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Alvo de ataques, jornalistas mudam de endereço e evitam certos temas por segurança

Segundo entidade, registros de violência contra profissionais da imprensa aumentaram 106% em 2020

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Belo Horizonte

No dia 18 de junho de 2019, Denes Pereira, 28, atendeu uma ligação da mulher de Romário Barros, 31, seu colega e chefe no site Lei Seca Maricá, perguntando se eles estavam juntos. Romário tinha avisado que sairia para correr e ainda não havia voltado para casa.

Divulgadas na época, imagens de câmeras de segurança mostram um homem se aproximando do carro de Romário, abrindo a porta e disparando contra ele, antes de embarcar de carona em outro carro e fugir. O jornalista foi morto com três tiros, na cabeça e no pescoço.

“Foi uma das maiores dores da minha vida. Por um tempo não conseguia dormir direito”, conta Denes, que encontrou o amigo. Hoje, ele é diretor-geral do Lei Seca Maricá, que tem em seu logo um laço preto simbolizando luto.

A morte violenta de Romário mudou a rotina do site, que chegou a parar por algumas semanas. Antes, os jornalistas escreviam as reportagens dentro do carro e trabalhavam direto da rua.

Depois do crime, a Redação passou a ter um escritório fixo, com grades, e a atenção e cautela foram redobradas nos temas abordados —as pautas, segundo o jargão jornalístico.

“Estou agora em uma pauta e estou com um amigo. A gente nunca anda sozinho, anda sempre em dois, para ficar mais seguro. Enquanto um olha uma coisa, outro olha para outro lado, sempre cauteloso com tudo”, afirma Denes.

“A gente preza muito pela segurança depois do que aconteceu, para poder trabalhar normal e dormir tranquilo."

O assassinato de Romário foi o segundo de um jornalista registrado em menos de um mês na cidade do litoral do Rio de Janeiro, com população de cerca de 162 mil habitantes, segundo o IBGE. Em 25 de maio de 2019, Robson Giorno, do jornal O Maricá, foi morto a tiros, na porta de sua casa.

Os casos seguem em andamento no Ministério Público do Rio de Janeiro, mas sob sigilo. O jornal de Robson, que tinha ainda envolvimento político, encerrou atividades, e a família não fala sobre o assunto, segundo fontes na cidade.

“Nunca tinha acontecido nada parecido, a cidade sempre foi muito pacata e fazíamos o trabalho com a maior tranquilidade. Foi algo que deixou uma lacuna para a gente”, relata Paulo Celestino, presidente da AIM (Associação de Imprensa de Maricá), que diz evitar entrevistas sobre os casos.

No ranking de impunidade do CPJ (Comitê para Proteção de Jornalistas) para assassinatos de jornalistas, em 2020, o Brasil passou a ocupar a oitava posição com 15 casos não solucionados. O índice leva em consideração a proporção entre crimes e a população total do país e casos ocorridos entre setembro de 2010 e 31 de agosto de 2020.

“Houve algumas condenações notáveis em alguns casos nos últimos anos, o que indica algum progresso, mas a maioria dos casos de assassinatos de jornalistas no Brasil seguem sem solução e os mandantes são raramente —quando são— identificados e levados à Justiça”, diz Natalie Southwick, coordenadora do CPJ para as Américas do Sul e Central.

O Brasil tem aparecido consistentemente desde 2008 no índice, aponta ela, ficando sempre entre a 9ª e 12ª posição. Os dados reunidos pela organização mostram que o número de mortes caiu depois de um pico em 2015, quando foram registrados seis assassinatos, mas isso não significa que o cotidiano de jornalistas tenha ficado mais fácil no país.

As mortes dos dois jornalistas de Maricá foram os dois casos registrados em 2019 no relatório da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). Em 2020, foram registradas outras duas mortes, mas o número total de ataques em geral teve crescimento de 106%, com relação ao ano anterior.

Um ano após a morte de Romário, em junho de 2020, em Alegrete (RS), dois jornalistas do jornal Em Questão foram agredidos e detidos por policiais militares, depois de tentar apurar um caso de abigeato (furto de gado), numa área do Exército, em Rosário do Sul. O caso está entre os registros da Fenaj.

Pescoço do jornalista Paulo de Tarso com marcas após ser agredido por policial militar em Alegrete (RS)
Pescoço do jornalista Paulo de Tarso com marcas após ser agredido por policial militar em Alegrete (RS) - Divulgação - 19.jun.20

O diretor do veículo, Paulo de Tarso, 61, que começou a carreira no fim dos anos 1970, ainda durante a ditadura militar, ficou com marcas no pescoço pela agressão.

Ele conta que o repórter Alex Starnlei, detido durante a apuração, mudou de cidade recentemente e deixou a profissão —a agressão foi um dos fatores que pesaram para a decisão. O jornal evita assuntos ligados à polícia desde então.

“Eu estou morando em um apartamento aqui, quase que improvisado, há seis meses, porque é mais protegido. Houve uma reviravolta. Tive que mudar meus filhos de colégio, tive que abrir mão de várias coisas”, afirma Tarso. “Estou no limbo, porque não sei como vai ser o processo daqui para frente."

A Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul informou que "o inquérito da Polícia Civil, que avaliou todo o caso, indiciou os dois policiais militares envolvidos no fato por lesão corporal no contexto da Lei de Abuso de Autoridade e a tenente do Exército, presente na ocorrência, por omissão de socorro. O inquérito foi remetido ao Judiciário em agosto de 2020".

Com 428 registros, o levantamento feito pela Fenaj considera, além dos assassinatos, agressões verbais, virtuais ou não, e físicas, além de censura, ameaças e tentativas de descredibilizar a imprensa. Segundo os dados, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi responsável por 40,8% dos registros, a maioria (145) casos de ataques a veículos de comunicação e a jornalistas.

“Está havendo uma escalada da violência contra jornalistas no Brasil. Ataques genéricos e generalizados a veículos de comunicação e a jornalistas, como ataques em que o presidente Bolsonaro é reincidente, ataques para descredibilizar a imprensa, têm sido recorrentes desde 2019”, afirma a presidente da Fenaj, Maria José Braga.

Um dos ataques mais recentes aconteceu em março, quando a sede onde funciona o jornal Folha da Região, uma rádio comunitária e um site foi atacada em uma tentativa de incêndio, em Olímpia (SP). No local também reside o jornalista e proprietário dos veículos.

O suspeito do crime, um bombeiro municipal, se apresentou na última quinta-feira (1º) às autoridades. A polícia apontou que o autor era contra as medidas de restrição à Covid-19 defendidas pelo dono do jornal.

José Antônio Arantes, 62, com quase 50 anos de profissão, diz que instalou câmeras de segurança no local e contratou uma empresa para fazer monitoramento.

“O que muda é o temor, porque nossa situação continua complicada e difícil”, diz ele. “Como jornalista de uma cidade pequena, tendo um jornal pequeno, eu não consegui ter bens suficientes para parar nesse momento. Nessa crise da pandemia, o faturamento das empresas que eu dirijo caiu 80%. A gente vai tocando o barco."

Para o presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Marcelo Träsel, o caso de Olímpia é uma representação da escalada do discurso estigmatizante sobre a imprensa, endossado por Bolsonaro, ministros e apoiadores.

“No entendimento da Abraji, esse é um momento de grande preocupação. O que contribui diretamente para esse tipo de caso é o discurso estigmatizante, que acaba por inspirar pessoas mais desequilibradas, com tendências mais violentas a saírem do discurso, que em si mesmo já é grave e partir para agressão física”, afirma Träsel.

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