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Visita de Bolsonaro a SP é prévia de como será campanha em 2022

Presidente critica vacina, chama Doria de rato, rasga privatização prometida, adula PMs e Silvio Santos

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São Paulo

Em sua breve passagem por São Paulo nesta terça (15), Jair Bolsonaro fez o barulho de sempre. Esbravejou contra vacinas (amansou no teatro do dia seguinte), xingou João Doria de rato e promoveu a usual irresponsabilidade sanitária ao discursar na Ceagesp.

Tal cacofonia logrou êxito ao pulverizar os itens da verborragia bolsonarista mídia e redes sociais afora, mas escamoteia um método. Uma análise detida sobre os passos do presidente pela capital paulista ilumina, em miniatura, o que veremos se chegarmos vivos a 2022.

Bolsonaro durante visita às instalações do Ceagesp, ocorrida na terça (15) em São Paulo
Bolsonaro durante visita às instalações do Ceagesp, ocorrida na terça (15) em São Paulo - Bruno Santos - 15.dez.2020/Folhapress

A chegada ao aeroporto de Congonhas é exemplar da base que Bolsonaro terá, se não tiver seu apoio erodido até lá.

Desce lá o presidente, camisa saindo da calça, acompanhado pelo ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente), figura de ponta do bolsonarismo e besta-fera para ambientalistas, que está sendo preparado para concorrer a algo no estado.

É recebido pela amálgama de seu apoio hoje: os deputados federal Celso Russomanno (Republicanos-SP) e estadual Frederico D'Ávila (PSL-SP), além de Paulo Chuchu (PRTB), vereador eleito por São Bernardo do Campo.

Candidato a prefeito levado à terceira derrota ao aceitar o pedido de Bolsonaro para concorrer, Russomanno encarnava ali o centrão que ora dá suporte ao governo.

D'Ávila era um velho aliado do tucanato paulista convertido ao bolsonarismo radical, com direito a um coronel aposentado de farda e tudo como chefe de gabinete presente. Produtor rural, encarna a fatia do setor que ainda não largou o presidente apesar de suas ações deletérias na área ambiental.

O deputado estadual, membro de uma certa elite paulista, tenta, mas não é Chuchu. Este é um legítimo bolsonarista raiz, com suas armas, atuação suspeita na internet e discurso unidirecional, aquele que irá até o fim com o presidente.

Corta para a Ceagesp, onde Bolsonaro reuniu centenas de incautos, boa parte deles sem máscara em meio à consolidação da segunda onda da Covid-19.

Contando com a banalização das associações com o nazismo feitas à esquerda e a regra não escrita de que não se deve chamar Adolf Hitler como argumento, Bolsonaro não se acanhou.

Afirmou que está "desratizando o Brasil" e, citando sem nomear o governador João Doria (PSDB-SP), afirmou que nenhum "rato vai sucatear isso daqui, pra entregar para os seus amigos".

Indo por partes. Chamar adversário de animal repugnante é uma constante universal, mas "rato" no ideário Ocidental era como o ditador Hitler e os seus chamavam os judeus. Na Alemanha, Bolsonaro estaria com problemas judiciais agora.

"Desratizar" carrega um parentesco próximo das área "limpas de judeus" ao longo do Holocausto, embora obviamente não haja implicação de genocídio literal aqui.

Aqui a retórica encontra outra característica presidencial, de pouco apego ao que dizia defender enquanto chegava ao poder. Em 7 de outubro de 2019, Bolsonaro assinou a inserção da Ceagesp no Programa Nacional de Desestatização.

Salvo a remota hipótese de que se considere um roedor, ou mentiu antes ou mudou de ideia e esqueceu de avisar os liberais acabrunhados no Ministério da Economia. O motivo é sabido: a privatização do local é parte de um projeto de Doria, depois de Bolsonaro o mais exposto presidenciável para 2022 hoje.

O mote atual da contenda entre governador e presidente, a vacinação contra a Covid-19, apareceu com seus contornos claros. Numa entrevista, Bolsonaro disse que nunca aceitaria ser inoculado. Até seu "parça" Binyamin Netanyahu, o premiê israelense, já disse que vai se vacinar primeiro para dar exemplo.

Na Ceagesp, Bolsonaro posou de epidemiologista e afirmou que a imunização não seria obrigatória e que "daqui a três, quatro anos", uma nova dose seria necessária, como se isso fosse uma coisa ruim ou incomum.

Dois detalhes ainda aclararam o tom da campanha de 2022. Bolsonaro certa hora desce para o meio da bandinha da Polícia Militar, que tem como chefe Doria, para "regê-la".

Até o casquete do regente foi apreendido para a exibição, que ecoa a associação do bolsonarismo com o baixo oficialato e a soldadesca das polícias pelo país. Não há oportunidade em que o presidente não se confraternize com aquela que foi sua base enquanto deputado.

Ainda no palco, um pastor evangélico temperou o evento com orações, algo que um observador crédulo qualificaria de apropriado ante o risco sanitária daquele ambiente.

Mais tarde, completando o quadro, Bolsonaro foi prestar homenagem aos 90 anos de Silvio Santos na casa do dono do SBT. O empresário e comunicador aproximou-se do presidente após a eleição.

Silvio inclusive viu seu genro, o deputado Fábio Faria (PSD-RN), virar ministro das Comunicações, levando consigo a estratégia de mídia do governo da antiga Secom. O governo tem contatos azeitados também com a Record, próxima de Bolsonaro desde a campanha de 2018, RedeTV!, Band e CNN.

Em comum, todas não são a Rede Globo, que Bolsonaro vê como inimiga, assim como quase toda a mídia impressa. Assim, surpreende pouco o arremate da terça presidencial, numa postagem de Instagram do deputado D'Ávila.

Nela, ele e o presidente comem doces árabes cedidos pelo presidente do tradicional Clube Monte Líbano, numa involuntária "détente" dada a predileção de Bolsonaro por políticas pró-Israel. A primeira "hashtag" de D'Ávila na postagem? "#globolixo".

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