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Eleições 2020 datafolha

Intensidade das disputas mina neutralidade de parcela do eleitorado, indica Datafolha

SP e Recife têm contingente importante de indecisos e de entrevistados que podem mudar o voto, o que torna o quadro indefinido

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Alessandro Janoni

Diretor de Pesquisas do Datafolha

Os dados divulgados nesta quinta (26) pelo Datafolha refletem o grau de aquecimento das campanhas de segundo turno sobre o eleitorado das cidades que o instituto cobre.

A queda nas taxas de eleitores sem candidatos mostra o quanto esse segmento pode ter sido despertado pela intensidade célere das disputas municipais na reta final.

Com exceção do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife têm ainda um contingente importante tanto de indecisos quanto de entrevistados que podem mudar o voto, o que torna o quadro indefinido nos dois municípios.

Nas eleições de 2016 que foram para o segundo turno, o índice de indecisos somado aos que pretendiam votar em branco ou anular o voto, no geral, caiu pouco e lentamente durante o processo, sendo mais acentuado na véspera do pleito.

No segundo turno de 2012 em São Paulo, até oscilou para cima. A intensidade com que debates e a propaganda na TV atropelaram os eleitores logo após a primeira etapa da corrida neste ano atípico foi determinante para o fenômeno.

Na capital paulista, a vantagem de oito pontos de Bruno Covas (PSDB) sobre Guilherme Boulos (PSOL) nos votos válidos é significativa, mas não confortável.

As oscilações positivas do candidato do PSOL detectadas pelo Datafolha no início da semana em diferentes segmentos da população não se intensificaram nos últimos dois dias e, em alguns casos, apresentam variações negativas, como entre os moradores das áreas mais ricas das zonas oeste e norte.

No entanto, há ainda 15% de eleitores que cogitam mudar o voto, entre os quais 19% poderiam migrar para o esquerdista.

Boulos mantém o patamar de intenções de voto porque apresenta evolução contínua entre os mais jovens e melhora o seu desempenho no extremo leste da capital.

No lado oposto, Covas, apesar de oscilação negativa, tem apoio bastante cristalizado entre os mais velhos, menos escolarizados e entre os evangélicos. Atrai regiões com tradição eleitoral conservadora do centro expandido e mantém a liderança nas periferias das zonas sul e norte. Tem ainda potencial para conseguir 17% dos eleitores-pêndulo.

Na campanha conseguiu melhorar a percepção sobre sua gestão, convertendo-a em intenções de voto. Ironicamente, um dos prefeitos que mais estabeleceu normas para o isolamento social deve torcer agora para que a abstenção provocada por medo da Covid no primeiro turno não se repita em grau e perfil no próximo domingo —estima-se que o candidato foi um dos que mais perdeu pontos em razão da ocorrência.

Boulos começa a apresentar propostas mais concretas em seu programa, mas o tempo pode ser curto para comunicação dirigida. Talvez guarde suas últimas fichas para o debate na TV, nesta sexta-feira (27), com esperança de alcançar fatias de maior peso na composição do eleitorado.

No Recife, o tom duro no acirramento da disputa surpreende em função das esferas que a permeiam: as divisões do clã Arraes e da esquerda.

Ataques recíprocos entre os primos Marilia (PT) e João (PSB) também mobilizaram aqueles que pretendiam votar em branco ou anular o voto. Na capital pernambucana, os “sem-candidato”, que na pesquisa anterior somavam 24%, caem agora para 17%.

No mesmo período, no total, Campos oscila seis pontos positivos e Marília dois, o que faz a vantagem da petista nos votos válidos cair de dez para quatro pontos em uma semana e produzir um quadro de empate técnico, dentro da margem de erro.

Ao se observar a evolução por segmentos, material com valores religiosos divulgado por Campos contra Marília por meio de panfletagem, no horário eleitoral e em mobilização de bases, parece ter gerado efeito sobre o eleitorado evangélico.

No estrato que corresponde a 28% da população da cidade, a pré-disposição em votar em branco ou nulo caiu dez pontos, e a intenção de eleger o deputado do PSB subiu 13.

João ganha pontos também entre os que possuem de 25 a 44 anos, faixa etária à qual ambos os candidatos pertencem. Coincidência ou não, uma das frases mais fortes de sua concorrente nos primeiros debates do segundo turno e que teve repercussão em diferentes meios envolvia o tema –"a prefeitura não é pirulito para entregá-la a um menino”.

E diferentemente do que acontece na corrida pela Prefeitura de São Paulo, em que se apresentam unidos por Boulos, no Recife Lula (PT) e Ciro (PDT) travam um cabo de guerra. Cada um de um lado na propaganda de TV tenta puxar eleitores para seus candidatos.

Com quase 30% de simpatizantes do PT na composição do eleitorado, a petista consegue 88% dos votos válidos no segmento, vantagem que no início do processo eleitoral não existia —os dois candidatos dividiam o estrato no começo de outubro.

No entanto, Marília tem dificuldade em manter a maioria dos votos válidos entre os eleitores de menor renda. Campos passa a liderar no segmento, como vinha fazendo no primeiro turno.

A sobreposição desse estrato com o dos evangélicos é elevada, o que pode explicar essa evolução do candidato do PSB —70% dos que seguem a religião ganham até dois salários mínimos.

O índice dos que ainda cogitam mudar o voto na capital pernambucana (13%), somado ao de indecisos (4%), torna a disputa totalmente indefinida.

No Rio de Janeiro, a fidelidade da base religiosa do atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) é insuficiente para anular a alta rejeição à sua administração. Mesmo depois do início do horário eleitoral do segundo turno, ele fica, em votos válidos, a cerca de 40 pontos percentuais do líder Eduardo Paes (DEM).

Talvez por se tratar de uma disputa menos acirrada, o índice dos que pretendem votar em branco ou anular o voto também recua entre os cariocas, mas em menor grau —passa de 22% para 18%, o que provoca oscilações no total das intenções de voto de ambos.

No Rio, a taxa dos que dizem que ainda podem mudar o voto, mesmo que somada aos indecisos, seria insuficiente para uma aproximação de Crivella da liderança, o que garante situação confortável a Paes.

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