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Movimentação digital sugere que batalha de 2022 está longe de estar definida

Bolsonaro terá muita dificuldade de se reeleger, se resultados objetivos de seu governo não melhorarem até a eleição

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Felipe Nunes

Diretor da Quaest Pesquisa & Consultoria e professor de ciência política na UFMG

Em 2018, o país viu a inauguração de uma nova era na comunicação política.

Depois do rádio, amplamente usado por Vargas, e da TV, fundamental nas eleições de Collor, FHC, Lula e Dilma, Bolsonaro usou suas redes sociais para engajar e mobilizar milhões de eleitores Brasil afora em torno de pautas (corrupção, armas e medo) que lhe deram vantagem naquela eleição.

Não à toa o considero o primeiro presidente digital da história do Brasil.

Se a comunicação muda, se adapta, evolui, os mecanismos de mensuração da opinião pública também precisam mudar, se adaptar e evoluir.

Embora as pesquisas de opinião continuem sendo ferramentas fundamentais para mensurar avaliação de governo e intenção de voto, há outras metodologias eficazes surgindo para mensurar a popularidade digital de personalidades e marcas usando apenas dados coletados em plataformas digitais.

O IPD (Índice de Popularidade Digital) da Quaest é um exemplo disso. O algoritmo usa inteligência artificial e coleta 152 variáveis de Twitter, Facebook, Instagram, YouTube, Wikipedia e Google para estimar um ranking que compara o desempenho de qualquer personalidade ou marca presente no ambiente digital.

Em 2020, o IPD foi calculado para candidatos a prefeito e vereador em 635 cidades do país.

Em São Paulo, por exemplo, esse foi o primeiro indicador a mostrar a vantagem que Boulos teria no primeiro turno da eleição. Em BH, foi capaz de apontar Bruno Engler como o segundo colocado na disputa com Kalil. Na média, o resultado eleitoral observado nas urnas mostrou correlação de 92% com os resultados de popularidade digital estimados por meio do IPD antes da abertura das urnas.

Em 2018, o IPD já havia tido um bom desempenho como preditor de desempenho eleitoral, tendo tido correlação de 94% com o resultado das eleições para governador, deputados federais e deputados estaduais.

Ou seja, os dados do índice conseguiram descrever de forma eficiente o resultado eleitoral apurado pelo TSE em 2018 e 2020. Sendo assim, deveríamos começar a usá-lo para entender o cenário eleitoral de 2022.

A Quaest começou a monitorar a popularidade digital de Bolsonaro e outros possíveis concorrentes à Presidência já em janeiro de 2019.

Desde então, observou-se um predomínio absoluto de Bolsonaro no ambiente digital. Em 2019, a média do IPD de Bolsonaro foi de 85,3 (em uma escala de 0 a 100); em 2020, foi 80,7. Outras personalidades políticas, como Lula, Ciro, Doria, Huck e Moro tinham médias bem mais baixas, próxima dos 45 pontos.

Neste cenário, qualquer analista que usasse o IPD como referência diria que a reeleição do presidente seria certa. Ele não só conquistava bons resultados no índice geral de popularidade digital, como também dominava suas dimensões de fama, engajamento, mobilização e valência.

O terceiro ano do mandato de Bolsonaro, no entanto, começou com resultados bem menos otimistas para ele e muito mais favoráveis aos seus adversários.

Após a crise de leitos em Manaus, o atraso na vacinação, o fim do auxílio emergencial e os recentes resultados econômicos desastrosos, a média da popularidade digital de Bolsonaro está 20 pontos menor do que nos anos anteriores.

Em 1º de janeiro de 2021, por exemplo, o presidente mantinha bom desempenho nas redes, com um IPD de 83,2 pontos. Ele teve momentos ruins ao longo de 2020, mas nada que abalasse definitivamente sua popularidade digital. Lula, por outro lado, começou o ano com um IPD de 40,3 pontos.

Os dados para 1º de março mostram um cenário bem diferente. Os dois adv ersários políticos nunca estiveram tão perto em desempenho medido nas redes. Bolsonaro caiu para 62,3, e Lula subiu para 55,9.

Mas não foi só Lula que obteve resultados positivos neste período. Huck, por exemplo, chegou a 48,9 pontos no IPD com as críticas direcionadas ao presidente em relação ao que aconteceu em Manaus. Doria chegou a 43,9 pontos com o anúncio da vacina do Butantan.

O que toda essa movimentação digital nos sugere é que a batalha de 2022 está longe de estar definida, como quer acreditar o fã-clube de Bolsonaro. Uma análise mais cuidadosa das redes explica por quê.

A principal motivação para o crescimento de Lula nas redes nos últimos 60 dias foi o aumento no interesse, medido no Google, sobre o preço de alimentos e combustíveis durante o seu governo.

O engajamento em torno de seu nome nas redes aumentou porque as pessoas começaram a buscar de forma espontânea referências de preços do passado para os debates digitais em torno dos constantes aumentos que estamos vivenciando agora.

‘É a economia, estúpido’, diria James Carville. O crescimento digital de Huck e Doria foi momentâneo porque dizia respeito a um tema relevante, mas não estruturante.

O que tem alavancado Lula nos meios digitais é a discussão sobre o bolso, o poder de compra, a crise econômica, a comparação de preços que o Google permite que seja feita em qualquer aparelho de celular ou computador.

Se as redes são capazes de nos dizer a popularidade de personalidades políticas, e se essa popularidade tende estar associada aos resultados eleitorais, é bom Bolsonaro colocar as teclas do seu Twitter de molho.

Ele parece ter caído de patamar definitivamente no campo onde sempre dominou soberano: as redes. Mas não é isso que deve lhe preocupar, mas sim os motivos para tal.

Se os resultados objetivos de seu governo não melhorarem até 2022, Bolsonaro terá muita dificuldade de se reeleger. O sentimento de mudança estará posto. Contra essa correnteza é difícil remar.

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