Militares do Planalto pedem discrição a Mourão após embates com Bolsonaro

Instável relação entre presidente e vice entrou em uma nova fase de divergências e críticas abertas

Brasília

A instável relação entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seu vice, Hamilton Mourão, entrou nos últimos dias em uma nova fase de divergências e críticas abertas, levando militares do Planalto a pedirem para o general submergir.

Um dia após o auge da crise, no entanto, depois que auxiliares de Bolsonaro entraram em ação, o general se recusou a baixar o tom e manteve a rotina de declarações à imprensa, muitas delas sobre temas que já haviam desagradado o presidente.

Mourão voltou a falar de eleições americanas na manhã desta sexta-feira (13), indicando a vitória do candidato democrata Joe Biden —fato que o governo brasileiro reluta em reconhecer.

"Como indivíduo, julgo que a vitória do Joe Biden está cada vez mais sendo irreversível”, afirmou Mourão, em entrevista à Rádio Gaúcha.

Embora ressalte que se tratava da posição do indivíduo "Antônio Hamilton" e que o assunto oficialmente é de responsabilidade do presidente da República, a fala ganhou repercussão, pois foi o primeiro integrante do atual governo a se manifestar em favor de Biden.

Pouco depois, Mourão também apoiou fala do comandante do Exército, Edson Leal Pujol, na linha de que militares devem ficar fora da política. Mais do que isso, foi direto ao afirmar que oficiais da ativa "esses realmente não podem estar participando disso".

A gestão Bolsonaro tem dois comandantes da ativa no primeiro escalão: o general Eduardo Pazuello (ministro da Saúde) e o almirante Flávio Rocha (chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos).

À noite, Bolsonaro comentou nas redes sociais a declaração de Pujol e disse que ela vai exatamente "ao encontro" do que ele pensa "sobre o papel das Forças Armadas no cenário nacional". O presidente afirmou que elas são o maior "sustentáculo da democracia e da liberdade".

"Devem, por isso, se manter apartidárias, 'baseadas na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República'", concluiu o presidente.

​As novas falas de Mourão, um dia após o auge da crise entre os dois, sinaliza que o general pretende não aceitar calado as críticas públicas e a pressão para que mantenha um comportamento mais discreto.

​O auge e episódio mais recente das rusgas foi a proposta que consta de uma apresentação do Conselho Nacional da Amazônia Legal, presidido por Mourão, na qual está prevista a expropriação de propriedades nos casos de crimes ambientais. ​

O documento prevê o encaminhamento de uma PEC (proposta de emenda Constitucional) em maio do próximo ano para autorizar expropriação de propriedades rurais e urbanas acometidas de crimes ambientais ou decorrentes de grilagem ou de exploração de terra pública sem autorização.

Além disso, a ideia é reduzir verbas de municípios que desmatam.

Sem citar o nome do vice-presidente, Bolsonaro falou que poderia demitir o integrante do seu governo que apresentasse essa proposta, a não ser que se tratasse de alguém "indemissível".

"Ou é mais uma mentira ou alguém deslumbrado do governo resolveu plantar esta notícia. A propriedade privada é sagrada, não existe nenhuma hipótese neste sentido", afirmou o presidente ao deixar o Palácio da Alvorada na manhã desta quinta-feira (12).

"Se alguém levantar isso aí eu simplesmente demito do governo. A não ser que esta pessoa seja indemissível", disse.

O assunto voltou a ser comentado durante transmissão ao vivo em suas redes sociais no mesmo dia, quando o presidente disse que era caso de "cartão vermelho", se fosse uma pessoa demissível —Mourão foi eleito, portanto não pode ser demitido por Bolsonaro.

Após as manifestações de Bolsonaro, Mourão disse que se "penitencia" por não ter colocado os documentos que mencionam a proposta em sigilo.

Afirmou também que eram apenas de "ideias" discutidas pelos ministérios, que não devem avançar. Terminou falando que, se fosse presidente, também estaria "extremamente irritado" com a situação.

A sequência de estocadas do presidente em Mourão fez com que militares bombeiros do Planalto entrassem novamente em ação para baixar a temperatura.

O pedido foi, mais uma vez, para o vice-presidente evitar falar de temas que digam respeito ao presidente e reduzir suas falas à imprensa.

No ano passado, em outro momento no qual Mourão e Bolsonaro trocavam rusgas públicas, assessores presidenciais também tiveram que interferir para evitar a escalada da crise.

Para assessores presidenciais, a fase atual de atrito não ocorre porque houve aumento na insatisfação de Bolsonaro com o parceiro de chapa, mas porque o presidente estava havia muito tempo calado.

Desde o meio do ano, o mandatário, diante de brigas com o Congresso e Judiciário, passou a adotar tom menos bélico de um modo geral. Nesta semana, ele retomou seu perfil agressivo em diversas declarações.

As críticas a Mourão, avaliam integrantes do Planalto, se relacionam com este momento do presidente, que, segundo eles, não é possível afirmar se passará cedo ou tarde.

​A questão da proposta de expropriar terras foi apenas o mais recente foco de atrito entre os dois militares.

Recentemente, Bolsonaro já havia desautorizado seu vice por declarações referentes às eleições americanas, à vacina de origem chinesa, ao leilão do 5G, entre outros assuntos.

A irritação do presidente com seu vice vem sendo manifestada mesmo quando Mourão atua para contornar a pressão em cima de Bolsonaro.

O atual governo tem sido duramente criticado por não ter se manifestado sobre as eleições presidenciais americanas, vencidas pelo democrata Joe Biden.

Ao ser questionado sobre o silêncio de Bolsonaro, Mourão afirmou que o presidente aguardava terminar o "imbróglio" em relação ao resultado para em seguida se posicionar.

"Eu julgo que o presidente está aguardando terminar esse imbróglio aí, de discussão se tem voto falso, se não tem voto falso, para dar o posicionamento dele", disse o vice-presidente.

"É óbvio que o presidente na hora certa vai transmitir os cumprimentos do Brasil a quem for eleito."

Bolsonaro disse que as declarações de Mourão representavam apenas a "opinião" dele e que não havia conversado com Mourão sobre assuntos dos Estados Unidos, como "não tenho falado sobre qualquer outro assunto com ele", afirmou à CNN.

Em outras duas situações, Mourão afirmou que o Brasil iria adquirir a vacina contra a Covid-19 Coronavac —parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac— e também falou que o leilão para o 5G levaria em conta critérios técnicos, sem restrições à origem da tecnologia oferecida.

Em ambos os casos, Bolsonaro afirmou em seguida que a decisão era dele.

Além de críticas públicas, Bolsonaro demonstra frequentemente insatisfação com o comportamento de Mourão a seus interlocutores.

Como a Folha mostrou, o presidente inclusive já manifestou a aliados próximos que não pretende concorrer à reeleição tendo seu atual vice como companheiro de chapa. Uma saída "honrosa" para Mourão seria lançá-lo candidato a governador do Rio Grande do Sul.

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