Bolsonarismo e ascensão evangélica são novas ameaças ao candomblé, diz sociólogo

Reginaldo Prandi, autor de 'Os Candomblés de São Paulo', relança livro 30 anos depois

Rio de Janeiro

Os terreiros estavam otimistas quando o sociólogo Reginaldo Prandi fez a pesquisa que forraria "Os Candomblés de São Paulo". O Brasil virava de vez a página da ditadura com uma nova Constituição, e nela a liberdade religiosa era levada a sério.

"Nos anos finais da década de 1980, o candomblé e outras religiões afrobrasileiras a muito custo já haviam se livrado da perseguição centenária sofrida por parte da polícia e de certos órgãos da imprensa", diz o professor emérito da USP. Antes, afinal, "a religião era livre, mas candomblé e umbanda não eram considerados religião".

Foto do livro "Candomblés de São Paulo", do sociólogo Reginaldo Prandi - Divulgação

Primeiro de muitos trabalhos de fôlego que Prandi faria sobre o culto aos orixás, o livro está sendo relançado agora, 30 anos após sua publicação. A Constituição continua aí, mas o candomblecistas já não se sentem tão protegidos para professar sua fé. O temor tem nome e sobrenome: bolsonarismo e ascensão evangélica.

"O governo negacionista de Jair Bolsonaro, levado pelo capitão das 100 mil, 200 mil, sabe-se lá quantas mais dezenas de mil vidas eliminadas pela Covid-19", escreve Prandi na reedição, "não se importa com as mazelas e o roubo de direitos que afligem as mulheres, os negros, os pobres, os indígenas, os gays. [...] Não liga para a degradação do meio ambiente, nem se dá ao respeito diante do desmonte da cultura, da memória e da cidadania no país. Vai se interessar por religião de preto macumbeiro?".

A partir do governo FHC (PSDB), passando pelos petistas Lula e Dilma, "você teve a criação de várias instituições de proteção não somente às populações negra e indígena, mas também às suas culturas e crenças. A primeira coisa que Bolsonaro fez foi começar a desmontar tudo isso", diz o autor à Folha. "Basta ver a Fundação Palmares, que caiu na mão de alguém que vem mesmo para quebrar tudo. A última peripécia [de Sérgio Camargo, seu presidente] foi retirar da lista de negros importantes gente que é muito importante." De Gilberto Gil a Marina Silva.

Foi na gestão bolsonarista que a bancada evangélica mostrou seu muque. A demonização de crenças afro contamina boa parte do pastorado, vide o relançamento, em 2019, de “Orixás, Guias e Caboclos: Deuses ou Demônios?”, do bispo Edir Macedo. Neste seu best-seller, o líder da Igreja Universal diz orar por aqueles ligados a “práticas de macumbaria e feitiçaria”. Um convite à intolerância, afirmam candomblecistas.

Uma explicação teológica para a repulsa evangélica remonta à Reforma Protestante, segundo Prandi. "Ela pregava a abolição total do politeísmo. O catolicismo tinha um lado politeísta que herda das antigas religiões e é expressa no culto aos santos. O evangélico não aceita nem mesmo o da Nossa Senhora, que vê apenas como uma mulher virtuosa."

Seguidores de religiões afrobrasileiras são mais libertários e à esquerda do que a média, diz o pesquisador. E a crença em vários deuses —os orixás— tem seu papel nisso. "A religião conta com uma ideologia politeísta muito inclusiva. Não existe a ideia de eliminar o outro. Serão os primeiros a convidar [o evangélico] para os toques dos orixás, mas os últimos a persegui-lo com um cabo de vassoura."

Por séculos, foi o monopólio da Igreja Católica no Brasil que ajudou a marginalizar quem preferia tambores a Evangelho. Daí o candomblé ser visto como caso de polícia antes de questão de fé.

Lançamento do livro 'Ogum e Iemanjá', de Armando Vallado e Reginaldo Prandi (na foto) - Zanone Fraissat/Folhapress

Prandi resgata no livro o que Keith Ewbank, um viajante norte-americano, registrou em 31 de julho de 1846. Estava no Rio, então capital do império brasileiro. “Passamos pelo Departamento de Polícia para vermos o arsenal de um feiticeiro africano que acaba de ser preso", conta o estrangeiro. Entre os achados: chifres de cabra, dentes de marfim, caveiras de animais, uma corrente de maxilares e chocalhos.

A fé da África já acumulava status cultural, presente em músicas como "Arrastão", em que Elis Regina cantava para Iemanjá, quando o sociólogo fez sua pesquisa. Outros tempos. "O telefone era peça obrigatória de qualquer terreiro", mas forte mesmo era "a tal da 'gazeta do santo', como se dizia da informação passada de boca em boca", lembra.

Anos antes de investigar o lastro do candomblé em São Paulo, Prandi esteve no grupo que fundou o Datafolha, instituto de pesquisas do Grupo Folha. Queria estudar o tema da opinião pública para uma tese acadêmica e viajou aos EUA para consultar as melhores bibliotecas —meses de trabalho que sumiram quando malas cheias de livros e fotocópias acabaram extraviadas no voo da volta.

Foram meses até reaver a bagagem. No meio tempo, colegas o chamaram para processar os dados de uma pesquisa que vasculhou os cartórios de registro da capital paulistana. O levantamento detectou que os centros espíritas diminuíam, enquanto cresciam o da umbanda e também os de candomblé.

Desde então, o sociólogo dedicou a maior parte de sua carreira acadêmica aos orixás. Mãe Menininha do Gantois (1894-1986) já havia cantado essa bola.

Em meados dos anos 1970, Prandi deu um curso na Universidade Federal da Bahia (Ufba), e seus alunos o levaram para o terreiro da mãe de santo homenageada por Dorival Caymmi em "Oração de Mãe Menininha". "Ela jogou búzios pra mim e disse que minha vida ia mudar, 'você vai passar a dedicar o resto da vida aos orixás'. Eu nem sabia direito o que eram."

Além de estudioso do candomblé, Prandi é também ogã, título que recebeu em vários terreiros, uma espécie de auxiliar dos rituais.

Agosto é mês de celebrar Omulu, o orixá da peste, nas casas de culto. Em 2020, a peste se materializou com a Covid-19. Justamente por causa dela, não se recomendava que ninguém saísse de casa, sobretudo para aglomerar em festas como o olubajé, quando banquetes com frango frito, acarajé e pipoca são servidos sobre folhas de mamona para prestigiar Omulu.

A solução foi acelerar a adaptação dos candombleicistas à era virtual. "Do tambor ao computador", como o pai Baiano de Xangô, que formou a primeira geração paulista de ialorixás e babalorixás, resumia as transformações sofridas por sua religião, diz Prandi.

Pai Baiano usava a palavra tambor para se referir a um tempo passado, ainda na África, quando as aldeias se comunicavam por meio da batucada. "Sobrevive a ideia de que os toques dos atabaques permitem a comunicação dos terreiros deste mundo, o Aiê, com as divindades que vivem no mundo espiritual, o Orum."

Os Candomblés de São Paulo

Nova edição, ampliada. Autor: Reginaldo Prandi
Arché Editora (416 págs
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