Escolha de favorito no Exército pode afastar dois desafetos de Bolsonaro do Alto-Comando

Quatro generais devem ir à reserva se Freire Gomes virar comandante, o que muda escala de promoções

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São Paulo

A mudança nos comandos de Força brasileiros tem implicação em toda a escala de promoção de oficiais-generais. E poderá gerar uma boa notícia colateral para Jair Bolsonaro e seus aliados, tirando do Alto-Comando do Exército dois nomes que desagradam o Planalto.

Por isso há a praxe de que são promovidos a comandante apenas 1 dos 3 militares mais longevos da corporação, para tentar influir o menos possível no processo. Por vezes, contudo, turmas inteiras de oficiais-generais são preteridas.

O general Edson Leal Pujol no dia em que foi empossado como comandante do Exército
O general Edson Leal Pujol no dia em que foi empossado como comandante do Exército - Sergio Lima - 11.jan.2019/AFP

Na atual crise de destituição dos comandantes, o caso do Exército é o mais complexo —as regras, em si, valem para todas as Forças.

Tudo passa pelo sistema que leva coronéis para o nível de general de brigada (duas estrelas), para depois disputar vaga de general de divisão (três estrelas) e, por fim, general de exército (quatro estrelas).

Se um militar for promovido para os três postos, ele pode ficar no máximo 12 anos como general, o que faz uma divisão mais ou menos equânime de tempo em cada nível ser aplicada. Além das promoções normais, em duas ou três ocasiões anuais, há eventos exógenos —morte, saída a pedido ou, como agora, troca de comando.

Assim, para cada turma de cerca de 400 alunos da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), apenas 4 chegam ao topo da hierarquia.

Nesta quarta (31), o general de exército Decio Schons (Departamento de Ciência e Tecnologia) irá para a reserva.

Até aqui, o favorito ventilado pelo Palácio do Planalto para ocupar a vaga do comandante Edson Leal Pujol é o chefe militar do Nordeste, Marco Antônio Freire Gomes.

Ocorre que ele é o quinto mais longevo do Alto-Comando, colegiado de 15 chefes militares que respondem ao comandante —sempre um general de quatro estrelas que vai para a reserva quando assume o cargo.

Se for escolhido, os 4 generais mais antigos, como se diz nas Forças, a tendência é a de que todos passem à reserva —o comandante sempre é o com mais tempo de caserna.

Aqui entra o efeito colateral. Dois do generais não são bem vistos no Palácio do Planalto. O número 2 da Força, Marco Antonio Amaro dos Santos, é chamado por lá de "o general da Dilma", por trabalhado com a ex-presidente petista como chefe de sua Casa Militar.

Amigos deles chamam o epíteto de injusto, dado que ele cumpria missão. O ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo foi ajudante de ordens de Fernando Collor e nem por isso era associado ao presidente que sofreu renunciou em meio ao impeachment.

Já o chefe do Departamento de Pessoal do Exército, Paulo Sério, concedeu entrevista no domingo (28) que foi um dos pontos de irritação do presidente com Pujol e ministro da Defesa, Fernando Azevedo, demitido na segunda.

Ele comparava o baixo índice de infecção das tropas pela Covid-19, em comparação com a população em geral. E fez defesa de políticas combatidas por Bolsonaro, como o distanciamento social.

Se a medida for em frente, começa um desequilíbrio. Organicamente, o Alto-Comando receberia neste ano 3 novos generais (2 agora e 1 em agosto), completando o quadro dos promovidos da turma de 1983.

Quem não é promovido tem de ir para a reserva, compulsoriamente. No nível de general de divisão, seriam 6 da turma de 1983 neste ano.

Se houver mais 5 vagas no Alto-Comando, dado que Freire Gomes também vai para a reserva, será preciso começar a promover a turma de 1984 para vagas de três estrelas —deixando precocemente para fora do Exército generais que poderiam ter mais anos de serviço.

Aí a questão se sucede, obrigando acelerar promoções do primeiro nível do generalato. É também por isso que militares torcem o nariz quando o assunto é troca de comando, pois planejamentos de carreira todos são feitos baseados nessa previsibilidade.

MINISTROS MILITARES DE BOLSONARO

Casa Civil
Luiz Eduardo Ramos, general da reserva do Exército

Defesa
Walter Souza Braga Netto, general da reserva do Exército

Gabinete de Segurança Institucional
Augusto Heleno, general da reserva do Exército

​Ciência e Tecnologia
Marcos Pontes, tenente-coronel da reserva da Aeronáutica

Minas e Energia
Bento Albuquerque, almirante da Marinha

Infraestrutura
Tarcísio de Freitas, capitão da reserva do Exército

Controladoria-Geral da União
Wagner Rosário, capitão da reserva do Exército

MILITARES QUE JÁ FORAM MINISTROS OU OCUPARAM POSIÇÕES DO ALTO ESCALÃO DO GOVERNO

Secretaria de Governo
Carlos Alberto dos Santos Cruz, general da reserva do Exército

Porta-voz da Presidência da República
Otávio do Rêgo Barros, general da reserva do Exército

Ministério da Defesa
Fernando Azevedo e Silva, general da reserva do Exército

Ministério da Saúde
Eduardo Pazuello, general de divisão do Exército

Secretaria-Geral da Presidência
Floriano Peixoto, general da reserva do Exército

Secretário especial do Esporte do Ministério da Cidadania
Décio Brasil, general da reserva do Exército

Presidente do Incra
João Carlos Corrêa, general da reserva do Exército

Presidente dos Correios
Juarez Cunha, general da reserva do Exército

Presidente da Funai
​Franklimberg Freitas, general da reserva do Exército

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto informava que, quando um general do Alto-Comando vira comandante, obrigatoriamente os seus pares mais antigos na Força precisam ir à reserva. Essa é uma regra não escrita, na realidade.

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