Descrição de chapéu congresso nacional

Com Aliança empacada, Bolsonaro tem de nanico a centrão como opção para disputar reeleição

Apesar de dizer que haverá definição no mês que vem, prazo final para filiação é março de 2022

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Brasília

Uma negociação de bastidores tem movimentado o mundo político em Brasília, a definição de Jair Bolsonaro sobre o partido ao qual se filiará para tentar a reeleição em outubro do ano que vem —em seu leque de opções, há a sigla que tenta criar desde o final de 2019, um nanico e o centrão, a sua atual base de sustentação política.

O presidente já disse diversas vezes que pretende definir sua filiação no próximo mês, apesar de o prazo final com o objetivo de disputar as eleições de 2022 ser março do ano que vem.

A atual lista citada por correligionários é formada pela Aliança pelo Brasil, ainda em formação, PP, Republicanos, PTB e PL, todos do centrão, o nanico Patriota e o PSL, sigla pela qual Bolsonaro se elegeu em 2018 e com a qual depois rompeu, situação em que se encontra até hoje.

O plano A do presidente, a sua própria legenda, gestada sob sua inspiração e comando, tem enfrentando uma série de percalços desde que foi lançada, em novembro de 2019.

Em um ano e três meses de existência, a Aliança pelo Brasil conseguiu até agora validar apenas 70 mil das 492 mil fichas populares de apoio necessárias, ou seja, menos de 15% do que precisa para dar entrada na Justiça Eleitoral com o pedido de registro formal da nova agremiação.

A expectativa anunciada em 2019 era a de que o partido bolsonarista estivesse criado a tempo de disputar as eleições municipais de 2020, mas a operação se mostrou um fiasco. A esse revés inicial se somou a chegada da pandemia, o que dificultou ainda mais a coleta de apoio.

Até o momento, cerca de 40% das fichas apresentadas pela Aliança vêm sendo recusadas pelos cartórios eleitorais.

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral listou) 31 motivos de rejeição, o principal deles o fato de o apoiador já estar filiado a outra legenda (25.230), seguido por divergência no estado informado (6.353) e na assinatura, em comparação com os registros oficiais (4.509). Há também apoios registrados em duplicidade (1.632), de eleitores inexistentes (328) ou que já morreram (168), entre vários outros.

O empresário Luís Felipe Belmonte, um dos atuais vice-presidentes da sigla, afirma que, apesar de todos os percalços e do ritmo observado até agora, ele espera ter todas as assinaturas prontas para validação ainda em abril.

Sobre os mortos, Belmonte diz que houve erros de digitação e que em alguns casos a morte ocorreu após o preenchimento da ficha. "Eu também não posso garantir que o cara vai ficar vivo depois que assina."

Mesmo após a validação de todas as 492 mil assinaturas, a tramitação do pedido de registro no TSE pode levar meses.

Com os problemas da Aliança, Bolsonaro passou a negociar com legandas do centrão e de fora dele.

Uma em especial é o nanico Patriota, antigo Partido Ecológico Nacional, sigla na qual Bolsonaro esteve em vias de ingressar em 2018, antes de fechar com o PSL.

"Eu estou sabendo que ele vai chamar aqueles partidos que ele tem interesse entre os dias 5 e 15 de março. Por enquanto ainda não me chamou", afirmou Adilson Barroso, presidente do Patriota.

Entusiasta de Bolsonaro, ele promete colocar na mão do presidente e de seus aliados a definição para a formação das chapas eleitorais nos estados, em 2022, mas não o comando da sigla.

"Sobre controle de diretório nacional, estadual, eu conheço ele, posso dizer que fiz uma faculdade de entendimento de Bolsonaro. Ele quer alguém que ele confie. Espero que ele confie em mim", afirma Barroso.

Apesar disso, há um grupo dentro do Patriota contrário à chegada do presidente. A sigla, também, ficaria longe de isoladamente dar uma estrutura mínima para uma candidatura presidencial —tem apenas seis deputados federais, nenhum senador ou governador e apenas 2% da fatia do fundão eleitoral, a maior fonte de recursos das campanhas.

Embora o cálculo seja diferente, a fatia que cada sigla tem no fundão eleitoral tende a se repetir na propaganda de rádio e TV, outro importante mecanismo de campanha eleitoral.

Em 2018, Bolsonaro se elegeu com uma estrutura mínima também, mas, até pelo fracasso de seus aliados na disputa municipal de 2020, boa parte do mundo político, incluindo aliados do presidente, avaliam que o fenômeno dificilmente se repetiria em 2022.

Embora cogitada, a volta ao PSL é considerada improvável em decorrência dos fortes atritos entre bolsonaristas e antibolsonaristas da legenda. Um acerto teria que envolver uma recomposição entre grupos que hoje trocam ataques e acusações os mais variados.

Já dentro do centrão, Bolsonaro tem recebido o convite da legenda que hoje lidera o grupo, o PP, partido ao qual ele já foi filiado, mas em uma situação em que era outsider. Lidera essa negociação o presidente da sigla, o senador Ciro Nogueira (PI).

O PP é atualmente um dos maiores partidos do país, tem o presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), um governador, 40 deputados federais, sete senadores, 685 prefeitos e 7% da fatia do fundão eleitoral.

Outra sigla na lista de apostas do futuro abrigo de Bolsonaro é o Republicanos, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, que cresceu consideravelmente nos últimos anos. Além de contar com a capilaridade religiosa e do alcance de uma TV aberta (a Record), o partido já abriga dois dos filhos de Bolsonaro, o senador Flávio e o vereador Carlos.

O partido acabou de emplacar o novo ministro da Cidadania, João Roma, em um acerto resultante da eleição para o comando da Câmara, mas que também representa uma sinal para a disputa de 2022.

Pesa contra isso a resistência de alguns integrantes da legenda de abraçar de corpo e alma o bolsonarismo, em especial políticos que defendem causas extremistas e antidemocráticas.

O PL de Valdemar Costa Neto também seria uma opção. A sigla é uma das grandes do centrão e, em 2018, também chegou a negociar o ingresso de Bolsonaro, mas desentendimentos nas montagens de alianças regionais inviabilizaram o acerto.

Um dos maiores entusiastas de Bolsonaro no mundo político, Roberto Jefferson, presidente do PTB, também já convidou o presidente e seus aliados para integrarem a sigla. O partido, porém, tem definhado nos últimos anos e hoje é personagem menor dentro do centrão.

Durante toda a sua carreira de 28 anos como deputado do baixo clero da Câmara, Bolsolnaro passou por várias siglas —oito, desconsideradas as fusões entre elas. Se consideradas, cinco: PDC, PPR, PPB e PP, frutos de fusões e mudanças de nome, além de PTB, PFL (hoje DEM), PSC e PSL.

O prazo para que ele se filie a uma nova sigla é o final de março de 2022, seis meses antes da disputa presidencial. Aliados de Bolsonaro, porém, buscam antecipar essa data com o intuito de ter um tempo maior na costura de alianças e nos arranjos dos palanques regionais.

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