Descrição de chapéu Folhajus

Dois celulares apreendidos com miliciano ligado a Flávio Bolsonaro estavam vazios, diz MP-RJ

Promotoria diz que aparelhos eram novos e não foram usados; ata de abertura de envelopes com os itens não foi anexada em ação penal

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Rio de Janeiro

O Ministério Público do Rio de Janeiro afirmou que estavam vazios, sem nenhum dado, 2 dos 11 celulares apreendidos com o miliciano Adriano da Nóbrega na operação que culminou com a sua morte na Bahia há um ano.

A informação foi dada após a Folha questionar a Promotoria sobre a ausência de relatórios de análise de dados dos dois aparelhos nos documentos anexados à ação penal da Operação Gárgula, que mirou os bens acumulados pelo ex-policial militar e a estrutura para protegê-lo durante a fuga.

O Gaeco (Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado) afirmou, em nota, que os dois aparelhos "nunca tinham sido utilizados".

"O ICCE/RJ [Instituto de Criminalística da Polícia Civil] identificou que dois dos aparelhos periciados nunca tinham sido inicializados, porquanto ao serem ligados apareceu a tela de inicialização para a configuração do aparelho, própria da sua primeira utilização", afirma a nota.

No processo da Gárgula, também não consta a ata de abertura dos envelopes em que estavam esses dois celulares desde o dia de sua apreensão. Há CDs em que, segundo o MP-RJ, constam os laudos elaborados pelo ICCE. Seu conteúdo, porém, não é público.

A Operação Gárgula mirou a movimentação financeira da quadrilha de Adriano, estimada em R$ 8,4 milhões. Está foragida a viúva do ex-PM, Julia Lotuffo, apontada como responsável pela administração do patrimônio do miliciano. Dois homens já foram presos e um policial também era alvo de mandado de prisão, mas foi morto no fim de semana, às vésperas da deflagração da operação.

Apontado como chefe de uma milícia no Rio de Janeiro, Adriano também é descrito pelo MP-RJ como tendo sido membro do esquema da suposta “rachadinha” no antigo gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Repulicanos-RJ) na Assembleia Legislativa.

O ex-capitão, expulso dos quadros da PM por envolvimento com o jogo do bicho, tinha a mãe e a ex-mulher nomeadas no gabinete do filho do presidente Jair Bolsonaro.

Ex-integrante do Bope (Batalhão de Operações Especiais), Adriano era amigo e foi companheiro de batalhão de Fabrício Queiroz, ex-PM, ex-assessor de Flávio e apontado como operador financeiro da “rachadinha”.

O ex-capitão foi morto num sítio em Esplanada (170 km de Salvador) em 9 de fevereiro de 2020 numa operação da Polícia Militar da Bahia com a participação de agentes fluminenses. A polícia da Bahia afirma que ele disparou contra os agentes quando foi localizado. Ele estava foragido há um ano sob acusa ção de comandar a milícia da favela Rio das Pedras.

No sítio foram encontrados 13 aparelhos celulares. Dois pertenciam a outras pessoas e foram devolvidos aos donos, segundo a polícia. Os demais foram enviados para o Rio de Janeiro.

Dias depois da morte de Adriano, o presidente Jair Bolsonaro demonstrou preocupação com os telefones. “Será que a perícia [oficial] poderá ser insuspeita? Eu quero uma perícia insuspeita. Não queremos que sejam inseridos áudios ou conversas no celular dele”, disse.

Cada um dos celulares foi colocado dentro de um envelope lacrado e enviado para o Rio de Janeiro. A Justiça autorizou perícia da Polícia Civil e a extração de dados pelo MP-RJ através de um programa chamado Cellebrite.

O inquérito da Operação Gárgula indica que a abertura dos envelopes no Instituto de Criminalística da Polícia Civil fluminense ocorreu em dois dias distintos: 6 e 15 de maio de 2020. Os autos apresentam apenas a ata de abertura do dia 15, no qual estão listados 3 celulares cujos relatórios de análise de dados estão no processo.

Há dois CDs com os laudos da Polícia Civil, um para cada dia de abertura de envelope, cujo conteúdo não está público. Porém o inquérito não mostra a lista dos celulares retirados dos envelopes no dia 6.

Segundo o MP-RJ, esses dois celulares não foram periciado pelo Cellebrite. A ferramenta é capaz de recuperar dados apagados, mas não de aparelhos restaurados ao padrão de fábrica, segundo dois peritos consultados pela Folha.

"Não havia o que extrair pelo Cellebrite porque restou comprovado que os telefones celulares eram novos e nunca tinham sido utilizados", afirma o Gaeco, em nota.

Os documentos do inquérito mostram que havia dados relevantes sobre troca de mensagens em apenas 3 dos 9 aparelhos analisados. Eles se concentram no período em entre outubro e novembro de 2019, e fevereiro de 2020, dias antes da morte de Adriano.

Não há nos dados extraídos referência a Queiroz, Bolsonaro ou Flávio.

Na investigação do MP-RJ sobre a "rachadinha", contudo, promotores apontaram indícios de que o advogado Luis Botto Maia, ligado ao senador Flávio Bolsonaro, se comunicou com o miliciano em dezembro de 2019, quando o ex-policial militar estava foragido.

Segundo os investigadores do caso da "rachadinha", Botto Maia e Márcia Aguiar, mulher de Queiroz, se encontraram em 3 de dezembro de 2019 com Raimunda Veras Magalhães e Julia Lotufo, mãe e namorada de Adriano, respectivamente, em Astolfo Dutra (MG), cidade da zona da mata mineira.

A prova apresentada pela Promotoria para apontar como razão do encontro a comunicação com Adriano é uma mensagem apreendida no celular de Márcia em que ela relata a Queiroz que também estaria presente a mulher do miliciano.

“A esposa do amigo vai estar com a mãe dele terça-feira [dia 3/12/19]. Aí ela vai falar com o amigo sobre o recado. Depois que ela falar com o amigo, ela vai entrar em contato comigo”, escreveu Márcia. O amigo, para os investigadores, é o miliciano até então foragido Adriano da Nóbrega.

O método de contato com o miliciano foi confirmado pela investigação da Operação Gárgula. Escutas apontam que Adriano exigiu que todos adotassem uma técnica chamada ponto-a-ponto, na qual mantinham aparelhos exclusivos para entrar falar com ele.

Numa troca de mensagens com uma pessoa não identificada, ele orienta como devem se portar pessoas que aparentemente o encontrariam. “Modo avião. Full time”, escreveu Adriano no dia 2 de fevereiro, uma semana antes de ser morto.

Numa outra, o ex-policial militar conversa com a namorada Julia Lotuffo na madrugada do dia 9 de fevereiro de 2020, horas antes de morrer. Na conversa, ele indica saber que alguém deu informações que poderiam levar até ele e afirma que mudaria de esconderijo.

“Vou me deslocar. Deu algum dado relevante???” Nome todo daqui ???? Ele não devia ter ligado pra cá, ne”, escreveu para Julia. “Segue a vida. Normal que acontecesse. [...] Já to no rancho. Fica trank. Segue com Deus. Vai dar certo”, escreveu ele às 1h55 do dia em que seria morto pela manhã.

Os celulares também continham sete fotos de fuzis, registradas em 2019.

Luis Botto Maia (advogado de Flávio Bolsonaro), Raimunda Magalhães (mãe de miliciano Adriano) e Márcia Aguiar (mulher de Queiroz) no interior de Minas Gerais; segundo o MP-RJ, objetivo era contatar miliciano
Luis Botto Maia (advogado de Flávio Bolsonaro), Raimunda Magalhães (mãe de miliciano Adriano) e Márcia Aguiar (mulher de Queiroz) no interior de Minas Gerais; segundo o MP-RJ, objetivo era contatar miliciano - Reprodução

​A família de Adriano afirmou após a morte do ex-PM que suspeitava de “queima de arquivo” na operação. Até o presidente Jair Bolsonaro disse que pediria uma perícia independente para apurar as circunstâncias da morte.

Inquérito da polícia baiana descartou irregularidades na ação e afirmou que o miliciano reagiu à prisão atirando contra os agentes que foram prendê-lo.

O miliciano tem um histórico de relacionamento com os Bolsonaro desde 2003, quando recebeu uma homenagem de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa. Em 2005, enquanto estava preso preventivamente pelo homicídio de um guardador de carros, foi condecorado por Flávio com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio.

Adriano também foi defendido por Jair Bolsonaro, então deputado federal, em discurso na Câmara dos Deputados, em 2005, por ocasião da condenação por homicídio. O ex-capitão seria absolvido depois em novo julgamento.

Em 2007, o miliciano indicou a ex-mulher e a mãe para trabalharem no gabinete de Flávio na Assembleia. Queiroz afirmou que foi o responsável pela nomeação. Segundo o MP-RJ, as duas eram funcionárias fantasmas e foram denunciadas junto com o senador.

De acordo com a quebra de sigilo bancário do caso, anulada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), parte do dinheiro repassado a Queiroz passava inclusive por contas geridas pelo miliciano. A investigação também identificou conversas entre Adriano e sua ex-mulher que indicam que parte do valor recebido por ela beneficiava também o ex-capitão.

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