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Eugênio Bucci e Hamilton Varela

Paulistas vivem e morrem sob a maldição do BolsoDoria

Com Bolsonaro no Planalto e Doria no Bandeirantes, desgoverno foi elevado ao quadrado em São Paulo

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Eugênio Bucci

Jornalista, professor da ECA-USP e conselheiro do Instituto Vladimir Herzog, é autor de "Existe Democracia sem Verdade Factual?" (ed. Estação das Letras e Cores)

Hamilton Varela

Professor titular do Instituto de Química de São Carlos da USP

Enquanto o mundo inteiro apresenta números declinantes nas mortes causadas pela pandemia —até nos Estados Unidos, o campeão de óbitos, o que se vê é um patamar estacionário—, o Brasil, na contramão, bate recordes sucessivos.

No dia 3 de março, veio mais um: 1.840 mortes em 24 horas, segundo o consórcio dos órgãos de imprensa. Hospitais públicos e privados colapsam. Não há leitos nas UTIs. Não há oxigênio. Não há espaço para se empilharem os cadáveres.

O presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria, em reunião do Fórum de Governadores, no CICB (Centro Internacional de Convenções do Brasil), em 2018 - Pedro Ladeira/Folhapress

Em todos os cenários, o óbvio se escancara: o despreparo das autoridades agrava o quadro, mata gente e faz da moléstia que se alastra, entre mutações e desinformação oficial, a metáfora mais cruel do desgoverno que vitima os brasileiros.

O estado de São Paulo é o epicentro dessa metáfora. Na unidade federativa mais rica da nação, há mais vítimas fatais do novo coronavírus do que em várias regiões mais pobres. Isso em termos proporcionais, não apenas absolutos.

Analisando os dados do Painel Coronavírus (covid.saude.gov.br/, consultado em 4/3), podemos ver que, se fosse um país, o estado paulista, com letalidade de 2,9% e mortalidade de 131 por 100 mil, teria uma performance pior que a do Brasil, com letalidade de 2,4% e mortalidade de 123 por 100 mil —e não nos esqueçamos de que o Brasil figura entre os piores do planeta no trato dessa pandemia.

Por que isso acontece? A resposta é tão desoladora quanto clara. Isso só acontece porque aqui, em São Paulo, o desgoverno foi elevado ao quadrado. Além de pagarem pelo negacionismo criminoso do presidente da República, que estimula aglomerações em todas as suas aparições e desdenha dos que usam máscara, os paulistas pagam também pela marquetolagem irresponsável de seu governador, João Doria.

No Palácio do Planalto, Jair Boslonaro, o fascistófeles, ao tempo que elogia a ditadura militar e seus torturadores, dá demonstrações seguidas de desprezo pelos direitos humanos, pela ciência, pela saúde e pela vida de seus compatriotas. No Palácio dos Bandeirantes, o governador faz pose de rei da vacina em capas de revista, mas sua incompetência engalanada só faz piorar o caos.

Doria se apresenta como uma inteligência atenta às pesquisas científicas. Sempre que pode, e também quando não pode, gosta de se lançar como o oponente sensato contra o negacionismo presidencial.
Encenações à parte, promove turnês da vacina por cidades diversas, provocando aglomerações bolsonáricas.

Quando os sinais da segunda onda já eram alarmantes, preferiu acenar com agrados ao comércio em vez de ser rigoroso na proteção da saúde de sua gente. Seus acochambramentos atrasaram as necessárias medidas de isolamento para combater o contágio. Suas ambiguidades empurram mais doentes para os hospitais superlotados.

É assim que, em São Paulo, temos a tragédia brasileira potencializada. Em Bolsonaro, a administração calamitosa decorre de uma combinação mortífera: o desprezo pela dignidade humana aliado a limites intelectuais gravíssimos.

Em Doria, a demagogia do papagaio de pirata do Instituto Butantan decorre de outro mix, igualmente tóxico: o culto do dinheiro, o próprio incluído, aliado a uma ambição sem limites.

Para tornar as coisas ainda mais angustiantes, o governador não se envergonha de nada. Faz ares de que se arrepende do papelão de 2018, quando modificou o próprio sobrenome eleitoral para BolsoDoria, com o objetivo pegar carona como penetra na popularidade do candidato da extrema direita antidemocrática, apologista das armas e da violência.

Na verdade, não se se retrata de coisa nenhuma. Apoiou Bolsonaro como uma chacrete na eleição de 2018 porque viu nisso um atalho para buscar os votos que lhe faltavam. Agora, quando dá a entender que não gostaria de ter feito o que fez, reincide no mesmo golpe, mas com o sinal trocado.

Ele não quer se penitenciar de seu ato, quer apenas reeditá-lo, desta vez em sentido contrário. Em 2018, trocou a alma por um punhado de votos de bolsonaristas furibundos. Agora, diz o oposto do que dizia para, em 2022, abocanhar os votos de quem não suporta mais o bolsonarismo.

Se para alguns a política exige pactos com o diabo, Doria se julga esperto o suficiente para tapear não apenas o eleitor, mas o próprio Satanás. Ele se endivida com as piores forças deste mundo —e dos outros, também—, com o detalhe de que não quer pagar o preço. Neste mundo, deve sua eleição em 2018 a Bolsonaro. Nos outros mundos, sabe-se lá a quem pede socorro para 2022.

E aqui estamos nós, os paulistas. Seguimos vivendo —e sobretudo morrendo— sob a maldição do signo de BolsoDoria.

Não, o vírus não é o nosso pior inimigo. O pior inimigo que temos, aquele que nos sequestra o ar, é o monstrengo de duas cabeças que agencia o vírus e dizima sem descanso o que um dia aprendemos a chamar de esperança.

Adesivo de campanha de Doria apreendido prega voto 'Bolsodoria'
Adesivo de campanha de Doria apreendido prega voto 'Bolsodoria' - Divulgação
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