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CPI da Covid congresso nacional

Queiroga sai menor de CPI após fugir de respostas e tentar preservar Bolsonaro

Evasivo sobre cloroquina, ministro 'esquece' que já se posicionou contra o medicamento e repete em comissão sinais 'duplos' que tem dado em discursos

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Brasília

Não se pode dizer que ele não avisou. Interrogado na CPI da Covid nesta quinta-feira (6), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, seguiu a cartilha que já assumia desde que foi confirmado no cargo, quando disse que “a política é do governo Bolsonaro”, e não do titular da pasta que deveria ser a principal responsável por um plano de enfrentamento à pandemia.

Visivelmente incomodado ao início da sessão, o ministro tentou fugir o quanto pôde de perguntas que pudessem comprometer o presidente Jair Bolsonaro ou o seu antecessor na Saúde, o general Eduardo Pazuello. Aparentemente, saiu menor do que entrou.

Chegou a repetir, ao menos 14 vezes, que não poderia fazer "juízo de valor" a respeito de temas que envolviam os dois.

​As respostas evasivas e o investimento em um malabarismo retórico, no entanto, acabaram por esbarrar em declarações anteriores do próprio Queiroga e na confirmação, como ministro, de dificuldades enfrentadas na Saúde –as quais, inegavelmente, estão atreladas a omissões anteriores do governo.

Um exemplo disso é a baixa oferta de vacinas contra a Covid nestes primeiros meses da campanha de vacinação. Inicialmente, Queiroga evitou comentar se avaliava que houve atrasos do governo para fechar contratos que garantiriam doses à população.

Ao ser questionado sobre o que era necessário para acelerar a estratégia, no entanto, foi taxativo: “Mais doses, e um ativismo maior do nosso governo”, completou, minimizando o ato falho em seguida: “O que tem ocorrido, sob a liderança do ministro Carlos França [Relações Exteriores]".

Ainda que não tenha dito de forma direta, Queiroga acabou por dar pistas dos problemas gerados pela inércia do ex-chefe do Itamaraty Ernesto Araújo nos últimos meses, o qual evitava contatos com a China, um dos países-chave em negociações sobre insumos de vacinas.

CONVOCADOS NA CPI DA COVID

  • Antonio Barra Torres, da Anvisa (terça-feira, 11.05)

  • Fabio Wajngarten (quarta-feira, 12.05)

  • Ernesto Araújo (quinta-feira, 13.05)

  • Presidente da Pfizer no Brasil (quinta-feira, 13.05)

  • ​General Eduardo Pazuello (quarta-feira, 19.05)

A tentativa de defender o governo rendeu espaço também para contradições. Na principal delas, o ministro tentou fugir de questões sobre sua posição em relação à cloroquina, evitando bater de frente com a defesa feita por Bolsonaro do medicamento sem eficácia contra a Covid.

Enquanto se equilibrava em discurso que citava "divisão na classe médica" como argumento para não se contrapor rapidamente à oferta do remédio, Queiroga esqueceu de declarações que ele mesmo deu antes de assumir cargo, uma delas à própria Folha, em que dizia ser contrário ao uso da cloroquina.

“A própria Sociedade Brasileira de Cardiologia não recomendou o uso dela nos pacientes, e nem eu sou favorável porque não há consenso na comunidade científica”, disse à época.

Já nesta quinta, a posição foi substituída por frases que diziam que, “a despeito de haver essa propriedade de causar arritmias, são medicamentos seguros, usados há muito tempo”, argumento que vem sendo repetido pelo governo e contraposto por relatos de médicos e pacientes sobre efeitos adversos graves.

Tamanha dubiedade irritou senadores na CPI, mas já era prevista. Em entrevista recente à Folha, por exemplo, o ministro chegou a dizer que tinha o dever de persuadir Bolsonaro sobre as "melhores práticas" em relação à Covid. E que, se falhasse, a culpa era dele, e não do presidente.

A CPI EM CINCO PONTOS

  • Foi criada após determinação do Supremo ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG)

  • Investigará ações e omissões de Bolsonaro na pandemia e repasses federais a estados e municípios

  • Terá um prazo inicial (prorrogável) de 90 dias para realizar procedimentos de investigação

  • Relatório final será encaminhado ao Ministério Público para eventuais criminalizações

  • É formada por 11 integrantes, com minoria de senadores governistas

De uma forma ou outra, o tom de minimizar a responsabilidade do chefe foi seguido ao longo do depoimento. Neste sentido, vale citar que a busca do ministro por defender o governo chegou a esbarrar, ainda, em informações incompletas ou até mesmo falsas.

Na tentativa de rebater críticas sobre a falta de vacinas, por exemplo, evitou citar problemas em contratos, como a demora do governo em assinar acordo com a Pfizer, e culpou por diversas vezes o atraso nas doses do consórcio Covax Facility, citando que entregas da iniciativa ligada à OMS estavam previstas para iniciar em janeiro.

O consórcio, porém, previa doses para apenas 10% da população, o que já mostra que, embora importante, não era o ponto principal do problema. Também estava previsto para começar em março, e não em janeiro, como diz o ministro.

Mais tarde, para defender o avanço na vacinação, Queiroga afirmou que o país tem 17% da população já imunizada com duas doses –dados do consórcio de imprensa, no entanto, mostram que são 10,5%.

Ainda que fosse o oposto, trata-se de um percentual baixo para um país reconhecido por ter, há anos, um dos maiores programas de imunizações.

Na prática, enquanto administra esses gargalos, Queiroga repetiu na comissão parte do discurso que tem marcado seus primeiros 45 dias de gestão, com falas e ações que apontam sinais duplos, na busca por manter o histórico como médico e não contrapor Bolsonaro.

Desde que assumiu, por exemplo, o ministro repete que recebeu autonomia do presidente, que montará sua própria equipe técnica e que tomará decisões com base em evidências científicas.

Ao mesmo tempo, porém, embora tenha alterado parte da equipe, o ministro mantém na pasta secretários que responderam pela defesa da cloroquina na última gestão, na contramão dessas evidências, como a “capitã cloroquina”, Mayra Pinheiro.

As respostas desta quinta também mostram que o discurso sobre autonomia é limitado, já que Queiroga aceitou silenciar sobre suas próprias posições anteriores para preservar o chefe.

No cargo, o ministro tem defendido o uso de máscaras e o distanciamento social, ao mesmo tempo em que retomou negociações por mais contratos de vacinas.

Medidas como essas, porém, tendem a ter pouco efeito caso a Saúde continue a ser atropelada por falas e ações do presidente, que continua a ameaçar tomar decisões que incidem na área por conta própria, enquanto o país vê crescer o número de mortes pela Covid.

Em um exemplo recente, Bolsonaro já reafirmou que poderia fazer um decreto contra medidas de isolamento e restrição ao comércio. Questionado por senadores, o ministro disse que não foi consultado sobre a medida.

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