Atropelos, rejeição em SP e frágil identidade nacional são desafios de Doria por candidatura em 2022

Governador é visto como presidenciável entre tucanos paulistas, mas precisa vencer resistência no PSDB

São Paulo

O conselho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) de que João Doria (PSDB) precisa se nacionalizar se quiser concorrer à Presidência da República em 2022 deu a dimensão dos obstáculos que o governador paulista terá que superar para alcançar seu objetivo.

Doria enfrenta dificuldades internas, com resistência de parte dos tucanos ao seu nome, e externas, pois precisa recuperar prestígio entre seu eleitorado. A eleição municipal na capital paulista, apesar de ter sido vencida pelo aliado Bruno Covas (PSDB), escancarou a rejeição dos moradores de São Paulo ao governador.

O governador João Doria (PSDB) com o prefeito Bruno Covas (PSDB), no dia do segundo turno em São Paulo - Reinaldo Canato - 29.nov.2020/UOL

O governador declarou que não será candidato à reeleição e quer emplacar seu vice, Rodrigo Garcia (DEM), na sucessão do Palácio dos Bandeirantes. Mirando o Planalto, Doria investe na articulação para formar uma frente de partidos de centro —mas antes de vislumbrar ser escolhido candidato por esse bloco, precisa aglutinar apoios no próprio PSDB.

Membros do partido têm a avaliação de que Doria tem prestígio e aliados entre os tucanos paulistas, até por controlar o diretório estadual da sigla, mas está longe de ser unanimidade entre líderes do PSDB de outros estados.

A principal aposta de Doria para cair nas graças dos paulistas e tornar-se conhecido pelo país é a vacina do laboratório chinês Sinovac, que será produzida pelo Instituto Butantan. O imunizante antecipou a disputa eleitoral com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que pretende concorrer à reeleição.

Caso a vacinação no estado anteceda a federal e seja eficaz, até adversários do governador avaliam que ele se tornará viável eleitoralmente. Colher resultados em São Paulo e diminuir a rejeição dos eleitores é condição para que tucanos de todo o país abracem sua candidatura ao Planalto.

Eleito em primeiro turno, em 2016, para a Prefeitura de São Paulo, o empresário neófito na política logo desencantou o eleitor ao abandonar o posto para concorrer ao governo do estado. Em 2018, voltou a vencer, mas por margem apertada –51,75% a 48,25%.

De maneira reservada, tucanos de fora de São Paulo afirmam que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), é mais querido e bem visto como representante do partido na corrida nacional de 2022. A possibilidade de prévias está colocada, segundo eles.

Já membros do PSDB de São Paulo afirmam que Doria será candidato sem dúvidas e planejam pleitear a ele ou a Covas a presidência do partido em maio, o que ajudaria a consolidar seu nome.

Os paulistas, apesar de já verem Doria com dimensão nacional inconteste e entregas para exibir no estado, afirmam que sua costura federal ainda será feita, com dedicação a conversas com líderes regionais.

Os tucanos resistentes a Doria dizem que ele não representa os ideais da social-democracia, não é um tucano legítimo e tem tornado o PSDB um partido de paulistas. Avaliam que o governador não tem capilaridade no norte e no nordeste, e nem entre minorias, como negros e LGBTs.

Os duros embates com Bolsonaro, com provocações da parte de Doria, somados à virada ideológica dele, da direita “Bolsodoria” ao centro democrático, tampouco ajudam. A leitura é a de que o tom do governador está acima da moderação que o partido prega. Destoa ainda do resgate da política e da social-democracia –que Doria em tempos de gestor já quis enterrar.

Há ainda o trauma de 2018, quando o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), apesar de bem avaliado em São Paulo, teve apenas 4,76% dos votos para presidente. Para não contar apenas com seu quintal, tucanos afirmam que Doria deve viajar pelo país, conhecer realidades distintas, buscar identificação com o povo, sujar o sapato e bagunçar o cabelo –sua imagem de “engomadinho” não foi superada.

Outro ponto é o de que Doria é visto no PSDB como alguém que impõe sua vontade e atropela em vez de buscar o convencimento e o diálogo. Nesse sentido, o governador terá que cicatrizar feridas, melhorar o ambiente e ver a política como construção coletiva, não projeto de poder pessoal.

Aqui são lembrados dois episódios que demonstram a falta de habilidade política de Doria e deixaram sequelas. O primeiro se refere aos pedidos de expulsão do deputado Aécio Neves (PSDB-MG), bancados pelo governador e que foram derrotados na executiva do partido em agosto de 2019.

O segundo foi a interferência direta de Doria na votação da bancada federal tucana para escolha de seu líder, algo que os deputados afirmam jamais terem visto. Há um ano, o governador chegou a articular licenças e filiações de deputados federais até alcançar a maioria que lhe favoreceu, estabelecendo Carlos Sampaio (PSDB-SP) como líder.

Parlamentares mencionam essa disputa como exemplo de que Doria flerta com o autoritarismo. Outros falam em caldo de resistência da bancada federal ao governador e lembram que o tucano comprou brigas mesmo dentro de São Paulo, com Alckmin, e desapontou a ala histórica do PSDB.

Entre os tucanos, há quem diga que uma candidatura de Doria seria isolada, não iria atrair o bloco de partidos de centro –veem que o governador serve ao papel de manter o PSDB no jogo para 2022, mas não irá se viabilizar.

A maioria, porém, afirma que as dificuldades de Doria são superáveis e que ele poderá encabeçar uma chapa do PSDB ao Planalto, ainda que nem todos os tucanos embarquem em sua campanha.

Os correligionários também enumeram qualidades do governador e avaliam que seus entraves não representam demérito pessoal. Doria é visto como alguém de muita energia e determinação.

O presidente do PSDB, Bruno Araújo, tem dito que Doria é o principal nome da sigla, mas que é preciso dialogar com partidos de centro e construir um projeto, para mais tarde discutir alternativas e decidir a questão internamente de forma democrática.

“Ele tem esse ímpeto, essa vontade, essa disposição, e já deixou claro isso. É um nome forte. É governador do maior estado, o que proporciona a ele condições de ser um candidato competitivo”, diz o deputado federal Celso Sabino (PSDB-PA), que foi adversário de Doria na disputa da liderança.

“Tem todos os atributos e qualidades para se transformar num candidato competitivo do PSDB. Honesto, capaz, preparado, inteligente”, afirma o presidente do PSDB mineiro, deputado federal Paulo Abi-Ackel.

Braço direito do governador, o presidente do PSDB paulista, Marco Vinholi, diz que Doria focou em resultados para São Paulo e isso irá credenciá-lo para conduzir o país. Afirma ainda que o tucano renovou o partido e o tornou líder isolado em prefeituras no estado.

“Sua projeção nacional é evidente, sendo o principal antagonista de um governo irresponsável em relação à pandemia e o líder em um processo de obtenção da vacina para a imunização dos brasileiros”, diz.

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