Prefeitura demite jornalista do Acre que irritou Bolsonaro com pergunta sobre Flávio

Durante coletiva, João Renato Jácome questionou presidente sobre a decisão do STJ de anular quebra de sigilo bancário do senador

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Carlos Madeiro
Maceió | UOL

O jornalista João Renato Jácome foi demitido e teve decreto de exoneração publicado no Diário Oficial da Prefeitura de Rio Branco (AC) desta sexta-feira (26). Ele deixa o cargo de chefe de gabinete na Secretaria Municipal de Meio Ambiente, onde atuava havia pouco mais de um mês.

Na última quarta-feira (24), de folga de seu trabalho como servidor, ele foi cobrir a visita do do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao estado como jornalista credenciado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Durante entrevista coletiva, ele fez uma pergunta sobre a decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) de anular a quebra de sigilo bancário de Flávio Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente. Bolsonaro se irritou com o questionamento, não respondeu a pergunta e encerrou a coletiva de forma abrupta.

A visita de Bolsonaro foi motivada pela crise humanitária no estado, que enfrentou na semana passada, ao mesmo tempo, uma enchente em rios e igarapés; a lotação na rede de saúde por causa da Covid-19 e do surto de dengue; e um conflito envolvendo refugiados que tentaram passar pelo Peru com destino aos Estados Unidos —a fronteira entre os países está fechada por conta da pandemia.

O presidente Jair Bolsonaro juntamente com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello e a senadora Mailza Gomes (PP-AC) em viagem ao Acre para entrega de vacinas contra a Covid-19 - 24.fev.21 -Mailza Gomesi no Facebook

Ao UOL, Jácome conta que a secretaria em que atuava desde o dia 17 de janeiro deste ano— adota um rodízio de servidores por decreto devido à pandemia no estado. Ele explica que, na quarta, estava de folga e foi contratado como repórter freelancer pelo jornal para acompanhar a visita presidencial.

"Eu já havia trabalhado por dois fins de semana seguidos por conta da enchente, e o secretário disse que eu iria folgar durante a semana —não só eu, como vários outros colegas de lá. E voltei ontem e trabalhei normalmente", diz.

Jácome disse que ficou "surpreso e muito triste" ao saber da demissão sumária pela imprensa. "Mas isso não vai fazer eu baixar a cabeça. Vou continuar trabalhando e fazendo o que eu sempre fiz. Uma coisa que ninguém pode me acusar é de ter feito algo errado. Não fui exonerado por um crime, por improbidade, por incompetência. Fui exonerado porque estava trabalhando, e isso incomodou, infelizmente."

O UOL procurou o diretor de comunicação da Prefeitura de Rio Branco, Ailton Oliveira de Freitas, para pedir a versão oficial da exoneração. "O motivo é que o jornalista estava em horário de trabalho para o município e estava trabalhando para terceiros", afirma.

O prefeito Tião Bocalom (PP) é aliado de primeira hora do presidente e, inclusive, viajou de Brasília a Rio Branco com Bolsonaro na quarta. Ele postou foto dentro do avião presidencial.

A jornalistas locais o prefeito confirmou ainda na quinta-feira (25) a exoneração. "Foi exonerado ontem [na quarta-feira] mesmo", respondeu Bocalom a um repórter.

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