Live de Bolsonaro com mentiras sobre urnas teve especialista misterioso e gabinete do ódio no bastidor

Imprensa acompanhou transmissão em que presidente trouxe teorias já desmentidas sem poder fazer perguntas

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Brasília

Quando o presidente Jair Bolsonaro entrou na biblioteca do Palácio da Alvorada minutos antes das 19h, nesta quinta-feira (29), jornalistas que aguardavam do outro lado do recinto começaram a cochichar entre si.

"Você sabe quem é a pessoa com ele?", perguntou um repórter. "Não." "Conhece esse homem que vai participar da live?", disse outro. "Nunca vi.”

Jair Bolsonaro sentado com homem de gravata amarela
O especialista apresentado apenas como "Eduardo, analista de inteligência" na transmissão ao vivo do presidente Jair Bolsonaro na quinta-feira (29) - Reprodução

Naquele momento, já estavam na sala diversos auxiliares do presidente, incluindo ministros e integrantes do chamado "gabinete do ódio", entre eles Tercio Arnaud Tomaz.

A curiosidade pela identidade do parceiro de live de Bolsonaro se justificava. Afinal, o presidente passara o mês de julho prometendo apresentar as supostas provas de que as eleições no Brasil foram fraudadas.

O presidente também havia dito que usaria informações de especialistas, que, segundo ele, demonstrariam de forma contundente as vulnerabilidades do sistema de voto eletrônico.

"Eu vou comprovar na semana que vem que Aécio Neves ganhou as eleições em 2014", afirmou o mandatário em 20 de julho, durante uma entrevista.

Como?

"O hacker meu aqui, com gente que entende de informática. Hacker do bem, pessoal que entende de informática e mostrando", prosseguiu, na mesma entrevista.

Seria aquele senhor de aspecto sério e gravata amarela —que os repórteres presentes no Alvorada não conheciam— o "hacker do bem" citado por Bolsonaro?

O presidente não pareceu preocupado em dar muitos detalhes sobre a identidade de seu auxiliar.

"Boa noite a todos. A meu lado aqui o Eduardo, analista de inteligência, que vai nos ajudar na apresentação de muitos indícios", disse Bolsonaro, dando início à live.

A realização de uma transmissão oficial do presidente da República em que um dos expositores não tinha sobrenome ou local de trabalho não foi o único aspecto pouco usual na noite de quinta.

Para começar, a própria presença da imprensa —alvo preferencial da fúria bolsonarista— como plateia na transmissão do Alvorada foi algo inédito.

As lives semanais do presidente ocorrem desde o início do mandato e, até a última edição, nunca tinham sido acompanhadas por repórteres.

A Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) da Presidência da República disparou a convocatória para os jornalistas ainda na manhã de quinta.

O texto enviado já era fora da praxe de avisos de pauta semelhantes, ao condicionar o acesso dos profissionais à transmissão da live ao vivo. A Folha não retransmitiu.

Havia ainda uma determinação em negrito: "O evento será expositivo e não haverá espaço para perguntas".

Às 18h20, os profissionais de imprensa já tinham passado pela triagem de segurança do Alvorada e estavam posicionados na frente da residência oficial.

Na oportunidade, um funcionário da Secom reforçou que não seriam permitidas perguntas e que qualquer interação deveria partir do presidente.

O trajeto feito em fila pareceu ter sido escolhido para que os repórteres tivessem o menor contato possível com as dependências do palácio. Entrada pelo subsolo e um lance de escadas que já deixou a poucos metros da biblioteca.

De acordo com portal da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, a biblioteca do Alvorada conta com mais de 3.400 exemplares, com títulos variados das áreas de filosofia, literatura, arte e história.

O espaço de leitura, no entanto, converte-se em estúdio para as lives semanais do presidente, com equipamentos usados para transmissões digitais também ocupando uma sala contígua.

Comparecer ao Alvorada também permitiu ver como auxiliares atuam no bastidor das lives de Bolsonaro. No enquadramento da tela, o presidente costuma interagir com poucos convidados a cada transmissão, mas a estrutura por trás da câmera envolve diversos assessores.

Antes da chegada do presidente, já circulavam pela biblioteca os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral da Presidência), Anderson Torres (Justiça) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), além do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ). O congressista filmou a fala de seu pai do próprio aparelho celular.

Também acompanhava os preparativos o assessor especial Tercio Arnaud Tomaz, integrante do "gabinete do ódio" e considerado o principal preposto do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) na equipe do presidente. O chamado "gabinete do ódio" é responsável por parte da estratégia digital bolsonarista.

Integrantes do bunker ideológico são investigados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por envolvimento com perfis de apoio a Bolsonaro nas redes sociais que estimularam os atos antidemocráticos em 2020.

Pouco antes da chegada de Bolsonaro, novamente a orientação de assessor da Presidência: não haveria questionamentos.

Mas foi o próprio Bolsonaro que ajudou os repórteres a contornarem as regras da Secom. Enquanto a transmissão ainda não havia começado, disse que responderia a uma pergunta —que acabou sendo sobre a reformulação do Bolsa Família.

Foram cerca de duas horas de live, em que Bolsonaro e Eduardo trouxeram teorias que circulam há anos na internet e que já foram desmentidas anteriormente.

Durante toda a transmissão, Eduardo continuou sem sobrenome ou local de trabalho conhecidos.

O mistério sobre identidade do homem escalado para revelar os indícios de fraude das urnas eletrônicas só foi solucionado quando Bolsonaro encerrou a transmissão, em uma confusa troca de perguntas e respostas com os profissionais de imprensa.

"O Eduardo pode falar um pouco sobre o seu currículo?", questionou um jornalista.

"Ele é coronel da reserva do Exército, é formado em inteligência...", disse o presidente, que antes de continuar precisou indagar Eduardo. "Analista de inteligência dentro e fora do Brasil. A pessoa que viria fazer a manifestação aqui demonstrou muita preocupação pela sua exposição. [Ele] É um civil e resolveu então passar as informações para o Eduardo de forma que ele explanasse aqui", disse.

"E o senhor Eduardo trabalha onde?", insistiu outro repórter. "Está onde? Está na Secom? Está na Secom", respondeu Bolsonaro.

Posteriormente, o governo informou que Eduardo Gomes é assessor da Casa Civil, tendo sido nomeado por Ramos, atual ministro da Secretaria-Geral e amigo de longa data de Bolsonaro.

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