PF confirma troca de chefe que confrontou Salles, e oposição cobra apuração; veja cronologia da crise

Corporação já havia sido alvo de crise na saída de Moro, que deixou ministério acusando tentativa de interferência de Bolsonaro

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Brasília

O diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Gustavo Maiurino, vai trocar o chefe do órgão no Amazonas, Alexandre Saraiva.

A decisão foi revelada nesta quinta-feira (15) pelo Painel, da Folha, e confirmada no início da noite pela assessoria de imprensa da corporação, que passou por troca recente de comando no governo Jair Bolsonaro.

A mudança ocorre em meio a um atrito entre Saraiva e o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) por causa da maior apreensão de madeira do Brasil, como mostrou a Folha nos últimos dias.

Na noite de quarta-feira (14), o delegado enviou uma notícia-crime ao Supremo Tribunal Federal pedindo que o ministro fosse investigado sob suspeita de advocacia administrativa e de atrapalhar a fiscalização ambiental.

Oito líderes de oposição a Bolsonaro na Câmara dos Deputados enviaram representação ao Ministério Público Federal pedindo apuração sobre a demissão de Saraiva.

Há dez dias no cargo, o novo diretor-geral imediatamente deu início a uma série de mudanças no órgão.

Como revelou o Painel, além do Amazonas, Maiurino promoveu trocas de chefia em São Paulo, na Bahia, em Santa Catarina e em Roraima (que estava sem ninguém no posto desde o começo do ano).

Maiurino também mexeu em setor sensível da polícia, o de combate à corrupção. O novo diretor da área, Luiz Flávio Zampronha, mudou o coordenador-geral e o chefe do grupo responsável por investigações de políticos com foro especial.

Algumas das trocas causaram surpresa e têm gerado críticas internas. Integrantes da cúpula têm defendido o diretor-geral com o argumento de que ele precisa ter pessoas de confiança ao lado.

O conflito entre Alexandre Saraiva e o ministro do Meio Ambiente começou após uma visita de Salles ao local da apreensão, no Pará, para uma espécie de verificação da operação.

Saraiva criticou a atitude, dizendo ser a primeira vez que viu um titular da pasta se posicionar contra ação de preservação da floresta amazônica.

“Na Polícia Federal não vai passar boiada”, disse Saraiva à Folha, usando termo utilizado por Salles em reunião ministerial do ano passado.

O delegado afirmou que tudo que foi apreendido desde dezembro do ano passado, mais de 200 mil metros cúbicos de madeira, é produto de ação criminosa.

Há mais de dez anos ocupando cargos de superintendente na PF (Roraima, Maranhão e Amazonas, agora), Saraiva declarou que as investigadas na ação não podem nem ser chamadas de empresas. “Trata-se de uma organização criminosa.”

O ministro apontou falhas na apreensão e defende que os madeireiros tenham oportunidade de se manifestar. À Folha disse que uma "demonização" indevida do setor vai contribuir para aumentar o desmatamento ilegal.

A PF disse em nota que a decisão foi comunicada a Saraiva na tarde desta quarta-feira (14), portanto, antes de o documento de pedido de apuração da conduta do ministro ser enviado ao Supremo.

O delegado afirmou ao Painel, porém, que soube da notícia pela imprensa e que o diretor-geral não o telefonou em nenhum momento para tratar do assunto.

Saraiva relatou ter sido procurado por um integrante da nova cúpula que falou informalmente sobre a possibilidade de ele assumir um posto no exterior, mas que não teria dito nem quando nem onde.

Na entrevista, ele também fez uma provocação indireta ao novo diretor.

"Eu sou um soldado, cumpro missão. Nunca pedi pra ser chefe de nada. Nunca neguei missão na PF e nunca tive missão fácil. E toda minha carreira, quero deixar isso claro, toda minha carreira foi totalmente dentro da Polícia Federal. Nunca fui cedido a órgão nenhum", disse o delegado.

Chefe da PF no Amazonas, Alexandre Saraiva, que será substituído no comando da corporação no estado - Reproducao / TV Globo

Maiurino ficou fora da Polícia Federal nos últimos anos ocupando cargos políticos em estados e depois no STF e no STJ.

O delegado Leandro Almada foi o escolhido para assumir o Amazonas. O policial foi o número 2 da gestão de Saraiva e comandou o grupo de investigações ambientais na superintendência.

Quarto diretor-geral nomeado desde o início do mandato de Jair Bolsonaro, Paulo Gustavo Maiurino chega sob a desconfiança deixada ainda na saída de Sergio Moro.

O ex-ministro saiu atirando contra o governo e acusando uma tentativa de interferência do presidente da República na Polícia Federal, que tem investigações no entorno de aliados e familiares de Bolsonaro.

As acusações deram origem a uma investigação contra Bolsonaro. O inquérito até hoje não foi finalizado e aguarda decisão do Supremo sobre como poderá ser o depoimento do presidente, se por escrito ou pessoalmente.

Além do Amazonas, outra mudança que gerou polêmica foi a de São Paulo.

A escolha do novo chefe da Polícia Federal de São Paulo fugiu de um padrão que vinha sendo respeitado dentro do órgão nos últimos anos. Diferentemente dos cinco antecessores, o delegado Rodrigo Bartolamei não chegou a ocupar cargos relevantes de chefia na PF antes de ser alçado a um dos maiores postos da instituição.

A superintendência de SP é a maior do Brasil. Bartolamei estava lotado atualmente no GSI (Gabinete de Segurança Institucional), levado pelo ministro Augusto Heleno.

A Polícia Federal de São Paulo estava com novo comando desde março. Ou seja, será a segunda troca em menos de um mês.

Bartolamei foi chefe da Interpol e atuou como coordenador de segurança dos Jogos Olímpicos do Rio. Nunca foi superintendente de nenhum outro local, nem ocupou cargos nas cúpulas das superintendências ou de coordenação na sede, como seus antecessores.​


Cronologia da disputa entre PF e ministro

Operação

Em dezembro de 2020, a Polícia Federal realizou uma ação na divisa do Pará com o Amazonas que culminou na maior apreensão de madeira nativa da história do Brasil. Agentes retiveram 131,1 mil m3 de toras, volume suficiente para a construção de 2.620 casas populares.

A operação começou após a apreensão de uma balsa com 3.000 m3 de madeira com documentação irregular no rio Mamuru, município de Parintins (AM), em 16 de novembro de 2020.

A madeira

O processo de transporte da madeira apreendida é complexo. Por isso, as Forças Armadas faziam a segurança do material. Entretanto, em um ofício enviado à PF no dia 19 de fevereiro, o chefe do Estado-Maior do Comando Conjunto Norte do Exército informou que os militares deixariam os locais nos quais a madeira apreendida está guardada para retornar às suas sedes.

Em resposta ao Exército, a PF ameaçou abrir inquérito contra militares que se retirassem da operação. Na época, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que as tropas iriam deixar o local no dia 6 de março. Ele afirmou ao Painel que a PF errou por ter feito um documento em que ameaçava abrir inquérito contra os militares que se retirassem do local.

Visitas do ministro

Ricardo Salles (Meio Ambiente) foi na quarta-feira, 31 de março, ao Pará, onde fez uma espécie de verificação da operação. Salles aponta falhas na ação e tem dito que há elementos para achar que as empresas investigadas estão com a razão. Ele voltou uma semana depois, quando participou de um encontro com proprietários do material.

O ministro criticou a demora para a investigação ser concluída e afirmou que as informações dos empresários são “coerentes de não haver a propagada ilegalidade.”

Atrito entre PF e Salles

Em entrevista à Folha, o chefe da PF do Amazonas, Alexandre Saraiva, disse que é a primeira vez que vê um ministro do Meio Ambiente se manifestar de maneira contrária a uma ação que visa proteger a floresta amazônica.

Saraiva declarou que tudo que foi apreendido desde dezembro do ano passado, mais de 200 mil metros cúbicos de madeira, é produto de ação criminosa. Ele afirmou também que as empresas até agora não apresentaram documentos requisitados pela PF.

Saraiva, encaminhou ao Supremo Tribunal Federal uma notícia-crime em que pede investigação das condutas de Salles e do senador Telmário Mota (Pros-RR) por atrapalhar medidas de fiscalização. No documento, o policial diz que Salles dificulta fiscalização ambiental e patrocina interesses privados.

“Na Polícia Federal não vai passar boiada”, disse, usando termo utilizado por Salles em reunião ministerial do ano passado.

Troca no comando da PF

Nesta quinta-feira (15), o Painel revelou que o diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Maiurino, decidiu tirar Alexandre Saraiva do cargo. Ele escolheu o delegado Leandro Almada para substituí-lo. O policial foi o número 2 da gestão de Saraiva e comandou o grupo de investigações ambientais na superintendência.

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