Descrição de chapéu STF Ex-juiz no tribunal

Esquerda vê Moro 2022 enterrado, mas lava-jatistas creem que plano político resiste

Mesmo com imagem de ex-juiz abalada por decisão de Fachin e julgamento de suspeição, partidos como PSL e Podemos defendem candidatura

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São Paulo

Com o arranhão de imagem produzido pela anulação das condenações do ex-presidente Lula (PT) na Lava Jato e pela eventual suspeição declarada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), a candidatura do ex-juiz Sergio Moro voltou a ser discutida no universo político, com visões distintas à esquerda e à direita.

Partidos como PT, PDT e PSB consideram a possibilidade enterrada e acreditam que, se confirmada a parcialidade do ex-magistrado nos processos de Lula, isso pode sepultar de vez o entusiasmo de apoiadores e de legendas que querem vê-lo disputando a cadeira onde hoje senta o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O STF debateu a conduta do ex-juiz nesta terça-feira (9), mas a sessão foi suspensa após pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques. Na segunda-feira (8), ao livrar Lula das sentenças condenatórias, o ministro Edson Fachin fortaleceu o discurso do petista contra seu algoz.

Apesar disso, líderes de partidos como Podemos e PSL, que se dispõem a abrigar uma campanha eleitoral de Moro, mantêm o discurso favorável ao ex-juiz e ex-ministro, defendem seu legado na operação e ainda o tratam como um nome forte.

Ele é tido como uma das opções de centro-direita que poderiam se contrapor ao bolsonarismo e ao petismo, faixa que hoje também tem como potenciais candidatos os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), o apresentador Luciano Huck (sem filiação) e o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM).

Moro, que deixou o Ministério da Justiça e Segurança Pública da gestão Bolsonaro em abril de 2020, está calado desde o início da semana e sempre foi reticente sobre a hipótese de se candidatar.

Em dezembro, sua contratatação pela consultoria internacional Alvarez & Marsal foi interpretada como um sinal de enfraquecimento da entrada na corrida eleitoral. A firma administra o processo de recuperação judicial da Odebrecht, empresa que esteve no centro das investigações da Lava Jato.

"Nosso partido empunha bandeiras como combate à corrupção, fim de privilégios e prisão em segunda instância. São temas que certamente aproximam pessoas com esse perfil, e o Sergio Moro se identifica com essas bandeiras", diz o deputado federal Igor Timo (MG), líder do Podemos na Câmara.

Apesar dos acenos feitos pela legenda, Timo diz que o partido em nenhum momento pressionou Moro por uma decisão. Para o parlamentar, os recentes reveses não abalam "a relevância do ex-juiz no cenário político nacional e seu grande protagonismo à frente da Lava Jato e do ministério".

Políticos defensores da operação, como os deputados federais Joice Hasselmann e Junior Bozzella (ambos do PSL-SP), afirmam que o julgamento de suspeição é mais um contra-ataque do sistema político contra Moro, que tem a virtude de ter tentado desbaratar a corrupção no país.

Joice rejeita a narrativa de que a suspeição traria dano irreparável à credibilidade do ex-juiz. "Fica claro que o sistema se uniu contra Moro", diz ela, que inclui no grupo petistas, bolsonaristas e centrão.

A deputada, que tem relação próxima com o ex-ministro e escreveu uma das biografias dele, afirma, porém, que, para ser candidato, ele precisa querer. “Nada é capaz de enterrar a candidatura do Moro, só se ele não quiser.”

Bozzella, que é presidente do diretório paulista do PSL, defende a filiação de Moro à legenda “com unhas e dentes” e diz que o ex-juiz tem aceitação popular. “Vou trabalhar para que o PSL possa ser essa opção dentro do campo do centro liberal, uma alternativa aos extremos. Moro está mais vivo do que nunca."

Questionada pela Folha, a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) diz manter o entendimento de que Moro deve se candidatar à Presidência, conforme ela apregoou nas redes sociais no mês passado.

"Querem derrubar todo o trabalho dele, não querem que ele advogue, nem que preste consultoria... Seus detratores não percebem que estão traçando o caminho dele! E, se ele se candidatar, não terá para ninguém!", escreveu ela, que estimula o projeto como uma saída para a direita infeliz com Bolsonaro.

A deputada, advogada e professora de direito da USP diz à reportagem que não encontrou "nada que pudesse desabonar" Moro nas mensagens que foram publicadas, e que a decisão de Fachin foi "processualmente injustificável".

Políticos que se animam com a candidatura de Moro acreditam que, caso o STF confirme a imparcialidade, ele ganhará um selo importante para a disputa de 2022. Nesse caso, porém, é grande a chance de que enfrente justamente Lula, agora que o ex-presidente teve os direitos políticos restaurados.

Nos setores que trabalham pela construção de uma alternativa no campo chamado de centro, a variável Moro ainda é algo a ser monitorado.

Huck, que não se apresenta oficialmente como candidato, foi aconselhado a esperar o cenário desanuviar antes de qualquer passo. A eventual participação do ex-juiz no pleito está longe de ser, segundo aliados do apresentador, um fator crucial para sua definição. Pesquisas servirão de bússola.

Nos bastidores, o entorno de Doria evita decretar a morte política do ex-juiz. Tucanos especulam que uma decisão do STF muda pouco o quadro a favor ou contra Moro.

O raciocínio se fia no pensamento de que, em um quadro de polarização, a parcela de eleitores que apoia a Lava Jato não abandonará o ex-juiz seja qual for o resultado. Um auxiliar de Doria diz que Moro pode herdar votos de lava-jatistas que se decepcionaram com Bolsonaro e ainda abraçam o antipetismo.

No campo da esquerda, onde enfrenta as maiores oposições, Moro é considerado cada dia mais distante de uma aventura nas urnas.

"A suspeição enterra as pretensões presidenciais dele", diz o secretário nacional de comunicação do PT, Jilmar Tatto, ecoando a opinião majoritária do partido. "Juiz suspeito e condenado não vai bem na urna."

No PDT de Ciro Gomes, Moro também é tido como peça fora do jogo eleitoral, sobretudo depois das ações no Supremo. O presidenciável se distanciou do PT na esquerda e rechaça uma aliança, mas faz coro com Lula nas críticas à atuação de Moro como juiz da Lava Jato.

Durante entrevista à Folha no fim de fevereiro, Ciro disse que não enxergava o ex-magistrado como personagem da corrida eleitoral e lembrou que ele não está filiado a partido. "O Moro há muito tempo desistiu da política. Ele decidiu ganhar dinheiro", afirma.

"Quem bate não lembra, quem apanha não esquece", compara o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, em referência às mágoas de políticos investigados com Moro. "Quem vai confiar no Moro? Quem vai acreditar na imparcialidade dele? Ele não tem aliança, não tem nada", diz.

O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, pondera que nem se sabe se o juiz da Lava Jato tem ou não o intuito de ser candidato, mas avalia que “seu público diminuiu muito” desde que rompeu com Bolsonaro, já que a base eleitoral do presidente se viu obrigada a escolher entre um e outro.

“Torço para que Moro desista disso [da Presidência], porque cumpriu um papel muito negativo nesse processo. Está claro agora que foram ações judiciais completamente politizadas. A toga fazendo política é algo que não corresponde ao papel de um juiz”, afirma.

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