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Eleições 2020 datafolha

Novas pesquisas do Datafolha refletem reações de campanhas e projetam novas variações

Levantamentos divulgados nesta quinta (5) apontam oscilações em meio a processos de desconstrução de candidatos

Alessandro Janoni

Diretor de Pesquisas do Datafolha

Os dados divulgados nesta quinta-feira (5) pelo Datafolha carregam os reflexos de mudanças nas campanhas em razão das pesquisas divulgadas nas últimas semanas.

Ataques aos que cresceram nas intenções de voto e redirecionamento de propostas alcançam segmentos do eleitorado com diferentes graus de impacto.

Em São Paulo, a propaganda de Bruno Covas (PSDB) presta contas de sua gestão aos eleitores, consegue anular a impopularidade do sobrenome Doria que os adversários tentam alcunhá-lo e vem convertendo em apoio à reeleição aos poucos, com “força, foco e fé”, a aprovação de seu desempenho, principalmente no combate à pandemia.

Considerando-se o período anterior ao horário eleitoral, sua ascensão é contínua e totaliza oito pontos percentuais em pouco mais de um mês.

Nesse espaço de tempo, nenhum outro candidato evoluiu tanto em segmentos de peso do eleitorado, como entre as mulheres, os que têm idade igual ou superior a 45 anos, os que estudaram até o ensino médio e os que possuem renda familiar de até cinco salários mínimos —estratos que sofreram grande impacto social e econômico durante a quarentena.

A perspectiva otimista transmitida pela campanha já invadia o imaginário dos católicos (cresceu 14 pontos percentuais nesse estrato em relação a setembro) e agora parece atrair também parte dos evangélicos, reduto de Celso Russomanno (Republicanos), que subiu cinco pontos no segmento.

O deputado federal cai na média para uma taxa de apoio inferior à que o tirou do segundo turno em 2012, ao conseguir nas urnas 19% do total de votos, contra 25% de Fernando Haddad (PT) e 27% de José Serra (PSDB).

A característica da evolução do prefeito é um alerta para os concorrentes, especialmente para Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB), que empatam com Russomanno no segundo lugar.

Os candidatos Bruno Covas, Celso Russomanno, Guilherme Boulos e Marcio França em campanha para a Prefeitura de São Paulo - Divulgação

Apesar das conjunturas serem distintas, Covas já tem o percentual obtido por Serra nas urnas há oito anos e se vê em patamar superior aos 25% que João Doria (PSDB) apresentava a dez dias do pleito de 2016, liquidado no primeiro turno.

Mas, há quatro anos, a migração de Russomanno para Doria era mais clara. Agora, o bom desempenho de França como segunda opção de voto dos eleitores que cogitam mudá-lo pode limitar o potencial de Covas.

O candidato do PSB acumula cinco pontos de evolução em pouco mais de um mês e supera Guilherme Boulos em estratos de menores escolaridade e renda.

O candidato do PSOL, pelo pouco tempo de TV, mantém-se com o apoio de nichos mais ativos em redes sociais, como os jovens e os que têm nível superior, mas encontra dificuldade para se comunicar com segmentos de maior peso no eleitorado e que tendiam à esquerda em eleições anteriores, como os mais pobres e moradores das periferias das zonas leste e sul.

No Rio de Janeiro, as oscilações positivas de Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) refletem reações das campanhas ao crescimento da delegada Martha Rocha (PDT).

A candidata ameaçava tanto o avanço de Crivella e Benedita da Silva (PT) para a próxima etapa da disputa como tinha força em um confronto com Paes no segundo turno.

Ao sofrer um processo de “desconstrução” por parte dos adversários, com uma série de ataques que vão de ligação com bicheiros, o ex-governador Sérgio Cabral (MDB) e recebimento de propina, a pedetista vê a rejeição ao seu nome crescer lentamente e fica estagnada nas intenções de voto.

Para Crivella, mais do que a participação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na sua propaganda, a apresentação da primeira-dama e de sua vice, a militar Andrea Firmo, fez com que o prefeito dialogasse com um estrato do eleitorado que vinha sendo negligenciado por sua campanha —as mulheres. Ele cresceu seis pontos percentuais nesse segmento.

No Recife, outra delegada, Patrícia Domingos (Podemos), que cresceu nas pesquisas anteriores ao personificar oposição aos dois candidatos da família Arraes, também vem sendo desconstruída.

O crescimento de 20 pontos em sua rejeição e a oscilação negativa nas intenções de voto são resultado da repercussão de postagens com marcadores de preconceito contra a população da capital pernambucana, feitas em redes sociais pouco tempo depois da candidata, natural do Rio de Janeiro, assumir o cargo na Polícia Civil de Pernambuco.

A desidratação de Patrícia lança o foco para outra mulher, Marília Arraes (PT), que, ao conseguir a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no horário eleitoral, subiu seis pontos percentuais entre os simpatizantes do PT. O partido alcança quase um terço na composição do eleitorado no Recife.

Marília também cresce em estratos importantes —sete pontos entre os homens e seis entre os de menor renda.

João Campos (PSB), seu primo, apesar de liderar a disputa com dez pontos de vantagem, protagoniza o pior desempenho do PSB em eleições municipais, em período equivalente, considerando-se os dois últimos pleitos.

Em Belo Horizonte, o cenário lembra um céu de brigadeiro para o prefeito Alexandre Kalil (PSD), que conquista a liderança majoritária em todos os segmentos sociais da capital mineira e emplaca mais de 70% dos votos válidos.

Na pergunta espontânea, o prefeito ganha ares de “top of mind” —é imediatamente citado por 57% dos eleitores.

Mas a história e os resultados desta quinta do Datafolha provam que um eventual deslumbramento pela popularidade pode gerar turbulência, mesmo em condições que pareçam favoráveis.

Na disputa de Belo Horizonte, é muito improvável um abalo importante, mas nas outras cidades, como mais de um terço dos eleitores cogitam a possibilidade de mudar o voto —o índice chega a 42% em São Paulo—, a última semana de campanha promete novas oscilações.

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