Bolsonaro admite interferência em eleição na Câmara e retoma planos de reforma ministerial

Para ampliar espaço do centrão, bloco de Arthur Lira, presidente planeja alterações nos comandos de quatro pastas, entre elas a Agricultura

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) admitiu interferência do Poder Executivo na eleição para o comando da Câmara e disse que "se Deus quiser" ele vai influir na presidência da Casa.

Para tentar eleger o líder do centrão, deputado Arthur Lira (PP-AL), o Palácio do Planalto tem, desde o final do ano passado, acenado com cargos e emendas e ameaçado retirar de funções na máquina federal indicados políticos de deputados federais de siglas como MDB e DEM.

"Viemos fazer uma reunião aí com 30 parlamentares do PSL e vamos, se Deus quiser, participar, influir na presidência da Câmara, com estes parlamentares, de modo que possamos ter um relacionamento pacífico e produtivo para o nosso Brasil", disse Bolsonaro nesta quarta-feira (27).

A declaração foi feita quando o presidente participava de live promovida pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), na entrada do Palácio da Alvorada. Ela foi realizada após café da manhã de Bolsonaro com parte da bancada federal do PSL, partido pelo qual ele se elegeu presidente em 2018.

No encontro, segundo relatos de deputados presentes, Bolsonaro afirmou que dificilmente Lira perderá a disputa para o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), candidato do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ele disse ainda que a eleição de Lira será um novo momento para o PSL, que terá mais influência na Casa.

No mesmo dia, após visitar o MInistério da Economia, Bolsonaro reconheceu a um grupo de jornalistas que tratou das disputas na Câmara e no Senado. As duas eleições estão marcadas para começar na próxima segunda-feira (1º).

"Foi um encontro político, tratando de eleição de Mesa. Esse pessoal que foi lá é o pessoal que está do nosso lado do PSL", disse. " Quero participar com eles nesta construção de qual partido nós iremos a partir de março."

Na reunião, o presidente mencionou duas opções de siglas: o PTB e o Patriota. No encontro, ele ainda afirmou que o PSL deve cobrar de Lira um posto na Mesa Diretora, de preferência a primeira vice-presidência. O nome de Bolsonaro para o cargo é o do deputado federal Major Vitor Hugo (GO).

A interferência de Bolsonaro na disputa legislativa levou Maia a telefonar nesta terça-feira (26) para o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos. No telefonema, revelado pela Folha, o presidente da Câmara reclamou da articulação política do Planalto.

Em uma conversa exaltada, Maia disse a Ramos que estava incomodado com o movimento do governo para gerar defecções no DEM. Bolsonaro e Maia são rivais na disputa legislativa. O presidente da Câmara ressaltou ainda que não aceitava interferência e salientou que as investidas do governo precisam ter um fim.

Como resposta, Ramos negou que o Planalto tenha interferido no DEM. Ele disse ao deputado que o Poder Executivo tem mantido distância da disputa à sucessão de Maia, já que Lira tem coordenado sua própria campanha.

Com o avanço de Lira, hoje considerado o favorito, Bolsonaro retomou nesta semana as negociações para a realização de uma reforma ministerial em fevereiro. No início deste mês, o presidente havia paralisado essas articulações após Baleia ter fechado acordo com partidos de oposição.

Com o apoio do PSL a Lira e as defecções no DEM, Bolsonaro tem afirmado que dificilmente Lira perderá a disputa legislativa e voltou a desenhar um esboço de mudanças na Esplanada dos Ministérios, abrindo mais espaço para partidos do centrão.

As alterações em discussão envolvem até mesmo a chamada cozinha do Planalto, pastas que despacham na sede administrativa do governo. Uma delas é a transferência da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para a Secretaria de Governo, pasta responsável pela articulação política.

Bolsonaro avalia que a ministra teve um excelente desempenho nas negociações com a China e a Índia para a liberação de insumos e vacinas para o Brasil e considera a necessidade de reaproximação com a bancada ruralista.

Apesar de ser um dos pilares de sustentação da atual gestão, a frente parlamentar distanciou-se do Planalto durante a crise sanitária e parcela dela chegou a anunciar apoio a Baleia, o que irritou o presidente.

A ideia de Bolsonaro é indicar um dos nomes da bancada, filiado a uma sigla do centrão, para substituir Tereza Cristina na Agricultura.

Além da Secretaria de Governo, o presidente considera remanejar o ministro Onyx Lorenzoni da Cidadania para a Secretaria-Geral da Presidência, abrindo espaço para o centrão. Caso Onyx assuma essa pasta, que despacha no Planalto, a ideia é retirar dela a SAJ (Subchefia para Assuntos Jurídicos) e vinculá-la à Casa Civil ou diretamente à Presidência.

Bolsonaro ainda avalia se entregará o Ministério da Cidadania, cobiçado devido à atribuição de coordenar programas sociais, para o Republicanos ou para o PSC, partidos que têm forte relação com igrejas evangélicas.

Para acomodar as duas siglas, o Planalto considera novamente desmembrar da Economia e recriar a pasta de Indústria e Comércio. Caso ele leve adiante a proposta, mesmo a contragosto do ministro Paulo Guedes, a ideia é de que ela seja entregue ao presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP).

Bolsonaro também tem avaliado como contemplar o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que não conseguiu disputar a reeleição ao cargo. Uma das hipóteses em avaliação é a pasta do Desenvolvimento Regional.

Apesar da pressão pelas saídas de Eduardo Pazuello (Saúde) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), o presidente tem sinalizado que não fará mudanças por ora. Bolsonaro, contudo, não descarta trocá-los a qualquer momento caso o desgaste de ambos se agrave.

Para a Saúde, é defendido desde o ano passado o nome do líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), que foi ministro da pasta durante o governo de Michel Temer (MDB). O nome dele chegou a ser citado inclusive em reunião promovida na Casa Civil.

Para o Itamaraty, três nomes são avaliados, sendo o de dois embaixadores: André Corrêa do Lago, hoje na Índia, e Nestor Forster, nos EUA. O primeiro é neto do diplomata Oswaldo Aranha e ajudou a destravar o transporte das vacinas da Índia.

O segundo conta com o apoio do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Com a indicação, além de nomear alguém de sua confiança para o cargo de ministro, o presidente sinalizaria ao governo do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, uma mudança de postura ao escolher um novo embaixador.​

Uma terceira opção em análise é o nome do atual secretário de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha. Além de falar cinco idiomas, o militar já foi enviado pelo presidente para missões diplomáticas no Líbano e na Argentina.

A índicação de Rocha para o Itamaraty ainda abriria a possibilidade de Bolsonaro acomodar Ramos na Secretaria de Assuntos Estratégicos caso ele decida deslocar Tereza para a Secretaria de Governo.

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