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Coronavírus CPI da Covid

General Pazuello dispensa farda, mas demonstra fidelidade militar a Bolsonaro

Ex-ministro cumpre missão de proteger presidente e mostra como é difícil furar retranca em CPIs

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São Paulo

O general Eduardo Pazuello não chegou a vestir farda, mas comportou-se como um militar disciplinado e cioso da hierarquia no seu depoimento à CPI da Covid.

Desde a primeira fala, em que se referiu a Jair Bolsonaro como comandante das Forças Armadas, o ex-ministro da Saúde deixou claro que estava ali para cumprir uma missão.

No caso, a de proteger a todo custo o presidente, mesmo que tenha ocasionalmente recorrido a mentiras, omissões, distorções ou afirmações apenas ridículas.

O general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, durante depoimento à CPI da Covid, no Senado - Jefferson Rudy/Agência Senado

Bem treinado, dosando momentos de humildade e aspereza, Pazuello acabou não sendo o desastre que o governo temia.

Seu desempenho mostra que um depoente fechado em copas pode ser impenetrável como uma bem montada retranca de time visitante em uma partida de futebol. Ainda mais quando os atacantes, liderados pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL), estavam em uma jornada pouco inspirada.

Desta vez, ao contrário dos meses em que passou na Saúde, o histórico militar serviu bem a Pazuello.

Disciplinado, deixou senadores boquiabertos ao dizer sem constrangimentos que jamais foi desautorizado por Bolsonaro nas negociações com o Instituto Butantan para compra da Coronavac.

Criou para isso uma nova figura política, a “posição de internet”, que aparentemente não deve ser levada a sério, mesmo que venha do presidente da República, e que ele se chame Jair Bolsonaro.

Por este raciocínio, nunca existiram as tuitadas de Bolsonaro que causam crises com outros Poderes, revelam arroubos autoritários e de vez em quando até anunciam iniciativas de governo.

Em ordem unida, Pazuello arrumou explicações que nem Bolsonaro em suas lives mais inspiradas imaginaria. Justificou as aglomerações presidenciais como “iniciativas psicossociais”, de um chefe de Estado que tem “outras visões” além de evitar a difusão do vírus e a preservação de vidas.

Batendo continência, minimizou a existência de um Ministério da Saúde paralelo influenciando o presidente, ao dizer que é mais do que natural que Bolsonaro ouça vozes externas, mesmo que de pessoas que poderiam ser classificadas apenas como amadoras ou oportunistas.

A devoção de Pazuello ao chefe militar, por acaso também presidente da República, ficou ainda mais evidente se comparada ao tratamento dado a outras pessoas que não estão em sua cadeia de comando.

Nesses casos, não hesitou em cotovelar para o lado ao contradizer o ex-chanceler Ernesto Araújo, que na véspera, em seu próprio depoimento à CPI, havia imputado ao Ministério da Saúde a responsabilidade maior por todas as ações de combate à Covid. O governo é como uma orquestra, respondeu o general, chamando Ernesto ao seu naco de responsabilidade.

Também não se furtou a dizer que o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, que o acusou de ineficiência na negociação para a compra da vacina da Pfizer, “não tinha todos os dados para fazer uma análise”.

Quando olhou para baixo na cadeia de comando, Pazuello foi ainda mais desenvolto. Por mais de uma vez jogou às feras sua ex-secretária Mayra Pinheiro, “a capitã cloroquina”, atribuindo a ela a iniciativa de criação de um aplicativo que receitava o chamado “tratamento precoce” até para bebês e participação na crise do oxigênio de Manaus. Forneceu amplo material para os senadores, que devem tomar o depoimento dela na semana que vem.

Em determinados momentos, Pazuello fez as vezes de militar durão que não se intimida com o inimigo, quando bateu de frente com Renan e ignorou suas inúmeras “perguntas objetivas”, falando o que bem quisesse.

Em outros, preferiu a humildade civil, como ao admitir que tomou cloroquina quando contraiu o coronavírus. “Tomaria água benta. Sou um ser humano. A gente se agarra em qualquer coisa”, disse.

A mudança frequente de tom parece ter desnorteado a CPI, e Pazuello não passou nem perto do aperto que outros depoentes sofreram.

Os hábitos da caserna o traíram uma única vez, quando usou o jargão “missão cumprida” para responder por que foi tirado do ministério. Lembrou a faixa atrás do presidente dos EUA George W. Bush num porta-aviões em 2003, em discurso anunciando o “fim” da Guerra do Iraque.

Mas a verdadeira missão cumprida foi mesmo a de proteger Bolsonaro, e nisso o ex-ministro saiu-se razoavelmente bem. Ainda que possa ser pego em algumas contradições, como a circunstância exata em que soube dos problemas na capital amazonense, parece ter sido um preço pequeno a pagar em nome da preservação do ex-chefe.

Pazuello, é bom lembrar, é general da ativa, em busca de uma nova posição no governo. Seu depoimento mostra que o famoso vídeo de outubro de 2020, em que ele diz, ao lado de Bolsonaro, que “um manda e o outro obedece”, ainda está valendo.

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