Pai de Baleia Rossi apresentou Temer a Joesley e é alvo de delações

Amigo do ex-presidente, Wagner Rossi, hoje fora da política, foi ministro da Agricultura e chegou a ser detido; ele nega ilícitos e diz não ser citado em denúncia

São Paulo

O capítulo mais bombástico da delação premiada que quase derrubou um presidente da República começa com uma menção ao pai do atual candidato ao comando da Câmara dos Deputados, Baleia Rossi (MDB-SP).

Mentor político do filho, Wagner Rossi, hoje com 78 anos, era ministro da Agricultura quando apresentou o então deputado federal Michel Temer (MDB-SP) a Joesley Batista, dono da JBS, em 2010.

A ligação entre o cacique emedebista e o empresário evoluiu a partir dali até se tornar explosiva em 2017, quando Joesley gravou uma conversa com Temer, já na Presidência da República, em que fazia citação a pagamento de propina.

A revelação do diálogo foi o episódio mais crítico do governo emedebista e quase custou seu cargo.

"Conheci o senhor Joesley Batista no período em que fui ministro. Era um grande empresário do setor, de trato cordial, que demonstrou interesse em conhecer o então deputado Michel Temer, presidente do meu partido. Não vi problema nisso", disse Wagner em mensagem a jornalistas, em 2017.

Homens em pé em discursam em palanque durante evento de campanha
Michel Temer, Baleia Rossi e Wagner Rossi (de camisa escura) em evento de campanha em 2010 - Reprodução Youtube

Atualmente aposentado, o ex-ministro teve trajetória política sempre próxima do ex-presidente. Os dois foram contemporâneos nos estudos na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e em mandatos no Congresso.

Temer é padrinho de casamento de Baleia Rossi, líder de seu partido na Câmara quando presidiu o país, e disse em uma campanha eleitoral o considerar também seu afilhado político.

Wagner, em vídeo na campanha de 2010, destacou o papel do amigo na carreira do filho. "Michel abriu as portas de Brasília para o Baleia", disse à época.

O ex-deputado atualmente está distante do dia a dia da política e aparentemente não participa da campanha do filho à presidência da Câmara.

Em 1999, Wagner foi nomeado para o comando da Companhia Docas de São Paulo, autoridade portuária de Santos, antiga área de influência de Temer.

Também ocupou a direção da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) antes de comandar o Ministério da Agricultura nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do PT, indicado pelo antigo amigo.

Sua passagem pela Esplanada acabou se tornando um outro capítulo das acusações relatadas por Joesley, que culminaria em uma prisão temporária ordenada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2018.

Em relato que foi incluído em uma denúncia até hoje não sentenciada, apelidada de “quadrilhão do MDB”, Joesley afirmou que Temer pediu a ele que pagasse um “mensalinho de R$ 100 mil” a Wagner, prática que teria durado um ano.

Segundo Joesley, no início se tentou colocar o ex-ministro em um trabalho de consultoria, o que não foi adiante, mas, mesmo assim, os pagamentos persistiram.

Temer tem negado desde aquela época todas as acusações feitas pelo delator. O empresário da JBS hoje tenta manter no STF a validade de seu acordo de colaboração diante de indícios de que omitiu da Justiça informações por má-fé.

Denúncia do Ministério Público contra Temer feita com base na conversa gravada pelo dono da JBS já foi rejeitada na Justiça Federal. O ex-presidente também obteve direito a indenização, confirmada no STJ (Superior Tribunal de Justiça), por danos morais por declarações feitas pelo empresário em entrevista em 2017.

A prisão do pai de Baleia há três anos ocorreu no âmbito da Operação Skala, por ordem do ministro do STF Luís Roberto Barroso, em apuração sobre irregularidades envolvendo pessoas do entorno de Temer.

Wagner foi liberado dizendo que nada tinha a ver com os fatos investigados. Ele confirmou que prestou por alguns meses colaboração remunerada a uma das empresas da JBS e negou ilícito.

As apurações da Operação Skala contribuíram para outra das três denúncias apresentadas pela PGR (Procuradoria-Geral da República) contra Temer, sobre supostas irregularidades no setor portuário, na qual o ex-ministro da Agricultura não foi incluído.

A demissão no governo Dilma também teve um elo com aquele que seria um dos principais personagens da delação da JBS, o lobista Ricardo Saud, que tinha sido subordinado de Wagner no ministério.

Em 2011, reportagem do jornal Correio Braziliense mostrou que o então ministro e Baleia viajavam em um jatinho pago pela empresa Ourofino Agronegócio, do ramo de produtos veterinários e com interesses em decisões da pasta.

Os donos da empresa tinham sido sócios de Saud em uma outra firma até 2009. Além disso, a Ourofino também fez doações eleitorais de R$ 100 mil a Baleia, em 2010, e contratou a produtora de vídeo Ilha Produção, que pertence a um irmão do deputado, Paulo Luciano.

Os Rossi e a Ourofino, à época, negaram qualquer irregularidade ou conflito de interesses. O episódio contribuiu para o desgaste do então ministro.

Anos mais tarde, em 2017, o acordo de colaboração dos integrantes da JBS novamente voltou a mirar a produtora de vídeo da família, em caso ainda sob investigação na Justiça Eleitoral de São Paulo.

Os delatores apontaram que a Ilha Produção recebeu da JBS pagamentos, supostamente sem lastro, de R$ 240 mil, que na verdade se destinavam a financiar a campanha de Baleia a deputado estadual em 2010. A produtora teve a esposa de Baleia, Vanessa Cunha Rossi, como sócia até 2017.

SERVIÇOS FORAM PRESTADOS, DIZ EX-MINISTRO

Comunicado enviado à reportagem por Wagner Rossi e pela Ilha Produção, que pertence a um filho dele, afirma que, quando foi apresentado a Michel Temer, Joesley Batista “era um empresário respeitado em todo o Brasil, frequentemente citado como tal inclusive por veículos de comunicação como a Folha”.

Diz que o ex-ministro prestou consultoria para o grupo, o que é admitido por Joesley em seus depoimentos. “Wagner Rossi tem posse de emails, registros de viagens e demais documentos que comprovam os serviços de consultoria prestados ao grupo J&F [dono da JBS].”

A nota também diz que a Operação Skala resultou em uma denúncia que não incluiu Wagner entre os acusados. “Nas milhares de páginas do documento acusatório, o nome dele nem é mencionado.”

Sobre o pagamento de R$ 240 mil pela JBS, diz que não houve ilícito e que os serviços foram prestados pela produtora.

Também afirma, sobre a empresa Ourofino, que a Ilha já prestava serviços para essa empresa antes mesmo de Wagner se tornar presidente da Conab ou ministro da Agricultura.

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