Descrição de chapéu Eleições 2020

Nas redes sociais, candidatos de SP erram sobre saúde e desemprego

Lupa checou postagens de Covas, Boulos, Russomanno e França

Carol Macário Maurício Moraes
São Paulo | Agência Lupa

Os candidatos à Prefeitura de São Paulo têm usado as redes sociais como plataforma de campanha para divulgar propostas, mas, também, para atacar os adversários —nem sempre com informações corretas.

Todos os políticos na disputa paulistana são atuantes no Facebook, Instagram e Twitter, com exceção de Antônio Carlos Silva (PCO), que tem apenas um perfil no Facebook. O mais popular entre os internautas é Guilherme Boulos (PSOL), que soma mais de 1 milhão de seguidores no Instagram e no Twitter.

A Lupa checou algumas afirmações feitas nos perfis sociais dos quatro candidatos mais bem posicionados na última pesquisa Datafolha, divulgada em 11 de novembro: Bruno Covas (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Celso Russomanno (Republicanos) e Márcio França (PSB).

Russomanno, Boulos, França e Covas durante debate Folha/UOL
Russomanno, Boulos, França e Covas durante debate Folha/UOL - Mariana Pekin/UOL

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Bruno Covas (PSDB)


“(...) Fizemos muito! 12 novos CEUs (...)”
Em seu perfil no Instagram no dia 2 de outubro


AINDA É CEDO O relatório do Programa de Metas da gestão 2017-2020 (página 70), divulgado em agosto deste ano, listou seis CEUs (Centros Educacionais Unificados) já entregues e outros seis com prazo de conclusão previsto para o final de novembro. No começo de outubro, as obras dos CEUs de Pinheirinho D'Água, Freguesia do Ó, Parque Novo Mundo, Carrão/Tatuapé, José Anchieta e Taipas ainda estavam em andamento.

Procurado pela Lupa, o candidato não respondeu até a publicação deste texto.


“(...) e 85 mil vagas em creches (...). Mas ainda há muito mais o que fazer”
Em seu perfil no Instagram no dia 2 de outubro


AINDA É CEDO No dado mais recente disponível no site da Secretaria Municipal de Educação, referente a setembro de 2020, havia 357,5 mil crianças matriculadas em creches municipais da capital paulista. O saldo representa um incremento de 73.333 novas vagas em relação a dezembro de 2016, último ano da gestão de Fernando Haddad (PT), quando 284,1 mil crianças estavam matriculadas. O relatório de metas prevê que até dezembro serão criadas 85 mil novas vagas (página 41).

Procurado pela Lupa, o candidato não respondeu até a publicação deste texto.


“Hoje é o Dia Mundial dos Animais e visitei o Cãotinho, da praça O Bom Samaritano em Aricanduva, que inauguramos no ano passado. Foram mais de cinquenta espaços como esse que nós fizemos por toda cidade. Sem falar no Hospital Veterinário da Zona Sul”

Em seu perfil no Instagram no dia 4 de outubro


VERDADEIRO São Paulo tem atualmente 66 ParCães, que são espaços especiais para cachorros, gatos e seus donos em praças da cidade. Há também os cachorródromos dos parques municipais Aclimação, Buenos Aires, Burle Marx, Linear Mongaguá e Vila do Rodeio, inaugurados há mais de quatro anos, segundo a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Dos 66 ParCães existentes, 50 foram implantados a partir de janeiro de 2017, informou a prefeitura de São Paulo em nota enviada pelo WhatsApp.


Guilherme Boulos (PSOL)


“(...) São 3 milhões de desempregados na nossa cidade”
Em seu perfil no Instagram no dia 2 de outubro

FALSO A cidade de São Paulo tinha 937 mil pessoas desocupadas no primeiro trimestre de 2020, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE. O número mencionado por Boulos é referente ao estado de São Paulo, que no mesmo período contabilizou três milhões de desocupados. Em todo o país, o número de pessoas sem ocupação chegou a 12,8 milhões. Os dados do segundo trimestre para o município ainda não estão disponíveis.

Procurado pela Lupa, o candidato não respondeu até a publicação deste texto.


“Sou o único candidato que mora na periferia. Pra mim, as pessoas que moram na periferia não são só um número, uma estatística. Eles são meus vizinhos. E vão ser prioridade no meu governo.”
Em seu perfil no Twitter no dia 3 de novembro


VERDADEIRO Dos 13 candidatos que concorrem à Prefeitura de São Paulo, a maior parte vive na região central da cidade. Guilherme Boulos é o único que vive em uma região periférica: o Jardim Catanduva, no distrito do Campo Limpo, na zona sul. O candidato mora no bairro há cerca de sete anos. Antes disso, morou na Pompeia, na zona oeste, e chegou a morar em uma ocupação em Osasco, na região metropolitana de São Paulo.


“Itaú tem multa de R$3,8 BILHÕES com a Prefeitura de São Paulo por fraude fiscal. Com esse valor, dá pra pagar um ano de renda solidária em São Paulo e ainda sobra! Vamos virar esse jogo!”
Em seu perfil no Twitter no dia 31 de outubro


VERDADEIRO Em novembro de 2019, a Prefeitura de São Paulo multou o banco Itaú em R$ 3,8 bilhões por supostamente ter sonegado impostos, entre os quais o ISS (Imposto Sobre Serviços). O banco foi investigado por simulação de endereço nos municípios de Poá e Barueri, na Grande São Paulo, e, dessa forma, não pagou impostos na capital paulista. A decisão da prefeitura foi baseada no relatório final da CPI da Sonegação Tributária, que pediu o indiciamento de executivos dos bancos Itaú Leasing e Safra Leasing.

Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, o banco afirmou que a multa refere-se às operações na cidade de Poá, onde manteve operações durante décadas e com estrutura de pessoal, espaço físico e tecnologia. Também disse que “já está atuando para que a autuação seja cancelada e está certo de que conseguirá comprovar a legitimidade da sua conduta na esfera administrativa e/ou judicial.”

Informou ainda que a decisão de estruturar operações no município se deu por incentivos fiscais oferecidos nos anos 1990 e extintos em 2016. “O Itaú manteve regularmente atividades na cidade, mesmo sem o benefício, e cumpriu fielmente a legislação fiscal, recolhendo o tributo municipal para o local onde efetivamente realizava a prestação de serviços."


“Celso Russomanno é acusado em um Boletim de Ocorrência de tentar furtar um gerador de energia de R$ 125 mil do prédio onde funcionava o bar que era dono. Humilhação de trabalhadores, dívida com garçons, calotes milionários e agora furto! Isso que é currículo!”
Em seu perfil no Twitter no dia 31 de outubro de 2020


VERDADEIRO Em maio de 2017, o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) foi acusado em um boletim de ocorrência de ter tentado furtar um gerador de energia do prédio onde funcionou o restaurante e Bar do Alemão, em Brasília. Ele era sócio do estabelecimento. O caso voltou a ganhar repercussão em outubro deste ano. De acordo com reportagem do UOL, o parlamentar e candidato a prefeito de São Paulo tentou furtar o equipamento, avaliado em R$ 120 mil, cerca de um ano depois que um processo judicial resultou no despejo do bar.

O empresário João Carlos Cendron, dono do restaurante, relatou no boletim de ocorrência, registrado na 5ª Delegacia de Polícia Civil do Distrito Federal, que Russomanno apareceu no local com um assessor e um caminhão para transportar o gerador. O equipamento só não foi levado porque Cendron acionou o dono do imóvel onde a máquina estava guardada.

Na época, o caso foi parar na Polícia Federal a pedido do ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal).


Celso Russomanno (Republicanos)

“Novo lockdown: totalmente contra. A economia da cidade não aguentaria. Além disso, até a OMS já admitiu que não é solução. (...)”
Em seu perfil no Twitter no dia 27 de outubro


FALSO Não é verdade que a OMS (Organização Mundial da Saúde) tenha admitido que o "lockdown" não seja uma solução para minimizar o impacto da pandemia do novo coronavírus. Em outubro deste ano, David Nabarro, enviado especial da OMS para assuntos relacionados à Covid-19, falou em uma entrevista à revista britânica The Spectator que o isolamento é justificável em momentos de crise, ainda que a entidade não defenda o "lockdown" como o principal meio de controle.

Essa informação foi retirada de contexto e viralizou no último mês, sugerindo que organização teria voltado atrás e condenado a utilização do isolamento. Durante a entrevista, o emissário afirmou o seguinte: “Acreditamos que o 'lockdown' se justifica quando você precisa ganhar tempo para reorganizar, reagrupar e reequilibrar seus recursos e proteger seus profissionais de saúde que estão exaustos”.

No dia 13 de outubro, a própria entidade manifestou-se sobre o assunto em seu perfil no Twitter. Afirmou estar ciente das discussões sobre o "lockdown" em razão dos novos picos de infecção em alguns países.

“Entendemos que às vezes tais medidas —embora não sejam sustentáveis— são necessárias para suprimir rapidamente o vírus e evitar que os sistemas de saúde sejam sobrecarregados”, informou.

Em nota enviada pela sua assessoria de imprensa no Brasil, a organização disse que os "lockdowns" não são soluções sustentáveis devido a seus impactos econômicos, sociais e de saúde mais amplos. "No entanto, durante a pandemia de Covid-19, houve momentos em que as restrições foram necessárias e pode haver outros momentos no futuro”, diz o texto. A orientação é que todas as medidas existentes precisam ser feitas em conjunto. “A razão de continuarmos dizendo que funciona é porque vimos isso acontecer, vimos países controlarem esses surtos de Covid-19 implementando essas medidas”, concluiu.

O distanciamento físico, quando possível, e o uso de uma máscara seguem sendo recomendações da OMS.

Procurado pela Lupa, o candidato não respondeu até a publicação deste texto.



“(...) Haddad, do PT, não construiu nenhum hospital (...)”
Em seu perfil no Instagram no dia 15 de outubro


VERDADEIRO, MAS Embora Fernando Haddad (PT), que foi prefeito de São Paulo de 2013 a 2016, não tenha concluído a construção de nenhum hospital municipal, as obras de dois deles foram iniciadas em sua gestão: Parelheiros e Brasilândia. Já o Hospital Municipal Alexandre Zaio teve apenas o processo de licitação para ampliação e reforma iniciado. No balanço do Programa de Metas do ex-prefeito, apresentado em dezembro de 2016, as construções das unidades foram classificadas com o status de 75,8% do objetivo alcançado.

Consta também a conclusão do Hospital Municipal da Vila Santa Catarina, antigo Santa Marina. Esse hospital foi inaugurado no governo Haddad, mas não foi construído por sua gestão. Ele foi reaberto ao público em junho de 2015, depois de quatro anos fechado, por meio de um convênio do Ministério da Saúde e da Prefeitura de São Paulo com o Hospital Israelita Albert Einstein.

O Hospital Municipal de Parelheiros começou a ser erguido em janeiro de 2015 e foi entregue já na gestão de João Doria, em março de 2018, antes de ele se candidatar a governador. Já o Hospital Municipal de Vila Brasilândia começou a ser construído também em 2015, teve a obra parada em 2016, e, em maio deste ano, teve uma parte inaugurada: uma ala com leitos de UTI e de enfermaria.


“Doria aumentou im­postos sobre a Pro­pri­e­dade de Veí­culos Au­to­mo­tores e sobre Cir­cu­lação de Mer­ca­doria e Ser­viços. Isso prejudica a indústria, os empregos e a vida dos paulistas. Vc pode reagir a isso nas urnas, tirando o poste dele, Bruno Covas, da Prefeitura.”
Em seu perfil no Twitter no dia 27 de outubro

VERDADEIRO A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou, no dia 14 de outubro, o projeto de lei nº 529/2020, do governador João Doria (PSDB), que propõe, entre outros pontos, ajuste fiscal e alterações em algumas estatais. A iniciativa, transformada na lei 17.293/2020, prevê o aumento de 3% para 4% na alíquota do IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores). Também foi limitada a isenção do IPVA para pessoas com deficiência. Agora, o benefício é restrito apenas a condutores com deficiências mais severas, ou seja, familiares dessas pessoas não terão isenção.

Em relação ao ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), a nova lei reduziu os benefícios fiscais em 20% em todo o estado. Também passou a considerar como um benefício fiscal toda alíquota inferior a 18%. Na prática, isso representa um aumento de carga tributária para diversos segmentos.


Márcio França (PSB)

“Quando fui governador, zerei a fila de espera para cadeira de rodas e agora colocaremos ponto de retirada de cadeiras de rodas elétricas na estação de metrô AACD-Servidor, sugestão que recebi do Dudu Braga, deficiente visual e filho do Roberto Carlos”
Em seu perfil no Instagram no dia 23 de outubro


FALSO De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, é “inadequada a informação de que foi ‘zerada a fila’ de cadeiras de rodas”. Isso porque, segundo a assessoria de comunicação da pasta, a demanda por órteses, próteses e materiais especiais (OPM), grupo em que está incluída a cadeira de rodas, é descentralizada em diferentes serviços que, em sua maioria, são administrados pelos municípios.

Durante o período em que Márcio França foi governador, entre 6 de abril de 2018 e 1º de janeiro de 2019, o governo estadual forneceu 863 cadeiras de rodas em ações de rotina da rede de reabilitação Lucy Montoro, que integra 17 serviços sob responsabilidade do governo do estado de São Paulo. Ao longo de todo o ano de 2018, ou seja, de janeiro a dezembro, foram disponibilizados 15 mil desses itens por meio de todo o SUS em São Paulo.

Além disso, o próprio candidato prometeu zerar a fila de espera para cadeira de rodas em todo o estado quando disputou a reeleição para governador, em outubro de 2018, ou seja, no final de sua gestão, essa fila ainda não estava zerada. Na época, ele também prometeu zerar a fila de órteses e próteses.

Procurado pela Lupa, o candidato afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que diante da “disputa eleitoral das mais acirradas, causa estranheza que a agência cheque suas informações a partir de uma nota oferecida pela assessoria de imprensa do estado, sob a tutela da gestão Doria (PSDB)”.


“(...) R$ 100 milhões gastos em hospitais de campanhas que já estão desmontados”
Em seu perfil no Instagram no dia 19 de outubro de 2020

VERDADEIRO A Prefeitura de São Paulo construiu dois hospitais de campanha para ajudar no atendimento de pacientes com Covid-19, o Hospital de Campanha do Anhembi e o Hospital de Campanha do Pacaembu, ambos já desativados em razão da queda do número de atendimentos. O custo total das duas unidades, incluindo implantação e a manutenção mensal, foi de R$ 126 milhões. A assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde informou, em nota, que desse montante, R$ 18 milhões foram devolvidos aos cofres públicos após a prestação de contas. O gasto, portanto, ficou em R$ 108 milhões, dado muito próximo do que foi citado por França.

A devolução ocorreu porque os pagamentos seguiam as estimativas de despesas mensais apresentadas pelas organizações sociais que cuidavam dos dois hospitais, de acordo com as diretrizes definidas pela secretaria. A assessoria de imprensa da pasta também afirmou que todos os equipamentos usados foram distribuídos para hospitais da rede municipal e os profissionais, realocados.

O Hospital de Campanha do Anhembi foi aberto em 11 de abril e teve custo mensal de manutenção de cerca de R$ 28 milhões até agosto, quando uma parte foi desativada e o gasto caiu para R$ 9 milhões. O fechamento total da estrutura temporária foi em 8 de setembro. Já o Hospital de Campanha do Pacaembu, aberto em 6 de abril, fechou as portas ainda antes, no dia 29 de junho, e teve custo total de R$ 23 milhões (manutenção e implantação).


"Quando governador, ampliei a categoria de veículos e reduzi, pela metade, o tempo de venda de carros para pessoas com deficiência. Mas olha só: o Doria mandou para a Assembleia Legislativa uma proposta para revogar esse direito, que foi conquistado com muita luta e beneficiou muitos paulistanos"
Em seu perfil no Instagram no dia 27 de outubro


VERDADEIRO Em julho de 2018, quando ainda era governador de São Paulo, Márcio França publicou o decreto nº 63.603, não confirmando a adesão do estado de São Paulo ao convênio ICMS-50/18, que ampliou de dois para quatro anos o prazo mínimo para manutenção da isenção de imposto de carros para pessoas com deficiência. Além de São Paulo, Goiás também não ratificou o convênio e, com isso, o prazo de dois anos seguiu valendo em ambos os estados.

Em outubro de 2020, o governador João Doria (PSDB) editou o decreto nº 65.259 alterando o prazo de dois para quatro anos, como previa o convênio ICMS-50/18.

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