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'Eu me identificava como jornalista e ninguém ouvia', diz fotógrafo agredido em ato bolsonarista em BH

Profissional do jornal Estado de Minas cobria protesto contra medidas de combate à pandemia; apenas um dos agressores foi identificado pela polícia

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Belo Horizonte

Um repórter fotográfico do jornal Estado de Minas foi agredido nesta segunda-feira (15) em Belo Horizonte por manifestantes bolsonaristas.

Em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o grupo protestava contra as medidas adotadas pelo prefeito Alexandre Kalil (PSD) no combate à pandemia da Covid-19 e criticava o Supremo Tribunal Federal.

Vídeos registrados pelo profissional, que pediu para não ser identificado por questões de segurança, mostram ele sendo assediado verbalmente por alguns manifestantes.

Uma mulher diz “comunistas, não vamos deixar”, enquanto outra fala em tom mais calmo que estão “saturados dos supostos jornalistas”. Alguns manifestantes gritam “fora, fora”, enquanto o repórter pede que não encostem nele e outros tentam intervir para acalmar os ânimos.

Em outro momento, enquanto o repórter tentava recuar até o carro do jornal, um homem de camisa polo verde, sem máscara, avança até o fotógrafo dizendo “eu sou brasileiro”, e o fotógrafo pede que ele fique onde está. Um homem de cabelos brancos, usando máscara, se aproxima e o acerta com um capacete de motociclista que carrega nas mãos. Em seguida, o indivíduo de camisa polo verde dá chutes no jornalista.

O episódio ocorreu em frente ao 12º Batalhão de Infantaria do Exército, em Belo Horizonte, onde os manifestantes se reuniram em uma carreata de apoio a Bolsonaro. Segundo a Polícia Militar, apenas o fotógrafo e o homem que aparece segurando um capacete prestaram depoimentos no registro da ocorrência.

A Polícia Civil diz que o suspeito da agressão assinou um termo circunstanciado de ocorrência e deve comparecer a uma audiência no Juizado Especial Criminal. A polícia informou ainda que as investigações continuam para identificar outros envolvidos.

​Repórter fotográfico há mais de 20 anos, dez deles no jornal Estado de Minas, o profissional agredido conta que desde a cobertura das manifestações de junho de 2013 começou a abordar líderes de protestos para anunciar quem era e poder trabalhar. Ele relata que só teve alguns conflitos pontuais na cobertura de protestos a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

O repórter fotográfico conta que mostrou aos manifestantes suas credenciais e o crachá do jornal Estado de Minas, mas eles questionaram se a identificação não seria falsa. Antes da sua chegada, segundo ele, outros colegas já haviam sido expulsos do local pelos manifestantes, incluindo outra colega fotógrafa.

“Eu me identificava como jornalista e ninguém ouvia. Não era questão de um veículo A ou B, a rigor não temos nada contra o movimento, nem eles contra o jornal”, relata ele.

Quando sentiu que estava acuado, ele começou a filmar os eventos, primeiro usando o celular e depois a câmera profissional do jornal. O fotógrafo afirma que tentou se dirigir a uma mesa que tinha o banner com a foto de Bolsonaro, em busca dos organizadores do ato, mas foi impedido. À polícia ele disse que tentou entrar no quartel, mas não foi autorizado.

O fotógrafo conta que, até a chegada da PM, ele ainda estava sendo assediado verbalmente pelos manifestantes. Pelo registro da ocorrência, apenas um dos agressores foi identificado e prestou depoimento: Paulo Cesar Bretas, o homem de 68 anos que atingiu o repórter no braço com um capacete.

“Se eu não vejo ele chegando, se eu tomo a revelia, a pancada era na cabeça. Eu tomei a capacetada no braço em um movimento de defesa”, diz o fotógrafo.

A Folha tentou contato com o suposto agressor, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. Segundo jornais locais, o homem já trabalhou fantasiado de Papai Noel em um shopping na capital mineira.

À polícia ele afirmou que o conflito começou porque os manifestantes não queriam ser filmados pelo repórter fotográfico e disse que levantou o capacete para afastar o profissional, enquanto outras pessoas pediam que ele saísse do local.

Em nota oficial, o jornal Estado de Minas condenou veementemente toda e qualquer tipo de agressão e hostilidade aos seus profissionais e ressaltou que o livre exercício do trabalho da imprensa é fundamental em uma nação democrática.

“A ferida é na alma, em saber que temos um líder no país que está fomentando isso. Eu sou um repórter que faço 100% das matérias na rua, então a gente está em alerta”, afirma o repórter fotográfico. “Estou na rua neste momento, minha missão é o jornalismo. Isso não me amedronta, não."

O Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais repudiou o ataque e disse que as agressões colocam em risco a vida dos profissionais, o exercício da profissão e a liberdade de imprensa.

"É necessário que as autoridades —polícia, Justiça e Ministério Público— sejam firmes no sentido de apurar responsabilidades, coibir e condenar atitudes como essa, que têm contribuído para tornar o Brasil um dos lugares mais perigosos para exercício do jornalismo, função primordial para a garantia do direito constitucional à informação e, nesse momento, fundamental para o combate à pandemia", disse a entidade.

"As agressões sofridas pelo repórter fotográfico do Estado de Minas no exercício de suas funções profissionais são uma violação à liberdade de imprensa e uma evidência de baixo apreço pela democracia por parte dos manifestantes. As autoridades devem apurar o caso com celeridade e não deixar os responsáveis impunes, sob pena de chancelarem novas agressões contra jornalistas no futuro", afirmou, em nota, o presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Marcelo Träsel.

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) protestou contra o que chamou de “covardes agressões” sofridas pelo repórter fotográfico e salientou que “o extremismo e a intolerância contra jornalistas atingem toda a sociedade”.

“Os agressores atentaram contra a integridade física de um cidadão e também contra o direito de todos serem livremente informados, já que o repórter fotográfico estava trabalhando para levar a público informações sobre a manifestação. A integridade física e moral dos jornalistas é parte fundamental do exercício da liberdade de imprensa”, disse a entidade em nota.

A associação também se manifestou por meio de nota em apoio à repórter fotográfica Paula Fróes, do jornal Correio, que foi agredida em Salvador, enquanto cobria manifestações no último domingo (14) na capital baiana.

“A ANJ assinala que um dos agressores já foi identificado, o que certamente facilitará o trabalho de apuração da polícia. É essencial que episódios como este sejam rapidamente esclarecidos, com o encaminhamento dos agressores à Justiça”, afirmou.

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