Descrição de chapéu Eleições 2022

Doria e Eduardo Leite admitem erro em 2018 e fazem críticas indiretas em debate para prévias do PSDB

Tucanos criticam Jair Bolsonaro, e Arthur Virgílio, também postulante, afirma ter votado em Haddad

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São Paulo

O primeiro debate das prévias presidenciais do PSDB foi marcado por críticas indiretas entre os governadores João Doria (PSDB-SP) e Eduardo Leite (PSDB-RS), que evitaram confrontos abertos —as provocações ficaram a cargo do terceiro concorrente, o ex-prefeito de Manaus e ex-senador Arthur Virgílio (PSDB).

No debate promovido pelos jornais O Globo e Valor Econômico nesta terça (19), tanto Leite como Doria afirmaram ter sido um erro ter apoiado a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e fizeram críticas ao atual presidente, sobretudo na condução da economia e na flexibilização do teto de gastos.

MONTAGEM
O governador de São Paulo, Joao Doria; o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio; e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite; todos presidenciáveis do PSDB - Governo do Estado de São Paulo, Lucas Seixas/Folhapress e Felipe Dalla Valle/Palacio Piratini

"Em relação ao presidente Bolsonaro, eu errei, como Eduardo errou, como outras pessoas erraram. [...] Eu não tenho compromisso com o erro, eu não erro duas vezes", disse Doria.

O governador paulista criticou Bolsonaro pelas afrontas à democracia e pelo negacionismo, além de afirmar que o governo federal é um fracasso na área econômica.

"Foi um erro. Não há hipótese de apoiar uma candidatura de Bolsonaro em 2022. [...] A gente precisa evitar Bolsonaro tanto pelo ponto de vista democrático como econômico", afirmou Leite.

O debate não ocorreu sem tensões, mas foi mais ameno do que o clima da campanha na última semana, quando Leite comparou Doria a Bolsonaro e quando o governador paulista chegou a se recusar a participar do evento. Nesta terça, Doria recebeu o apoio do diretório tucano do Rio Grande do Norte.

​No entanto, os postulantes do PSDB demonstraram certa discordância a respeito do papel da economia e da democracia para o país.

Leite afirmou defender a democracia, mas ressaltou que, no contexto de crise econômica, as pessoas passam fome, enquanto a democracia está protegida pelos sistemas de controle e divisão de Poderes que a Constituição prevê.

"Acho que é importante discutir ideologia e gestão, mas o povo não come gestão e ideologia não bota comida na mesa. Não estou defendendo que se ignore o debate de democracia. [...] O Brasil precisa de uma democracia forte, mas precisa de emprego e renda", disse.

"A democracia é fundamental, não estou colocando hierarquia. A democracia resiste, porque ela não é do presidente, ela é do povo brasileiro. Agora, o presidente tem um papel determinante do ponto de vista econômico", completou.

Já Arthur e Doria lembraram seus pais que tiveram os mandatos cassados pela ditadura para afirmar que a democracia deve ser condição primeira e que, sem ela, não há prosperidade econômica.

"Democracia está à frente de tudo, não há economia se não houver democracia. A democracia é a essência e a base de uma nação", afirmou Doria.

"Democracia para mim está acima de tudo, é o valor mais fundamental. Democracia põe comida na mesa sim; ditadura tira comida da mesa", disse Arthur.

Mais instigador que os demais, Arthur Virgílio questionou Doria a respeito de picuinhas entre ele e Leite que aparecem nos jornais e afirmou que isso não ajuda para a unidade do partido.

"Não estou aqui para perder, estou aqui para derrotar vocês dois. Mas por que não cuidarmos só das questões públicas e acabarmos com esse trique-trique de jornal?", perguntou.

Arthur completou ainda que os ataques devem respeitar o limite de não impedir que os postulantes façam campanha juntos em 2022. "Isso exclui as picuinhas, e eu tenho visto picuinhas."

"Arthur, você quer unidade e eu tenho certeza de que Eduardo também e eu também. [...] Prévias não dividem, não fracionam, prévias unem", disse Doria, que exaltou ao final do debate seu caráter construtivo.

O ex-senador também questionou Leite por ter apoiado a eleição de Bolsonaro para alavancar a sua própria no Rio Grande do Sul.

"Você devia ter desprezado o apoio [de Bolsonaro]. Se você não ia vencer, você teria que ter perdido como um tucano de verdade", disse Arthur a Leite sobre o pleito de 2018. O ex-senador afirmou ter votado em Fernando Haddad (PT) no segundo turno.

Entre Doria e Leite, os dois principais postulantes, porém, as alfinetadas foram indiretas e houve discordância sobre a relação com o Congresso, caso sejam eleitos.

Doria criticou a barganha com o centrão. "Hoje temos um governo refém do Congresso Nacional. Quem manda no Orçamento é o presidente da Câmara. [...] A população elegeu Bolsonaro e não Arthur Lira [PP-AL]."

O governador paulista disse que iria acabar com emendas de relator, não transparentes, mas, em São Paulo, como revelou a Folha, ele não deu transparência a mais de R$ 1 bilhão gasto em 2021 com demandas de parlamentares.

Já Leite afirmou que a fragmentação partidária do país exige diálogo e que não ser candidato à reeleição "criou um ambiente de maior colaboração" na relação com o Legislativo.​

O gaúcho provocou o paulista ao afirmar que não aderiu à campanha de Bolsonaro, não o buscou para tirar fotos e nem misturou seu nome ao dele —algo que Doria, então candidato, fez ao vestir a camisa "BolsoDoria".

"Fiz a única declaração de voto, num vídeo, marcado muito bem quais eram minhas diferenças em relação a Bolsonaro. [...] O outro caminho, do PT, tinha quebrado o país, não era só problema de corrupção. [...] Não busco ganhar eleição perdendo a alma", respondeu Leite.

"Mesmo assim a gente vê que foi um erro, porque Bolsonaro gera problemas econômicos gravíssimos", completou.

Questionado sobre o bolsonarismo dentro do PSDB, Doria afirmou ser preciso respeitar as posições distintas, mas elogiou a decisão do presidente da sigla, Bruno Araújo, de assumir o partido como oposição e ressaltou que os deputados tucanos de São Paulo votaram contra o voto impresso —os do Rio Grande do Sul foram favoráveis.

Arthur afirmou ser "indecoroso" ter bolsonaristas na bancada tucana e defendeu uma limpeza do partido. "Temos que marcar a data e oferecer a porta de saída como serventia da casa."

Ainda no tema do voto impresso, Doria foi questionado sobre defender a votação em papel nas prévias do PSDB —aliados do governador têm apontado desconfiança em relação ao aplicativo por meio do qual votarão os filiados.

Como mostrou a Folha, a equipe de Doria tem uma série de questionamentos às regras estabelecidas pelo PSDB, buscando aproveitar brechas em meio a uma disputa acirrada.

"Regras são regras, nós aceitamos como estão. Confio nas prévias do PSDB. Sou contrário ao voto impresso. Sou a favor do voto eletrônico. Não sei que aliado foi esse, aliado sem nome não é aliado", respondeu Doria.

As críticas veladas de Leite a Doria passaram por frases em que o gaúcho pondera sobre diferentes estilos de fazer política, uma vez que é tido como mais agregador que o rival, e exalta a política, que Doria negou ao se eleger prefeito de São Paulo como gestor.

Doria, por outro lado, afirmou que seu governo é liberal na prática, listando seus programas, investimentos, reformas e privatizações.

Em outra estocada em Leite, disse que somente São Paulo havia feito uma reforma administrativa profunda, algo que o gaúcho respondeu, defendendo a abrangência de suas reformas administrativa e da Previdência.

Leite foi questionado por jornalistas a respeito da possibilidade de abrir mão da candidatura, caso vença as prévias, para fazer uma composição de chapa com outros partidos de centro. O governador admitiu que pode, sim, apoiar outro nome que julgue ter mais condições de quebrar a polarização entre Lula (PT) e Bolsonaro, mas, nesse caso, não seria candidato a vice, apenas apoiador.

Em outra crítica a Doria, afirmou que "um projeto de país não pode ser calcado em projeto pessoal".

O governador paulista foi perguntado a respeito de seus baixos índices de intenção de votos nas pesquisas e alto índice de rejeição apesar de ser considerado "o pai da vacina". Doria afirmou que medidas de restrição na pandemia afetaram sua popularidade e que a população ainda não está pensando em eleição.

Uma questão dirigida a Leite tratou do apoio de Aécio Neves (MG) a ele. O governador se esquivou, afirmando que todo o PSDB de Minas o apoia. "Aécio deve prestar explicações e deve, como qualquer cidadão, ter a presunção da inocência até que isso se julgue", disse.

O gaúcho afirmou que, em sua trajetória, não traiu aliados e ressaltou ter feito campanha para Geraldo Alckmin em 2018, em mais uma indireta para Doria, que é alvo de crítica no PSDB por ter abandonado seu padrinho político naquele ano. "Ninguém tem dúvida de que eu votei em Alckmin no primeiro turno", disse.

Houve ainda dois embates, ainda que polidos, entre Leite e Arthur. O ex-senador defendeu a reeleição, instituto aprovado no governo FHC (PSDB), enquanto o governador gaúcho prometeu que, se eleito presidente da República, não irá concorrer ao cargo novamente.

"O próprio presidente Fernando Henrique reconheceu já em declarações que [a reeleição] acabou sendo um erro, mas os erros a gente busca corrigir", disse Leite.

Quando o tema foi a experiência de cada um dos tucanos, Leite chegou a pedir direito de resposta em relação a uma fala de Arthur, mas foi negado. O ex-senador afirmou que o governador gaúcho disse, no debate, ser o mais experiente entre os três, algo que Leite afirmou não ter dito.

"Você disse ser a pessoa mais experiente aqui, não é. Talvez seja a menos. Você falou ninguém tem tanta experiência quanto eu. Tudo que você fez, eu fiz."

"De maneira nenhuma, com prepotência e arrogância, quis me dizer mais experiente do que ninguém aqui", disse Leite, afirmando que se referia à falta de experiência no Executivo de Bolsonaro, Lula e Dilma Rousseff (PT).

Com 36 anos, Leite insistiu que sua juventude não representa inexperiência.

Os três tucanos defenderam a unidade do partido, num ambiente de cordialidade e até de risadas. Arthur chegou a se emocionar ao fazer uma defesa da democracia e da política.

Eles concordaram em relação à necessidade de reformas no país, defenderam ajuste fiscal e medidas para crescimento econômico com proteção social.

De maneira geral, Doria se concentrou em apresentar diversas medidas implementados em São Paulo. Neste ano, o tucano anunciou um programa de investimentos de R$ 50 milhões.

Doria fez questão também de lembrar sua atuação para a obtenção da vacina contra a Covid-19, dando o pontapé na vacinação do país.

Em contrapartida, Leite afirmou ter colocado as contas do Rio Grande do Sul em dia e ponderou que, num estado endividado, não teria a mesma capacidade de investimentos que Doria.

"A gente tem que analisar cada governo no seu contexto. Que bom que você teve Mário Covas, [José] Serra, Geraldo Alckmin [ex-governadores do PSDB em SP] fazendo ao longo desse tempo um trabalho que colocou São Paulo muito à frente do seu tempo. No Rio Grande do Sul, estou precisando fazer reformas que Mário Covas fez em São Paulo. [...] Como que se falava em fazer investimento em um estado que não pagava salário?", declarou.

Arthur Virgílio pregou a importância da preservação e exploração sustentável da biodiverdidade da Amazônia e ponderou sobre um risco de intervenção estrangeira caso não haja políticas nesse sentido. Também defendeu a zona franca de Manaus como única alternativa de emprego à população do estado atualmente.

O debate teve cerca de duas horas de duração, com dois blocos de perguntas feitas por colunistas aos candidatos e dois blocos de perguntas feitas entre eles.

Na sexta (15), Doria chegou a anunciar que não mais participaria do debate por não concordar com as regras.

Em nota, a campanha do governador paulista não apontou exatamente qual era a discordância, mas a reportagem apurou que a duração do debate e a possibilidade de perguntas duras preocupavam o tucano.

No PSDB, a recusa em participar foi lida como um desprestígio ou descrédito de Doria em relação às prévias e houve reações negativas. No fim de semana, Doria voltou atrás. Seus auxiliares afirmam que ele recebeu muitas mensagens de apoiadores pedindo para que participasse do debate.

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