Em derrota de Doria, PSDB renova mandato de seu presidente; Aécio pede prévias em 2022

Bruno Araújo ficará mais um ano no cargo, e governador Eduardo Leite (RS) foi colocado como alternativa presidencial

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São Paulo

O PSDB renovou o mandato de seu presidente, Bruno Araújo (PE), por mais um ano a partir de maio, impondo derrota ao governador João Doria (SP) após ele ter aberto uma crise na sigla.

Na última segunda-feira (8), em um jantar no Palácio dos Bandeirantes, aliados do tucano apresentaram a ideia de colocá-lo na cadeira de Araújo.

Aqui, há duas versões. A inicial, de que a mudança ocorreria já em maio, quando expiraria o mandato de dois anos do presidente. Mas aliados de Doria afirmam que ela só valeria para o começo do ano que vem.

De uma forma ou de outra, buscariam fortalecer a posição de Doria no partido, visando acentuar o caráter de oposição ao governo de Jair Bolsonaro e unificar a sigla em torno da candidatura presidencial do governador em 2022.

O próprio Araújo estava no jantar e se viu surpreendido pelo anúncio. Outros presentes não alinhados com Doria, como o ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira (SP) e o líder na Câmara, Rodrigo de Castro (MG), apresentaram objeções à ideia.

Doria e Bruno Araújo na convenção de 2019 que elegeu o ex-deputado para presidir o PSDB
Doria e Bruno Araújo na convenção de 2019 que elegeu o ex-deputado para presidir o PSDB - Pedro Ladeira - 31.mai.2019/Folhapress

A tática, porém, se voltou contra Doria. Revelada pela Folha na tarde seguinte, a proposta contrariou até aliados do governador.

Falando publicamente, o governador não tocou no tema, mas centrou fogo na sua ideia de que o PSDB precisa ser de oposição clara a Bolsonaro.

E apontou para o deputado Aécio Neves (MG) como foco de dissidência governista dentro do partido, sinalizada no apoio de boa parte da bancada na Câmara ao candidato do Planalto ao comando da Casa.

Isso gerou um embate duro entre os dois, com acusações mútuas e o pedido de afastamento do mineiro por parte do governador. Essa parte da crise ainda está inconclusa, embora haja uma definição por parte de Doria de deixar a temperatura abaixar.

Já a questão de Araújo evoluiu negativamente para Doria. Um movimento de todos os diretórios estaduais do partido sugeriu uma recondução geral de mandatos, usando a pandemia como desculpa. Na realidade, queriam dar um sinal ao paulista.

Segundo integrantes da cúpula tucana, Doria aquiesceu, e o diretório paulista, comandado por seu aliado Marco Vinholi, também aderiu à proposta que foi consumada de forma unânime na reunião desta sexta-feira. Aliados do governador negam isso, dizendo que a ideia havia sido levantada pelo próprio Vinholi no jantar de segunda.

Ela havia recebido apoio da maioria da bancada na Câmara e de todos os senadores da sigla.

A reunião foi tensa, com integrantes da Executiva próximos do paulista e do mineiro sustentando suas posições.

Ao final, um integrante da velha guarda tucana, o ex-senador José Aníbal (PSDB), afirmou que o partido deveria resolver a briga de forma prioritária, além de manter uma posição firme de oposição a Bolsonaro.

“O partido está construindo uma unidade que vai fortalecer o projeto de 2022”, afirmou Araújo, ressaltando que é o momento de pacificar a sigla e que Doria “é um quadro muito importante”.

Em politiquês isso é eufemismo para uma crítica ao paulista. O grupo de Araújo acredita que, hoje, Doria perderia uma prévia para o governador gaúcho, Eduardo Leite.

Com o resultado, há uma pacificação relativa no partido, já que Araújo virou presidente da sigla em 2019 com o incentivo direto de Doria, o que não o torna exatamente um adversário.

Por outro lado, ficou claro ao governador que o tucanato vai vender caro a unidade para 2022. A apresentação de Leite como alternativa presidencial, antes vista apenas como um diversionismo de adversários de Doria, agora é um fato concreto.

Em um almoço em Porto Alegre com 21 parlamentares na quinta (11), Leite sinalizou que topa assumir a posição.

Também nesta sexta, na reunião da Executiva Nacional que reconduziu Araújo, Aécio apresentou um requerimento para que sejam marcadas prévias no primeiro trimestre de 2022 para a escolha do candidato tucano ao Palácio do Planalto.

Araújo terá de marcar novo encontro virtual para discutir o assunto, o que garantiria a incerteza sobre a posição da legenda acerca da candidatura de Doria.

Aliados do governador dão de ombros quando se fala em prévias, lembrando que o tucano venceu as duas que enfrentou para ser candidato e vencer a prefeitura paulistana (2016) e o estado (2018).

O próprio Doria afirmou nesta sexta, em entrevista coletiva, que é um "filho de prévias" e que as defende enfaticamente.

Mas o jogo nacional é diferente. Se a questão não for resolvida neste semestre, haverá dificuldades de montagem de palanques estaduais em torno de uma candidatura Doria.

O preço cobrado por potenciais partidos aliados também sobe. A ideia de Doria de absorver no PSDB o grupo do ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (RJ), que está deixando o DEM, ficou em suspenso com a crise interna no tucanato —o deputado cobrou unidade na sigla para migrar.

Desde a reeleição de Fernando Henrique Cardoso em 1998, apenas em 2014 o partido foi para o pleito unido. O resultado foi a quase vitória de Aécio Neves no segundo turno contra Dilma Rousseff (PT).

Além de Leite, Doria também terá de lidar com a resistência na bancada federal, Aécio à frente. Com isso, a acomodação com Araújo dá um respiro provisório ao clima de turbulência, mas não encerra a questão.

Aliados de Doria argumentam que o protagonismo nacional do governador na pandemia da Covid-19, onde derrotou até aqui Bolsonaro no manejo da crise por seu investimento na vacina Coronavac, dá a ele uma condição natural de candidato.

Para eles, se o PSDB se fizer de difícil, corre o risco de perder Doria para alguma sigla alternativa. Já entusiastas de Leite dizem que o gaúcho traria um ar de novidade para a corrida, apesar de admitirem que ele tem menor densidade política do que o paulista.

Colaborou Carolina Linhares, de São Paulo

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