Bolsonaro teve postura deliberada de sabotar Ministério da Saúde, diz senador da CPI da Covid

Para Humberto Costa (PT), depoimentos reforçam indícios de que governo buscou imunidade de rebanho

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Brasília

Após a primeira semana de depoimentos na CPI da Covid, o senador Humberto Costa (PT-PE), membro titular da comissão, afirmou que foram reforçados os indícios de que o governo Jair Bolsonaro deixou de atuar para combater o coronavírus, de forma a atingir a imunidade de rebanho.

"Mandetta corroborou muito claramente com a ideia de uma tese de construção de uma imunidade natural no Brasil, pelas conversas que teve com Bolsonaro", disse Costa em entrevista à Folha.

"Havia, sim, uma postura deliberada de sabotar essas medidas que eram tomadas pelo Ministério da Saúde, numa linha de deixar a disseminação do vírus", afirmou o petista.

O senador também disse que um dos focos da CPI deve ser a atuação dos filhos de Bolsonaro, em um grupo de aconselhamento paralelo ao presidente nas questões de saúde, que ele descreveu como "gabinete das trevas".

O senador Humberto Costa (PT-PE), membro da CPI da Covid no Senado
O senador Humberto Costa (PT-PE), membro da CPI da Covid no Senado - Kleyton Amorim - 13.nov.19/UOL

Qual avaliação o sr. faz dos depoimentos desta semana? Foram muito bons, principalmente o do [Nelson] Teich e o do [Luiz Henrique] Mandetta. Mandetta trouxe sete temas interessantes para você investigar.

O primeiro foi esse da existência de uma espécie de "gabinete das trevas", um assessoramento paralelo em relação à pandemia. Pelo que Mandetta disse, o presidente inicialmente concordava com o que ele decidia, mas depois vinha com outra história.

Mandetta foi chamado várias vezes para reuniões que o presidente fazia da área da saúde para discutir temas da questão da cloroquina.

Em mais de uma reunião, estava lá o Carlucho [vereador Carlos Bolsonaro], num momento em que ele era considerado um mentor das ações nas redes sociais do Bolsonaro. Chegou a um ponto de ele comandar as ações do pai nas redes.

Mandetta trouxe também [em sua fala] o outro filho, o Eduardo [Bolsonaro, deputado federal], que, imbuído dessa intenção de ser o entendido em política internacional, criou muitos problemas para o governo no relacionamento com a China.

Quais os outros pontos? Em terceiro lugar, ele corroborou muito claramente com a ideia de uma tese de construção de uma imunidade natural no Brasil, pelas conversas que teve com Bolsonaro.

Havia, sim, uma postura deliberada de sabotar essas medidas que eram tomadas pelo Ministério da Saúde, numa linha de deixar a disseminação do vírus, para atingir 70% da população para levar a uma imunidade natural.

E o quarto ponto importante diz respeito a essa tentativa de impor determinadas ações terapêuticas, especialmente o uso da cloroquina.

O quinto é recomendar o uso passando por fora do Ministério da Saúde. Mandetta revelou que o governo encaminhou recursos para o Exército produzir cloroquina e sem passar pela Saúde. Teich reforçou essa ideia em relação à cloroquina.

O sexto ponto é a parte da comunicação. Mandetta disse que elaborou um programa de comunicação e na hora que foi conversar com o secretário de Comunicação, ele disse que estavam preparando uma campanha com artistas.

Por fim, não deixaram Mandetta fazer uma campanha de "use máscara, fique em casa, lave as mãos".

O sétimo ponto é o Ernesto [Araújo, ex-chanceler], que ele citou como obstáculo para fazer a política de enfrentamento avançar.

[O ministro Marcelo] Queiroga deu algumas coisas que precisam ser investigadas, como, por exemplo, um número elevado de recurso para as redes sociais em detrimento de outros meios de comunicação.

Não sei até que ponto tem dinheiro aí para alimentar aqueles blogs ou para mandar fake news sobre a cloroquina. Eles jogaram forte na comunicação para convencer as pessoas sobre tratamento precoce.

Em relação ao gabinete paralelo, os senhores vão convocar Carlos Bolsonaro e o Eduardo? A minha intenção é de chamar. Carlos, porque a política de comunicação do governo passava por ele. Dizia-se que ele era o responsável pelas redes sociais pessoais do presidente, que era espaço de propagação permanente de fake news e ideias negacionistas.

É preciso saber por que ele participava de reuniões e que importância tinha na definição da política do governo para enfrentar a pandemia.

Eu e Randolfe [Rodrigues, senador pela Rede-AP] já preparamos um ofício pedindo a convocação do Carlos e eu vou fazer um para convocar o Eduardo.

Com relação ao Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação, o sr. avalia que houve organização do governo para difundir tratamento precoce por meio das políticas de comunicação? Os senhores devem pedir quebra de sigilo bancário e telefônico e investigar isso a fundo? Eu acredito que é uma boa medida. Vamos ouvir o que ele vai dizer. Acho que ele tem duas coisas importantes para tratar.

Primeiro diz respeito à entrevista à revista Veja [na qual ele disse que o contrato com a Pfizer não foi feito por incompetência do então ministro Eduardo Pazuello]. Ele pode ter muitos elementos que incriminam mais o Pazuello.

Por outro lado, tem uma coisa nebulosa. O que o secretário de Comunicação do governo tem a ver com a negociação de contratos bilionários para compra de vacinas?

O Ministério da Saúde tem expertise de muito tempo em realização de contratos, compras internacionais. Se houve algum interesse nisso ou se ele teve de fazer isso porque no Ministério da Saúde não fizeram são coisas graves.

A outra coisa é: por que o governo não teve política de comunicação na pandemia? Isso casa com a tese de [que o governo propagou a] imunização de rebanho na pandemia.

O sr. registrou esses fatos dos depoimentos, são muitos elementos que ajudam a construir o relatório para chegar a uma conclusão, mas o sr. viu provas que mostrariam crime de responsabilidade? Vamos ter de usar tudo o que aconteceu. Bolsonaro falou mais de 200 vezes sobre isolamento social, uso de máscara. São mais do que evidências, assim como as medidas.

Nós vamos nos apropriar dessa pesquisa feita pelo pessoal da Conectas e da Faculdade de Saúde Pública da USP, em que estabeleceram uma tese que avaliaram mais de 3.000 decisões do governo Bolsonaro, jurídicas e administrativas, [que colaboraram para mortes na pandemia], ali podem existir indícios ou evidências de que o governo atuou nessa linha.

Mas viu provas nos depoimentos? Depende do que você chama de prova.

A carta do Mandetta. É uma prova de que o presidente não seguiu as orientações dadas pelas autoridades sanitárias, que foi avisado de que a continuidade dessa política levaria a um número altíssimo de mortes.

É possível que a gente encontre documentos para as determinações da política de distribuição de cloroquina. A gente está com uma hipótese e vamos testar o tempo inteiro.

O sr. apoia a ideia de o relator fazer um relatório parcial, em vez de esperar todos os depoimentos? Acho uma boa ideia. A CPI é um instrumento de investigação, mas acima de tudo instrumento de fiscalização do Poder Executivo. Ela não deve se debruçar só sobre o passado, mas o que está acontecendo hoje.

Então, se a gente puder intervir, nas coisas que continuam a ser feitas de maneira errada, é bom.

Acho importante, dentro de pouco tempo, fazer um relatório parcial, que poderia pegar um pouco da avaliação do que está sendo feito agora e apresentar sugestões e apertar o governo para ele cumprir o que é a sua responsabilidade.

Nesses últimos dias tivemos a notícia de que a Abin [Agência Brasileira de Inteligência] disparou mensagens, do ministro Anderson Torres, que pediu investigações contra estados. É tentativa de intimidação ou de tirar o foco e atrapalhar os trabalhos da CPI? São as duas coisas. A tentativa de intimidação é muito clara. Na CPI é um clima de intimidação permanente por essa coisa das redes sociais.

E tanto a afirmação do ministro da Justiça e da Abin se insere no mesmo desenho. Intimidar e ao mesmo tempo tumultuar. Porque não vamos poder deixar isso sem resposta.

O Executivo quer interferir na autonomia do Legislativo usando o poder policial do Estado? É inaceitável.

Em relação a Mandetta, que fez todas essas acusações, a CPI viu indícios de que ele possa ser responsabilizado? Tenho muitas críticas, mas você não tem como numa CPI destruir ou enfrentar 200 adversários.

É óbvio que Mandetta errou. Poderia ter comprado testes e EPIs nos dois meses entre a crise na Itália e a doença se estabelecendo no Brasil. Desmobilizou o Mais Médicos. Mas são questões de gestão, podemos negar a capacidade de planejamento, mas ele não foi negacionista.

Acredita que a CPI vai de fato apontar culpado e que também pode contribuir para evitar mais mortes durante a pandemia? Eu espero que sim. Como eu falei, a CPI, ela é também um instrumento de fiscalização do Poder Executivo e de outros Poderes. Então, acho que ela pode pela pressão que ela representa obrigar o Bolsonaro a fazer o que precisa ser feito.

Raio-X

Humberto Costa, 63
​Médico e jornalista, exerce mandato de senador desde 2011, pelo estado de Pernambuco. Foi antes deputado federal e estadual, além de ministro da Saúde durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva. É filiado há 40 anos ao PT

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