Centenário de dom Paulo tem comissão com seu nome na linha de frente para conter Bolsonaro

Arcebispo de São Paulo, que completaria cem anos na terça (14), foi símbolo de resistência à ditadura militar no país

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

“Estamos saturados da palavra ‘paz’?”, dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016) questiona no começo de sua nota para o Ano-Novo de 1973.

Tão atual quanto a pergunta lançada num dos períodos mais chumbados da ditadura, e publicada nas páginas da Folha, é a resposta do então arcebispo de São Paulo. “Não. Ela nos fascina, apesar de toda a retórica que a procurou desgastar nos últimos anos.”

Frade franciscano alçado a cardeal naquele mesmo ano pelo papa Paulo 6º, Arns completaria cem anos nesta terça-feira (14), data que será lembrada com uma missa na Catedral da Sé.

Não passa batido que a celebração do seu centenário aconteça uma semana após o 7 de Setembro usado por Jair Bolsonaro para derramar sua nada pacífica oratória numa crise institucional já há muito cultivada pelo presidente.

“Mais do que nunca, se nós tivéssemos dom Paulo presente, teríamos uma pessoa que estaria denunciando toda a violência praticada no país comandado por um energúmeno destituído de bons propósitos", diz o advogado José Carlos Dias, presidente da Comissão Arns, rede em defesa dos direitos humanos nada gratuitamente criada no primeiro ano do governo Bolsonaro.

"Dom Paulo nos ilumina para continuar essa luta.”

Padroeiro do grupo que reúne notáveis como Ailton Krenak, Dalmo Dallari e Sueli Carneiro, o cardeal serve há décadas como farol para os direitos humanos no Brasil.

Foi dom Paulo, que se valia de seu prestígio com o Vaticano para peitar o regime militar, quem protagonizou um dos capítulos mais fortes da resistência à ditadura.

Ao lado do rabino Henry Sobel e do reverendo Jaime Wright, conduziu um ato ecumênico na Catedral de São Paulo pela morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelos militares em 1975.

No Brasil de 2021, acabou incorporado à longa lista de comunistas aos olhos da extrema direita brasileira.

O youtuber Bernardo Küster, boia bolsonarista nas águas do conservadorismo católico, lembrou na Jovem Pan sobre as “brigas homéricas” que o brasileiro travou com o papa João Paulo 2º “por causa do seu progressismo”.

Em "Santos e Pecadores: Uma História dos Papas", o historiador irlandês Eamon Duffy afirma que "Arns ficou neutralizado quando sua gigantesca diocese paulista foi subdivida sem o seu consentimento, e as cinco novas sés então criadas passaram para as mãos de bispos conservadores".

Segundo Duffy, João Paulo 2º assim o determinou para reduzir o peso de dom Paulo dentro da Igreja, em 1989.

O cardeal era um entusiasta das comunidades eclesiais de base, costelas da Teologia da Libertação, influenciada pelo marxismo. O pontífice vinha de uma Polônia sob jugo da União Soviética, pouco afeita à liberdade religiosa, e não via isso com bons olhos.

Os ultraconservadores também não perdoam uma carta que dom Paulo enviou em 1988 para o ditador Fidel Castro nos 30 anos da Revolução Cubana. Nela, diz que a ilha é um "exemplo de justiça social".

A mensagem foi transcrita no Granma, jornal oficial do Partido Comunista Cubano, e irritou bispos cubanos exilados nos EUA, que apontaram as violações aos direitos humanos praticadas pelo regime comunista.

O cardeal, na época, disse que sua intenção era desobstruir o diálogo entre Cuba e a Igreja Católica.

Dom Paulo se guiava pelo “cuidado com os pobres”, diz dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre.

A prioridade fica clara quando um de seus primeiros gestos após ser nomeado cardeal é vender o antigo Palácio Episcopal Pio 12, o imponente imóvel no bairro do Paraíso usado como residência oficial da autoridade católica.

A meta era juntar dinheiro para construir 1.200 centros comunitários na periferia de São Paulo, de acordo com o jornalista Ricardo Carvalho, que o biografou em "O Cardeal da Resistência".

Mudou-se para um sobrado no Sumaré (zona oeste paulistana). Um dos pequenos prazeres era pitar um dos 16 cachimbos que tinha, às vezes na companhia do amigo José Carlos Dias, a quem conheceu como o advogado que defendia perseguidos políticos na ditadura.

Eram tempos de se fazer valer a máxima “onde há fumaça, há fogo”. “Ele se opunha aos ditadores, levava ao exterior as torturas, as mortes praticadas pelos detentores do poder”, afirma Dias.

O advogado resgata também o encontro do cardeal com Jimmy Carter, presidente americano que visitou o Brasil em 1978. “Quando ele estava voltando para o aeroporto, dom Paulo entrou no carro dele e foi transmitindo tudo o que estava acontecendo [as barbaridades do regime contra opositores].”

Partiu do líder católico iniciativas como Brasil: Nunca Mais, pesquisa que se debruçou sobre 850 mil páginas de processos do Superior Tribunal Militar para mapear a tortura política no país.

“O projeto teve um papel fundamental na denúncia que envolve todo o período de exceção que o Brasil viveu”, diz dom Jaime.

Era um homem de fala firme, segundo o arcebispo gaúcho. “Era bonito ver a veia do seu pescoço ficar grossa. Ele expressava essa paixão pela causa da paz”, conta.

Também gostava de cantar. O franciscano apreciava sobretudo a versão musicada da “Oração de São Francisco”, que começa pedindo: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor”.

Um perfil do cardeal publicado em 1987 pela Veja São Paulo mostra a faceta mais cotidiana do homem que colocava Mozart na vitrola, viajou pela Europa de carona aos 31 anos e falava sete línguas, entre as quais o grego e o hebraico .

Todas as manhãs, dom Paulo cobria o cocuruto com um boné de lã que lhe descia até as orelhas para rezar o terço na varanda do quarto. Havia um quartel vizinho, de onde alguns soldados, ao avistaram o cardeal, faziam um sinal da cruz.

“No contato pessoal, era amável, doce. Mas quando falava duro, nas missas que celebrava na catedral, era muito incisivo”, rememora Dias.

“Me lembro de ir reiteradamente na casa dele, ficávamos conversando e fumando cachimbo por horas. Quando eu ia embora, ele dizia: ‘Vai, Zé, coragem, coragem’. A palavra coragem era sempre estimulando para que a gente não abaixasse a cabeça.”

A vida de dom Paulo Evaristo Arns

Nascimento (14.set.21) Nasce em Forquilhinha, Criciúma (SC). É o quinto entre os 13 filhos de Gabriel Arns e Helena Steiner Arns, um casal de pequenos agricultores

Ingresso na ordem franciscana (1939) Ingressa na ordem franciscana; quatro anos depois, conclui curso de filosofia em Curitiba (PR)

Ordenação e vida em Paris (1945) Ordena-se padre em Petrópolis (RJ); após dois anos vai para Paris estudar letras na Sorbonne. Faz doutorado sobre “A Técnica do Livro de São Jerônimo”

Nomeado bispo (1966) É nomeado, pelo papa Paulo 6º, bispo; passa a auxiliar d. Agnelo Rossi em São Paulo e, no ano seguinte, se torna membro da Comissão Central da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)

Posse como arcebispo de SP (1º.nov.70) Toma posse como arcebispo de São Paulo, a maior arquidiocese católica do mundo. Torna-se grão-chanceler da PUC de São Paulo e da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, até 1998

Presidente de regional da CNBB (1971) Torna-se presidente da regional sul-1 da CNBB até 1975. Encontra-se comopresidente Médici para denunciar a tortura no país; no ano seguinte, lança o primeiro documento importante da Igreja sobre os direitos humanos, ‘Testemunho de Paz’

Cardinalato (1973) Torna-se cardeal por ordem de Paulo 6º e vende o palácio episcopal por US$ 5 milhões, usados para a construção de centros comunitários na periferia. Preside celebração em memória a estudante torturado e morto pelo regime

Defesa da anistia (1975) Inicia uma série de apelos em defesa da anistia. Celebra, na catedral da Sé o histórico culto ecumênico em memória de Vladimir Herzog, jornalista morto pelo regime militar

Visita de João Paulo 2º (1980) Acompanha o papa João Paulo 2º em sua primeira visita ao Brasil. Defende na ocasião os líderes das greves do ABC, que pressionaram o regime militar

Livro sobre tortura na ditadura (1985) Lança, com o apoio financeiro do Conselho Mundial de Igrejas e o reverendo Jaime Wright, o livro “Brasil: Nunca Mais”, contendo informações dos arquivos militares oficiais sobre o uso da tortura durante o regime

Divisão da Arquidiocese de São Paulo (1989) João Paulo 2º divide a Arquidiocese de São Paulo, o que diminui sua autonomia sobre as áreas periféricas. É o negociador para a libertação do empresário Abílio Diniz, que havia sido sequestrado. É indicado ao Prêmio Nobel da Paz

Acidente de carro (1992) Sofre um grave acidente automobilístico em Santo Domingo, República Dominicana, onde participava de encontro de bispos. Lança um documento contra o governo de Fernando Collor

Missa de despedida (1998) Celebra missa de despedida como cardeal arcebispo de São Paulo e torna-se arcebispo emérito, em 24 de maio

Lançamento de autobiografia (2001) É nomeado para o Conselho Deliberativo do Instituto de Estudos Avançados da USP; lança a autobiografia “Da Esperança à Utopia - Testemunho de uma Vida”

Morte de Zilda Arns (2010) Morre sua irmã, a pediatra e sanitarista Zilda Arns Neumann, 75, coordenadora da Pastoral da Criança, durante terremoto em Porto Príncipe, no Haiti, onde participava de missão humanitária

Homenagem de 95 anos (24.out.16) Participa de evento em homenagem a seus 95 anos. Em fala curta diante do auditório repleto de bonés vermelhos de movimentos sociais, como MST e Pastoral do Povo de Rua, cita o líder operário Santo Dias, assassinado há 37 anos

Morte (14.dez.16) Dom Paulo Evaristo Arns morre aos 95 anos, em São Paulo. Ele ficou internado no Hospital Santa Catarina por duas semanas com problemas pulmonares. Também sofreu uma piora em sua função renal na UTI

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.