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Eleições 2022

Igreja Universal dobra aposta contra esquerda e afasta reconciliação com Lula

Igreja já marchou com petistas no passado, mas postura atual dificulta bandeira branca no futuro

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São Paulo

O bispo Edir Macedo voltou no domingo (23) ao Brasil, de uma viagem missionária, e no mesmo dia sua Igreja Universal do Reino de Deus ofereceu dois spoilers sobre o partido que deve tomar nas eleições deste ano.

Publicou em seu site dois artigos fulminando a canhotice política. Num deles, o mais barulhento, elenca cinco motivos que cassariam o direito de um cristão se identificar com a esquerda, uma aberração sem lé nem cré para os parâmetros morais da igreja.

Edir Macedo durante culto em praça no Rio de Janeiro - Danilo Verpa-8.jul.17/Folhapress

No outro, compara a eleição de esquerdistas no Chile (Gabriel Boric) e na Argentina (Alberto Fernández) a um "grande terremoto [cuja] destruição pode alcançar milhares de quilômetros do epicentro". Seria preciso, portanto, impedir que o Brasil, inspirado nos vizinhos hermanos, recalculasse a rota no Waze ideológico que o fez virar à direita no último pleito.

"Ah, mas qual a surpresa aí? A Universal apoiou Bolsonaro em 2018!", o leitor talvez devolva. É verdade, mas também marchou junto com todos os presidentes eleitos desde a redemocratização. Fernando Collor, FHC, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro. Todos. E vale lembrar que a mais musculosa das igrejas neopentecostais do país só abraçou o bolsonarismo às vésperas do primeiro turno, depois de vários pares evangélicos, e quando sua força eleitoral já estava mais reluzente.

O que chama atenção, no ataque duplo à esquerda, é a pouca margem de manobra que deixa a um eventual recuo da Universal, caso Lula confirme o favoritismo nas pesquisas e ganhe em outubro.

Estamos falando de uma denominação que, em 2010, fez o que pode para desmentir acusações de que a petista Dilma seria "aborteira" —"boato do mal", dizia reportagem no jornal distribuído na porta dos templos, a Folha Universal. E que depois emplacaria na Esplanada dilmista um peixe grande dos seus, Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo.

A Universal não é a única gigante evangélica a modular seu discurso de acordo com o governo que entra. Mas é tida no segmento como uma bússola eleitoral. Vai para aonde os ventos lhe parecem mais favoráveis. Não à toa, alguns pastores a apelidaram de "PMDB dos crentes", referência à fisiologia associada à legenda que costuma estar onde o poder está.

A esquerda com chances reais de triunfar nas urnas, em 2022, tem nome —Partido— e sobrenome —dos Trabalhadores. Ao reiterar seu desprezo pelo campo que Lula representa, o mesmo Lula que chamou de diabo em 1989 e acolheu nos anos 2000, o bispo Macedo dá a entender que, desta vez, pode não agitar a bandeira branca para o PT, ainda que isso signifique abrir mão de ter emissários seus circulando pelos corredores do Palácio do Planalto com o desembaraço de outros tempos.

O PT chegou a sonhar em se reconciliar com o antigo aliado, quando a Universal usou sua bazuca midiática, aí inclusa a Record de Macedo, para criticar o governo Bolsonaro. Bispos estavam desgostosos com o que viram como desinteresse do Planalto em resolver uma crise deflagrada entre suas filiais angolanas e autoridades locais.

Nos últimos meses, contudo, a Universal deu alguns chega pra lá na esquerda. Os editoriais da Folha Universal citaram o PT, direta ou indiretamente, em textos como "Proibição da Bíblia na China: o que isso tem a ver com você, brasileiro?" (sobre uma suposta ideologia comunista propagada pelo partido de Lula) e "Os atos da esquerda falam por si mesmos" (a tese de que nenhum país governado pela esquerda deu certo).

Já o 7 de Setembro bolsonarista ganhou cafunés da publicação que reflete os humores de Edir Macedo.

O bispo nunca escondeu ter um projeto político. Em 2008, lançou "Plano de Poder", livro em que extrai exemplos bíblicos, como a liderança de Moisés na libertação do povo hebreu, para defender que Deus sempre quis cristãos metidos na política.

"A forma de poder considerada mais eficaz e abrangente é o político, que depende de habilidades estratégicas e ideológicas", escreveu. "É preciso saber jogar para conquistá-lo e estabelecê-lo."

Que comecem os jogos, pois. Em 2018, já com as hordas bolsonaristas empoderadas, a Universal fundou o Grupo Arimateia. O nome vem de José de Arimateia, personagem contemporâneo a Jesus Cristo, descrito na Bíblia como senador e membro do que hoje equivaleria ao Supremo Tribunal Federal.

"Sua influência", diz a igreja, "lhe proporcionou privilégios que não seriam dados a outra pessoa qualquer. Arimateia, por exemplo, teve livre acesso ao governador Pôncio Pilatos para lhe pedir o corpo de Cristo, depois de Sua morte na cruz, para que pudesse fazer o Seu sepultamento."

A iniciativa tem como objetivo, segundo a Universal, advogar pela escolha de "representantes políticos de bom caráter e de boa índole, que defendam ideologias favoráveis à nação e que lutem em prol dos interesses coletivos".

O bispo Renato Cardoso, casado com a primogênita de Macedo e apontado como provável sucessor do sogro, é um dos mais vocais contra uma repescagem progressista em Brasília. É dele o texto com cinco razões para repudiar o avanço da esquerda. Nele, argumenta que, nas Escrituras, "estar do lado direito é identificado como um lugar especial, de honra, do próprio Deus".

"Quando o Senhor Jesus fala de ‘ovelhas e bodes’, põe as primeiras à direita e os segundos à esquerda (Mateus 25.31-34)", afirma. "Outra confirmação do que diz o Salvador está em Eclesiastes 10.2: "O coração do sábio está à sua direita, mas o coração do tolo está à sua esquerda."

Pastores não descartam que Macedo arquitete uma saída honrosa para fazer as pazes com Lula se o petista de fato vencer. Já o fez no passado, quando se aproximou das gestões petistas após mais de uma década massacrando Lula publicamente. A polarização dos últimos anos, contudo, pode dificultar esse cavalo de pau retórico. A ver.

Macedo, aliás, não inova ao tratar a esquerda cristã como um ornitorrinco que parece desafiar a ordem natural das coisas. Vários líderes evangélicos reproduzem o mesmíssimo discurso, de Silas Malafaia a André Valadão.

Uma exceção é o também bolsonarista Estevam Hernandes. O fundador da Renascer em Cristo disse à Folha em julho passado não ver sentido na ideia de que um crente não possa comungar com valores esquerdistas. "Se você está na Renascer e é PT, é esquerda, amém. Às vezes as pessoas falam, 'Deus não é de direita nem de esquerda, Deus é amor'."

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