Com aval de Bolsonaro, núcleo ideológico resiste a líder do centrão e tenta emplacar Tereza Cristina

Movimento para eleição da Câmara esbarra em temor de retaliação de Arthur Lira, candidato à sucessão de Rodrigo Maia

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Brasília

O núcleo ideológico do entorno do presidente Jair Bolsonaro intensificou o movimento para viabilizar uma candidatura governista alternativa ao comando da Câmara, diante da resistência ao nome do deputado Arthur Lira (PP-AL), líder do centrão.

A articulação tem a participação de integrantes das bancadas ruralista e evangélica, que trabalham pela construção de uma frente de apoio ao nome da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que é deputada federal licenciada pelo DEM de Mato Grosso do Sul.

A iniciativa teve um início tímido há dois meses e somente agora tem sido colocada de fato em prática pela base ideológica de Bolsonaro.

Antes de o grupo começar a arregimentar adesões, deputados bolsonaristas consultaram o presidente. Apesar de hoje apoiar o nome de Lira, Bolsonaro deu aval à movimentação, segundo disseram à Folha um parlamentar governista e um assessor palaciano.

A avaliação de defensores da candidatura alternativa é a de que Tereza agrega mais apoios que Lira.

Segundo eles, a ministra conta com a simpatia de deputados de esquerda e poderia até mesmo ter o respaldo de Maia, que hoje trabalha para viabilizar uma candidatura forte o suficiente para derrotar Lira.

O núcleo ideológico do Palácio do Planalto também argumenta que, apesar de não ser entusiasta da pauta de costumes, a ministra é mais aberta ao diálogo sobre o assunto do que Lira. A pauta de costumes é considerada prioritária para os parlamentares bolsonaristas.

Recentemente, Tereza foi consultada por deputados governistas sobre a possibilidade de sair candidata.

Segundo relatos feitos à Folha, ela disse que não iniciará movimento por uma candidatura, mas ressaltou que, caso seu nome tenha apoio consistente, coloca-se à disposição.

A pressão do bloco do centrão por cargos no governo, com o objetivo de oferecê-los como moeda de troca por votos na disputa legislativa, têm incomodado tanto o núcleo ideológico como a cúpula militar. Em conversa reservada, o próprio presidente se queixou sobre o apetite do centrão.

O receio do governo é que a exigência por cargos seja uma prática permanente durante uma eventual gestão de Lira, o que deixaria Bolsonaro, nas palavras de um assessor palaciano, em situação de chantagem ininterrupta.

Um aliado do governo define Lira como o "novo Eduardo Cunha", ex-presidente da Câmara.

Ele lembra que, antes de autorizar a abertura de processo de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff (PT), o deputado do MDB fez ameaças contra o governo da petista em troca de apoio no Conselho de Ética da Câmara.

No grupo de Maia, uma eventual candidatura de Tereza é classificada como ideal. Segundo aliados do deputado, o nome da ministra pacificaria as diferentes forças e permitiria até mesmo que o DEM abrisse mão de candidatura própria na disputa no Senado.

Eles observam, contudo, que, para que a candidatura se viabilize, Bolsonaro teria de abandonar Lira e anunciar apoio a Tereza. A iniciativa, no entanto, ainda esbarra no temor do governo de criar uma animosidade com Lira.

Aliados de Bolsonaro consideram que, ao entrar de cabeça na disputa legislativa, o presidente se tornou refém do líder do centrão. Para eles, caso o presidente desembarque da candidatura de Lira, o governo enfrentará retaliações de proporções inimagináveis.

O centrão reúne alguns dos maiores partidos da Câmara. Ele hoje serve de garantia para que pautas-bomba e pedidos de impeachment não prosperem no Congresso. Com o respaldo do presidente, Lira diz ter hoje o apoio de um conjunto de partidos que soma 171 deputados.

O bloco de Maia, que ainda não tem um candidato, reúne um grupo de legendas formado por 159 parlamentares. Ele tentava atrair o Republicanos, que tem 31 deputados, mas o presidente da legenda, deputado Marcos Pereira (SP), anunciou nesta quarta-feira que irá apoiar Lira.

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