Preso por ordem da CPI, ex-diretor acumulou contradições e lacunas em depoimento; entenda

Roberto Dias afirma que não tinha como função negociar vacinas, mas reconhece que procurou representante de empresa por mensagem de celular

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Brasília

Em depoimento à CPI da Covid nesta quarta-feira (7), o ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias deixou lacunas e contradições sobre a sua participação nas conversas com intermediários da Davati Medical Supply, empresa que prometia a venda de 400 milhões de doses da AstraZeneca, mas não era sequer credenciada pela farmacêutica.

Ele confirmou a ocorrência de jantar em Brasília, revelado pela Folha, com o policial Luiz Paulo Dominghetti Pereira, mas negou ter pedido propina de US$ 1 por dose, e disse que o encontro ocorreu por acaso, o que provocou a irritação dos senadores.

Dias também jogou sobre a Secretaria-Executiva da Saúde, área dominada por militares na gestão de Eduardo Pazuello, a responsabilidade por negociações das vacinas, mas reconheceu que trocou mensagens por WhatsApp e email com intermediários da empresa.

Veja, a seguir, contradições e lacunas no depoimento de Dias, levado preso pela Polícia do Senado após ordem do presidente da CPI, senado Omar Aziz (PSD-AM).

O ex-diretor de logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias, durante depoimento à CPI da Covid-19 - Pedro Ladeira/Folhapress

LACUNAS NO DEPOIMENTO DE DIAS

  • Jantar e propina
    O ex-diretor da Saúde confirmou que ocorreu um jantar em um restaurante de Brasília no dia 25 de fevereiro com o policial militar que prometia a venda de 400 milhões de vacinas, mas disse que não o conhecia, e que o encontro ocorreu por acaso. Dias negou ter pedido propina neste dia. Ele reconheceu, porém, que o seu ex-assessor e coronel da reserva Marcelo Blanco, que acompanhava Dominghetti no jantar, sabia que ele estava no restaurante.
  • Áudio
    Em mensagem por áudio veiculada durante a sessão da CPI, obtida do celular de Dominghetti, que foi apreendido, o PM afirma a um interlocutor que teria uma reunião com Dias no dia 25 de fevereiro, o dia do jantar no restaurante de Brasília. O ex-dirigente da Saúde manteve a afirmação de que não marcou encontro com o PM de Minas e que o encontro foi casual.
  • Negociação paralela
    Apesar de afirmar que não tinha a função de negociar vacinas, responsabilidade atribuída por ele à Secretaria-Executiva da Saúde, área dominada por militares, Dias reconhece que conversou até por WhatsApp com um representante da Davati dias antes do jantar. A Folha mostrou que o ex-diretor procurou por WhatsApp Cristiano Carvalho, representante da empresa, em 3 de fevereiro para perguntar sobre a oferta das doses. Ele alegou à CPI que não estava negociando vacinas, mas apenas checando se a proposta era verdadeira.
  • Oferta
    Dias também disse que soube da oferta de 400 milhões de doses a partir de Blanco, o mesmo ex-colega que levou Dominghetti ao jantar. Disse que recebeu em outra data o reverendo Amilton Gomes de Paula, que também tentava intermediar o negócio com a Davati, mas não deu detalhes sobre quem pediu a reunião.
  • Hierarquia
    Dias afirmou que, por falta de documentos da Davati, não repassou as propostas ao então secretário-executivo da Saúde, coronel da reserva Elcio Franco, apesar de ordem interna para centralizar as discussões sobre vacinas para a Covid-19 na área comandada pelo ex-braço direito de Pazuello.
  • Relação com militares
    Dias sinalizou aos senadores que sofreu interferências da Secretaria-Executiva, ou seja, de militares aliados a Pazuello. Ele relatou que dois de seus auxiliares foram trocados por militares, e que havia “contato direto” muitas vezes entre estes novos colegas com a cúpula da pasta. Dias, porém, disse desconhecer as razões das exonerações dos seus auxiliares ou de quem partiu esta ordem.
  • Exoneração
    O ex-diretor também disse desconhecer que ele mesmo foi alvo de um pedido de demissão movido pelo ex-ministro Pazuello. Senadores insistiram no depoimento para que Dias apontasse nomes de militares da cúpula da Saúde que trabalharam para supostamente esvaziar as suas funções na Diretoria de Logística

PRÓXIMOS PASSOS

  • Elcio Franco
    Após o depoimento de Dias, senadores da CPI avaliam reconvocar o ex-secretário-executivo da Saúde. Eles querem entender como ocorreu a militarização da área de compras do ministério, além de como foram feitas as negociações de vacinas após a ordem de centralizar os processos nas suas mãos.
  • Dominghetti
    A CPI deve chamar novamente o policial que afirma ter recebido proposta de propina ao negociar vacinas com o ministério. Os senadores querem fazer uma acareação entre Dominghetti e Dias sobre o jantar do dia 25 de fevereiro, e colocar em confronto a versão de ambos sobre o suposto pedido de propina revelado em entrevista à Folha.
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