Descrição de chapéu Eleições 2022

Partidos da 3ª via veem Leite mais agregador que Doria, mas descartam influência em prévias tucanas

Governador gaúcho já ganhou declarações públicas favoráveis de ACM Neto, Datena e Kassab

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São Paulo

A resistência ao governador João Doria (PSDB-SP), já detectada entre parte dos tucanos, extrapolou a esfera partidária e chegou a dirigentes de partidos da chamada terceira via que dizem preferir a vitória do governador Eduardo Leite (PSDB-RS) nas prévias presidenciais do PSDB.

Na opinião desses políticos, Leite é mais afeito ao diálogo e menos comprometido com um projeto pessoal de poder —características necessárias à união dos partidos em torno de um só nome.

A convergência é estratégia da centro-direita para se viabilizar em meio à polarização entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (sem partido), que lideram as pesquisas sobre 2022.

O prestígio a Leite, no entanto, não deve ter influência significativa na votação interna do PSDB de acordo com tucanos e entusiastas da terceira via ouvidos pela Folha.

Atualmente, segundo membros do partido, a disputa está acirrada e tem um desfecho imprevisível —tanto Doria quanto Leite projetam sua vitória no primeiro turno, em 21 de novembro. Também participa das prévias o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio.

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Os governadores Eduardo Leite (PSDB-RS) e João Doria (PSDB-SP) - Rodger Timm - 24.10.2019/Divulgação Governo RS

Na tentativa de ganhar apoios dentro e fora do PSDB, os governadores vêm reafirmando seu compromisso com a unidade da terceira via, acima de vaidades. Ao mesmo tempo, ambos negaram recentemente a possibilidade de abrir mão da candidatura para compor uma chapa como candidatos a vice-presidente.

Entre líderes e presidenciáveis dos partidos União Brasil (fusão de DEM e PSL), PSD, MDB e também do PSDB, a leitura é a de que a mesa de negociação exige desprendimento —apoiar para ser apoiado, o que passaria por renunciar à cabeça de chapa.

Abril de 2022 é um mês mencionado entre eles como um prazo para tal entendimento. Até lá, diversos nomes são testados além de Doria e Leite, como Rodrigo Pacheco (União Brasil), Luiz Henrique Mandetta (União Brasil), José Luiz Datena (União Brasil), Simone Tebet (MDB), Alessandro Vieira (Cidadania) e Sergio Moro (sem partido).

O próprio presidente do PSDB, Bruno Araújo, acena a outras siglas quando afirma que os tucanos, por meio das prévias, estão escolhendo um nome para representar a legenda nessa construção conjunta.

Na prática, porém, caciques tucanos minimizam a polêmica a respeito de elaborar prévias e, ao final, ceder a candidatura. Isso porque, se Leite for vencedor, acreditam que ele pode ter melhores condições de liderar e representar a terceira via, uma vez legitimado pela votação interna.

Se Doria for o vencedor, a candidatura do PSDB também estaria garantida, dada a crença entre políticos de que ele levaria seu nome até o fim, mesmo sem concentrar apoios de aliados. Além disso, os dois tucanos já aparecem numericamente à frente de outros nomes da terceira via em pesquisas.

Ao desistir das prévias para apoiar Leite, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) declarou à Folha ser possível que o PSDB abra mão da cabeça de chapa e, ao ser questionado sobre a chance de Leite ser vice, afirmou que o governador "estaria disposto a qualquer tipo de abertura".

"O nome do Leite é muito mais fácil de ser conversado com outros partidos hoje do que o do governador de São Paulo", acrescentou.

Políticos ouvidos pela Folha veem Leite como um bom vice de Pacheco ou Ciro Gomes (PDT), possibilidade que ele já negou.

"Não faz o menor sentido ser vice, nem do Ciro, nem de ninguém. [...] Não faz sentido renunciar em abril se não for para liderar o projeto, como tantas lideranças do meu partido me estimulam a fazer", afirmou Leite.

Doria, por sua vez, afirmou à revista Veja que abriria mão da candidatura. "Temos que abrir mão, se necessário, em torno de um nome que possa ser vencedor. [...] Eu tenho que ser um patriota acima de tudo. Não estou na política por um projeto pessoal. Se ficarmos fracionados, não teremos uma terceira via”.

Em seguida, o PSDB de São Paulo afirmou, em nota, que a fala foi "descontextualizada" e que Doria decidiu concorrer nas prévias "para vencer".

Na quinta-feira (7), em evento da Comunitas, Doria e Leite se disseram dispostos a negociar e pregaram união da terceira via.

Doria falou em se dispor a apresentar seu nome, mas se dispor "também a pensar que o Brasil está acima dos nossos nomes". "Ter capacidade de integrar, de dialogar, de ter humildade, discernimento, olhar pelo Brasil antes de olhar a si próprio e antes de olhar seu próprio partido", disse ele, que criticou vaidade e personalismo.

Leite foi na mesma linha. "É uma irresponsabilidade ser levado por uma vaidade, num processo eleitoral crítico como esse, a fragmentar essa possibilidade de convergência e jogar o país mais uma vez numa eleição polarizada. [...] Eu me curvo aos entendimentos que venham a se fazer em torno da candidatura que melhor reunir, que melhor conseguir se conectar com o sentimento da população."

Até agora, o secretário-geral da União Brasil, ACM Neto (que presidia o DEM), foi mais enfático em declarar sua preferência por Leite, sentimento comum entre políticos desse campo ouvidos pela reportagem. ACM Neto e Doria romperam quando o governador paulista patrocinou a migração de seu vice, Rodrigo Garcia, do DEM para o PSDB.

​"Vejo com mais simpatia, de fora e sem poder me meter no ninho tucano, a candidatura do governador Eduardo Leite. A gente percebe uma postura do governador mais aberta. A gente vê no governador Doria vontade de querer ser candidato de qualquer jeito, a qualquer custo", disse ACM Neto à Folha.

De qualquer forma, ACM Neto e ​Luciano Bivar, agora presidente da União Brasil (antes presidente do PSL), listam suas opções de candidatos próprios à Presidência. Em entrevista à Folha, Bivar defendeu nomes do PSL ou DEM para a terceira via.

Uma dessas opções, Datena declarou apoiar Leite nas prévias. Ao entrevistar Leite, afirmou: "Se eu tivesse que votar no PSDB, em você ou no Doria, eu votaria em você. Essa é minha opinião. Se quiser meu apoio, já tem".

Nos bastidores, membros do PSDB afirmam que os acenos da União Brasil pesam a favor de Leite, mas minimizam o efeito disso na votação. Mais do que votos para o gaúcho, essas manifestações criam desconforto a Doria. Caciques de outras siglas dizem, em reservado, que o paulista fará uma campanha isolada.

Gilberto Kassab, presidente do PSD, defende a candidatura de Pacheco, mas já mencionou uma possível costura com Leite em entrevista a Datena.

​“Se o Eduardo ganhar eu defendo uma composição dele com Rodrigo Pacheco. Os dois partidos têm todas as condições de se entenderem para ver se, quem sabe, um pode ser presidente, o outro pode ser vice, ou encontrar um caminho comum”, disse. ​

​Mandetta, que também participou do evento da Comunitas, afirmou na ocasião que haverá entendimento entre os nomes da terceira via, mas também destacou a necessidade de desapego.

À reportagem o ex-ministro evitou se posicionar a favor de Leite ou de Doria e disse que os acenos externos não influenciam na votação interna. "Se Leite sair das prévias e falar que seu nome é irreversível, os dois vão se igualar na mesma pequenez política", disse.

Mandetta afirma que o vencedor tucano terá que negociar e que a conversa deve ser feita em torno de propostas. Também diz que a União Brasil "é um partido que nasce convocado a apresentar uma alternativa".

"Conta muito a capacidade de diálogo e articulação política. As prévias do PSDB estão em cima de nomes, parece uma coisa muito reduzida, Doria contra Leite. Tem que ver com qual espírito vão sair. Se saírem com ideias, projetos e construírem em cima disso, debatendo com os partidos e escolhendo um nome por último, vão sair maiores", completa.

Presidente do MDB, o deputado federal Baleia Rossi (SP) também não declara apoios. Próximo de Doria, ele afirma que os dois tucanos "têm capacidade de dialogar e somar".

"É uma questão interna. Vamos respeitar a decisão que tomarem. Admiro Leite, mas entendo também que Doria tem todas as condições de sentar à mesa, não impondo candidatura. Tenho certeza de que Doria está disposto a ajudar na construção dessa unidade", diz.

"Assim como a Simone Tebet, que vamos lançar pré-candidata, também já sinaliza que não há imposição, mas construção de uma candidatura", completa.

"Recebo com alegria as manifestações dessas ilustres torcidas. Acho que ajudam a mostrar para dentro do PSDB que temos mais força e capacidade para aglutinar apoios e para construir uma frente mais ampla para essa eleição", disse Leite à Folha.

Aliados de Doria não veem efeito na influência de outros partidos e acreditam que, se o paulista demonstrar ser competitivo, terá apoios naturalmente. A preocupação deles é vencer as prévias, manter o partido unido e demonstrar viabilidade eleitoral.

"Cada partido tem autonomia para resolver suas questões internas. Com o nome escolhido, a gente senta para conversar, para buscar aliados", afirma César Gontijo, tesoureiro do PSDB.

"Ganhando as previas, Doria vai conversar com todos partidos numa condição melhor do que a que tem hoje", diz Paulo Marinho, que integra a equipe do governador paulista para as prévias.

O presidente do PSDB de São Paulo, Marco Vinholi, que é secretário da gestão Doria, afirmou que a reportagem "fere a lógica" e é "um atentado de bom senso".

"Por obviedade, os adversários do governador João Doria que dirigem outras legendas não querem ter um candidato forte liderando a primeira via. Preferem ter um candidato de mentirinha para facilitar eventuais composições partidárias futuramente. O PSDB do plano real, dos medicamentos genéricos e da vacina não pode ser coadjuvante", disse.

Neste sábado (9), em Araçatuba (SP), Doria afirmou que o vencedor das prévias “estará legitimado para dialogar com lideranças de outros partidos e construir a melhor via para devolver esperança ao Brasil”.

Em campanha de prévias, Doria e Garcia estiveram em Araçatuba e Presidente Prudente, onde receberam apoio de prefeitos e vereadores. Também neste sábado, Leite fez campanha em São Paulo, reunindo apoiadores em um hotel da capital.

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