redes sociais, levando a quase 40 mil visualizações no YouTube, judeus insatisfeitos rebateram com outro vídeo.

Assim como no primeiro, esses declaram que são judeus, mas que não votam no PSOL, que tem alguns integrantes com histórico polêmico em relação à pauta geopolítica.

Os vídeos são coletivos, mas cada integrante declara seu voto nominalmente. A manifestação ganhou força e, até esta quarta-feira (25), ao menos 14 conteúdos com apoio a Boulos, questionamentos às posições chamadas de "antissemitas" do PSOL e declarações de jornalistas, empresários e intelectuais correram em grupos.

Guilherme Boulos em vídeo contra antissemitismo
O candidato a prefeito de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL) diz que repudia antissemitismo; posições do PSOL são contestadas por alguns judeus - Reprodução/YouTube

A ala pró-Boulos reage desde 2018 à imagem de que o voto judeu predominante é bolsonarista. A bandeira de Israel virou uma peça recorrente em manifestações de direita, sejam favoráveis ao presidente, contra os poderes do STF (Supremo Tribunal Federal) ou contra a obrigatoriedade da vacina de Covid.

No vídeo, cerca de 20 pessoas de diversas formações dizem seus nomes, declaram-se judias, eleitoras de Boulos e afirmam não confundir esperança de paz entre Israel e Palestina com antissemitismo.

O grupo opositor se manifesta com vídeos de formato semelhante. Não declaram apoio explícito a Bruno Covas (PSBD), mas dizem não votar em “partido antisionista”, “que promove boicote ao Estado de Israel” e que “queima sua bandeira”.

O debate acirrado nos grupos, que motivou até declarações de entidades judaicas tradicionais, ganhou maior proporção depois que Juliano Medeiros, presidente do PSOL, se posicionou para falar sobre a posição do partido. Ele tentou "desfazer mais uma fake news", em suas palavras, antes do segundo turno.

Assim como Boulos, o PSOL também é representado pelo candidato a prefeito Edmilson Rodrigues em Belém (PA).

Em um vídeo, Medeiros rechaça acusações que ressurgiram relacionando o PSOL ao antissemitismo. Seu argumento é que o apoio histórico ao povo palestino e as críticas da condução política de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, não significam oposição ao Estado de Israel.

Boulos também usou o tema em um vídeo de campanha de mais de dois minutos, no qual diz que é “desonesto, ofensivo e extremamente irresponsável” relacionar antissemitismo à solidariedade do PSOL aos palestinos.

“Quando fui candidato à Presidência da República, viajei para Palestina e para Israel e me encontrei com diversos judeus israelenses opositores às políticas desumanas de Netanyahu e preocupados com sua aliança com o bolsonarismo no Brasil", afirma.

O posicionamento não evitou a escalada de publicações polarizadas depois do primeiro turno. Uma delas, protagonizada por um judeu que mora nos Estados Unidos, tem tônica violenta e se refere a eleitores de Boulos com palavrões, os acusando de serem vítimas da “lavagem cerebral feita pela esquerdopatia”.

O cientista político André Lajst, diretor no StandWithUS Brasil, organização educacional sobre Israel, foi um dos criadores de peças com críticas ao PSOL. Parte de seus argumentos aparece em vídeos coletivos posteriores, como no do grupo Juventude Judaica Organizada, cuja página no Facebook tem quase 55 mil seguidores.

"No vídeo, não acuso Boulos de ser antissemita ou digo que críticas a Israel não são legítimas ou mesmo que represento [a opinião] da comunidade judaica. Houve protestos com gente do PSOL em que a bandeira de Israel foi queimada e uma série de artigos problemáticos de Boulos. Perto das eleições, saiu uma nota do BDS Brasil [grupo que promove sanções “ao regime israelense de apartheid”] com o nome de Boulos e de Tatto [Jilmar, do PT]. Os nomes ficaram lá até esta semana e foram retirados", afirma Lajst.

Uma nota do PSOL de 2018, disponível no site do partido, reitera apoio ao movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções). A campanha não respondeu sobre essa posição específica do partido.

Segundo a descrição do movimento, trata-se de uma plataforma de grupos sociais e organizações que coordenam esforços para pressionar Israel a cumprir com o Direito Internacional e a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Nesta quinta (27), o nome de Boulos não consta na lista de prefeitos signatários do BDS, divulgada pelo grupo em sua página no Facebook.

No dia 4 de outubro, quase cem judeus se reuniram com Boulos e Erundina em um bate-papo virtual para entender as propostas da chapa. Os candidatos responderam cerca de 12 perguntas, uma sobre a questão Israel-Palestina e outra sobre tolerância religiosa, étnica, racial e a preservação da memória na cidade.

Dois integrantes do movimento Judeus pela Democracia, que reúne cerca de cem pessoas e defende uma série de pautas identitárias, conversaram com a Folha por email. O grupo, que não tem liderança, evita se manifestar após a escalada de vídeos, sendo um deles de tom violento e direcionado a parte de seus integrantes.

Eles disseram que incômodos passados com Boulos foram contemplados neste encontro.

“O que mais nos interessa nesse momento diz respeito ao seu compromisso com São Paulo e com políticas que visam à efetividade real dos direitos humanos na cidade. Nesse sentido, aquelas que dizem respeito ao combate à desigualdade social, à intolerância religiosa, ao racismo e ao antissemitismo", escreveram Flora Leite, 32, artista e pesquisadora, e Breno Benedykt, 32, professor e pesquisador.

O grupo não votará em bloco e muitos judeus que não pertencem ao coletivo têm declarado apoio público à chapa do PSOL. Há cerca de 45 mil eleitores judeus na capital paulista, de acordo com estimativa da Federação Israelita do estado.

Uma série de outras publicações surgiram nos últimos dias, contra e a favor do PSOL, todas com base no conflito entre Israel e Palestina.

Um dos últimos vídeos, veiculado na terça (24), traz presidentes e ex-presidentes de entidades judaicas, como da Associação Hebraica e do Congresso Judaico Latino Americano, além de médicos, empresários e do ex-deputado Floriano Pesaro (PSDB), declarando apoio a Bruno Covas.

Junto de alguns vídeos, circula um texto que resgata pubicações do site do PSOL, muitas de 2009. Nesse conjunto de links, são evidenciados, em especial, trechos em que o partido pede a ruptura de relações com o governo de Israel.

"De 2018 para cá, Boulos atenuou muito o discurso. Deu declarações públicas reconhecendo a legitimidade do Estado de Israel e reconheceu agressividade de textos passados. Viajou a Israel, o que os críticos nao fariam, se encontrou com políticos de esquerda israelense e isso possibiliou que angariasse outros setores da comunidade judaica que enxergam as eleições municipais de perspectiva mais ampla", diz Daniel Douek, diretor do IBI (Instituto Brasil Israel).

O grupo não se alia politicamente a um candidato e, segundo Douek, pautas ligadas a Israel não deveriam ser as únicas levadas na hora do voto, embora a instituição seja crítica a posicionamentos do PSOL, em especial o do boicote.

Em vídeo do encontro de Boulos com o grupo de cem judeus que a Folha teve acesso, o candidato diz que defende um projeto de paz para a região e que não cabe a ele dizer se isso vale em um Estado único ou em dois estados, ressaltando que o assunto não tem relação direta com a Prefeitura de São Paulo.

"No meu entendimento, é um projeto de paz por algo que envolva o fim das ocupações que hoje o governo de Israel se envolve na Cisjordânia contra toda a norma internacional, os direitos iguais aos árabes que vivem em Israel, como os judeus, e o direito de retorno de árabes palestinos que estão jogados na Jordânia, na Síria e no Líbano, em campos de refugiados em condições indignas."

Em nota, a assessoria da campanha afirmou que as posições a respeito do assunto "são públicas e já foram amplamente divulgadas nas redes do PSOL e da candidatura. Qualquer tentativa de vincular o candidato a práticas antissemitas é irresponsabilidade e fake news".

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