Descrição de chapéu Folhajus

Escuta telefônica no entorno de miliciano estava suspensa no dia de encontro com ex-assessores de Flávio Bolsonaro

Monitoramento foi interrompido por quase um mês no fim de 2019; data coincide com contato entre família de Queiroz e Adriano

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Rio de Janeiro

Familiares e pessoas ligadas ao miliciano Adriano da Nóbrega estavam com o monitoramento telefônico da polícia interrompido no mesmo período em que houve o encontro com ex-assessores do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), em dezembro de 2019.

Os alvos da Operação Gárgula, que mirou a lavagem de dinheiro e a estrutura de fuga do miliciano, ficaram 28 dias fora das escutas, entre o dia 15 de novembro e 12 de dezembro daquele ano.

Foi neste intervalo que Márcia Aguiar, mulher de Fabrício Queiroz, e Luis Botto Maia, advogado de Flávio, se encontraram com a mãe do miliciano e ex-assessora do senador, Raimunda Veras Magalhães, numa cidade do interior de Minas Gerais.

Os três estiveram juntos nos dias 3 e 4 de dezembro, segundo a investigação sobre o suposto esquema de “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa.

Trocas de mensagens apreendidas no celular de Márcia na investigação da “rachadinha” indicam que o objetivo do encontro era estabelecer contato com Adriano, em fuga sob acusação de comandar uma milícia. Elas também sugerem que Júlia Lotuffo, namorada do miliciano, também participou do encontro.

O método de contato com o miliciano foi confirmado pela investigação da Operação Gárgula. Escutas apontam que Adriano exigiu que todos adotassem uma técnica chamada ponto-a-ponto, na qual mantinham aparelhos exclusivos para falar com ele.

O encontro em Minas Gerais foi uma das razões para a prisão de Queiroz, apontado como operador financeiro da “rachadinha”. A medida foi revogada recentemente.

Os investigadores da Gárgula grampearam dezenas de telefones entre junho de 2019 e fevereiro de 2020 para tentar identificar os celulares que estabeleciam contato com Adriano.

Raimunda teve dois números monitorados. Júlia teve uma série de celulares atribuídos ao seu nome e a pessoas ligadas a ela, a fim de tentar desvendar os seus passos ao encontro do namorado.

O monitoramento no entorno de Júlia foi o que mais deu pistas sobre a movimentação da namorada de Adriano, morto em fevereiro numa operação policial para prendê-lo após um ano de fuga. Em agosto, por exemplo, a polícia conseguiu identificar uma viagem dela para encontrar o ex-capitão da Polícia Militar —sem, contudo, descobrir o local.

As informações foram obtidas a partir de escutas feitas num telefone em nome da sobrinha de Julia usado por uma amiga dela. Nas conversas, ela comentava com um homem parte da rotina da namorada de Adriano.

O intervalo entre a segunda metade de novembro e primeira de dezembro não foi o único período relativamente longo sem monitoramento durante a investigação. Foi, contudo, o maior.

As decisões para interceptações telefônicas têm validade de 15 dias. Por esse motivo, o Ministério Público do Rio de Janeiro sempre solicitava, no início da apuração, a renovação das interceptações um dia antes do fim do prazo.

A apuração começou em maio, quando o MP-RJ obteve a informação sobre sete telefones ligados ao entorno do miliciano à época foragido. A primeira quinzena de interceptações começou em 5 de junho de 2019. A partir delas, novos números possivelmente utilizados para contato com o ex-capitão foram adicionados aos pedidos de monitoramento.

Com o tempo, os pedidos passaram a ocorrer depois do fim da quinzena anterior, iniciando os lapsos entre os períodos de escuta.

O primeiro sem monitoramento ocorreu entre os dias 21 e 29 de julho (9 dias). Em seguida, foram 7 dias entre 14 e 20 de agosto sem interceptações. Outro vácuo significativo ocorreu entre 5 e 29 de setembro (25 dias). Foram depois mais 15 dias sem o instrumento, entre 15 e 29 de outubro.

Após a escuta até 14 de novembro, a própria polícia sugeriu que o telefone de Raimunda não fosse mais monitorado. A razão era que ela realizava poucas chamadas telefônicas, aparentemente privilegiando a comunicação por aplicativos de mensagem de texto e voz.

De fato, as mensagens e ligações entre Raimunda e Márcia obtidas na investigação da “rachadinha” ocorreram por meio de WhatsApp, para o qual não é possível o grampo.

Depois do intervalo entre novembro e dezembro de 28 dias, houve outro de 25 dias entre 28 de dezembro e 21 de janeiro.

Foi na quinzena seguinte, iniciada em 22 de janeiro de 2020, que a polícia realizou a primeira tentativa de prender Adriano, na Costa do Sauípe. Ele conseguiu fugir, no dia 31 daquele mês.

Desta vez, não houve interrupção no monitoramento, tendo ele sido renovado antes do fim do prazo, em 5 de fevereiro.

Adriano foi morto em 9 de fevereiro de 2020 num sítio em Esplanada (170 km de Salvador) numa operação da Polícia Militar da Bahia com a participação de agentes fluminenses. A polícia da Bahia afirma que ele disparou contra os agentes quando foi localizado. Ele estava foragido havia um ano sob acusação de comandar a milícia da favela Rio das Pedras.

O ex-capitão era amigo e foi companheiro de batalhão de Queiroz, apontado como operador financeiro da “rachadinha”. O miliciano teve a ex-mulher e a mãe lotadas no gabinete de Flávio, ambas denunciadas junto com o senador sob acusação de envolvimento no esquema.

O miliciano tem um histórico de relacionamento com os Bolsonaro desde 2003, quando recebeu uma homenagem de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa.

Dois anos depois, enquanto estava preso preventivamente pelo homicídio de um guardador de carros, foi condecorado por Flávio com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio.

Adriano também foi defendido por Jair Bolsonaro, então deputado federal, em discurso na Câmara dos Deputados, em 2005, por ocasião da condenação por homicídio. O ex-capitão seria absolvido depois em novo julgamento.

Em 2007, o miliciano indicou a ex-mulher e a mãe para trabalharem no gabinete de Flávio na Assembleia. Queiroz afirmou que foi o responsável pela nomeação. Segundo o MP-RJ, as duas eram funcionárias fantasmas e foram denunciadas junto com o senador.

De acordo com a quebra de sigilo bancário do caso, anulada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), parte do dinheiro repassado ao ex-assessor de Flávio passava por contas geridas pelo miliciano. A investigação também identificou conversas entre Adriano e sua ex-mulher que indicam que parte do valor recebido por ela beneficiava também o ex-capitão.

A defesa de Queiroz e Márcia não comentou o suposto contato com Adriano. Ela negou o envolvimento do ex-assessor do senador no esquema da “rachadinha”

A defesa de Julia Lotuffo disse, em nota, que nega as acusações contra sua cliente.

“Ela nunca teve qualquer participação em eventuais condutas ilegais que possam ter sido praticadas por seu falecido marido. Ela teme pela sua vida e pela vida de sua filha, razão única pela qual ainda não se entregou”, afirma a nota da defesa da namorada de Adriano.

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