Governo deve priorizar economia, não temas que projetam bolsonarismo, diz Randolfe

Após derrotas, líder afirma que base de Lula tem parlamentares conservadores e que aliança se baseia em emprego e comida na mesa

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Brasília

Após uma sequência de derrotas em votações na última semana, o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), afirma que a gestão do presidente Lula (PT) deve priorizar a agenda econômica e evitar que a oposição tire proveito da pauta de costumes.

"Quanto mais nós nos distanciarmos para outros temas, mais espaço tem para o florescimento da extrema direita", diz o parlamentar em entrevista à Folha. Ele ressalta, porém, que o governo não vai se omitir nessas discussões.

Foto colorida, com homem de cabelo escuros, de óculos e terno e gravata. ele gesticula e ao fundo há um mapa
O líder do governo no Congresso Nacional, senador Randolfe Rodrigues (sem partido), durante entrevista à Folha em seu gabinete - Pedro Ladeira/Pedro Ladeira/Folhapress

Para Randolfe, a derrubada do veto de Lula a um trecho do projeto que restringe a saída temporária de presos reflete também a posição de parlamentares conservadores que integram partidos da base aliada do governo.

O líder de Lula aponta que "o pacto da governabilidade" com esses partidos deve se basear na "melhoria da qualidade de vida dos brasileiros" e na defesa da democracia. "Em relação a outros temas, todos nós conhecemos a posição de todos", afirma. "Ninguém omitiu posição para vir para o governo."

Randolfe nega que Lula cogite uma reforma ministerial para recompor sua coalizão e afirma que considera aliados tanto o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), quanto o da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Segundo ele, "não há razão" para Lula vetar a taxação de compras internacionais caso o Senado decida aprovar o texto que passou pela Câmara na semana passada. A votação estava prevista para esta terça-feira (4), mas foi adiada para quarta-feira (5) diante de um impasse com o relator do texto, o senador Rodrigo Cunha (Podemos-AL).

Que diagnóstico o presidente Lula faz sobre as dificuldades do governo na relação com o Congresso?
Fizemos um balanço da sessão do Congresso [do dia 28]. O próprio presidente destacou que era um tanto esperado o resultado em relação à saída temporária e até em relação às chamadas fake news. O Congresso que foi eleito em 2022 tem um perfil muito conservador em temas relativos à questão de costumes e à segurança pública, com um núcleo reacionário ligado ao bolsonarismo muito forte e atuante.

O governo está preparado para lidar com esse Congresso ou alguma mudança será feita?
Não vejo o que poderia ter sido feito mais do que foi. Fosse quem fosse o ministro da articulação política, o resultado em relação aos temas relativos ao comportamento, à segurança e aos costumes não seria diferente. A nossa preocupação central naquela sessão nem era a saidinha.

Nos preocupava muito mais a derrubada dos vetos relativos à Lei de Diretrizes Orçamentárias e à Lei Orçamentária. [Se esses vetos fossem derrubados,] o governo perderia a governabilidade em relação ao pagamento de emendas parlamentares, que passaria a ocorrer a partir de um cronograma imposto pelo Legislativo. Foi melhor assim do que perder em temas que poderiam dar prejuízo para a condução da política econômica, que tem sido bem-sucedida até agora.

Isso significa que o governo deve se envolver cada vez menos nos temas ligados a costumes para evitar derrotas?
O governo nunca vai esconder suas posições. O que ocorre é que, em alguns desses temas, o Congresso hoje é muito mais sensibilizado pelo perfil que ele tem, um perfil conservador.

Lula foi eleito com três signos: a defesa da democracia brasileira, a reconstrução do país e a recuperação da qualidade de vida do povo. Quanto mais esse governo garantir emprego e comida na mesa aos brasileiros, maiores as chances de sucesso. Quanto mais nós nos distanciarmos para outros temas, mais espaço tem para o florescimento da extrema direita e do fascismo.

Partidos da base aliada têm ministérios, mas quase todos votaram contra as orientações do governo na sessão do Congresso. O que pensa sobre o comportamento desses partidos?
A aliança que governa esse país é uma aliança de frente ampla. Não é uma aliança nem de centro-esquerda. É centro-democrática, com setores conservadores participando do governo.

Esses setores conservadores, toda vez que variarmos para temas de costumes ou comportamentais, vão manter as suas posições. Se o governo dependesse somente do seu núcleo identitário original, teríamos 140, 150 deputados.

Existe alguma frustração em relação ao comportamento de partidos como PSD, União Brasil, MDB, PP e Republicanos?
Nenhuma. Ninguém omitiu posição para vir para o governo. Qual o signo da nossa eleição? Melhoria da qualidade de vida dos brasileiros, defesa da democracia. O pacto da governabilidade tem que garantir isso. Em relação a outros temas, todos nós conhecemos a posição de todos.

É uma coalizão pela metade?
É a coalizão dos tempos em que vivemos.

Uma reforma ministerial é vista como necessária?
Eu não ouvi em nenhum momento isso ser cogitado. O que muda com qualquer ajuste dessa natureza nesse momento? O núcleo político é o núcleo político de confiança do presidente. Nós temos um presidente da República que governa, não terceiriza o governo.

Existem algumas críticas à sua atuação como líder. Como o senhor vê esses comentários?
Líder de governo e ministro da articulação política que não recebe críticas não está cumprindo bem a sua função. Vou dar um exemplo de uma crítica que eu recebi: que a base mais identificada com o governo precisa ser mais mobilizada para os embates políticos dos temas do Congresso. Eu acho que é uma crítica correta.

O presidente Lula considera que pode contar com Arthur Lira como um aliado?
Nós trabalhamos com Arthur Lira e Rodrigo Pacheco como aliados. Tanto é que os partidos de ambos integram o governo.

Em que medida a situação atual pode impactar a sucessão na Câmara e no Senado?
A gente não vai se meter em sucessão. Quem tem que liderar a sucessão de Arthur Lira é o próprio Arthur Lira. Quem tem que presidir a sucessão de Rodrigo Pacheco é o próprio Rodrigo Pacheco. Tenho certeza de que quem vier a suceder aos dois manterá o nível de cooperação que eles têm tido com o governo.

O Senado deve votar o projeto que inclui a aplicação de imposto de 20% sobre compras internacionais. Há acordo para o presidente Lula não vetar esse dispositivo?
Houve um acordo firmado na Câmara com a participação da oposição. O Senado reiterando o acordo que foi expressado na votação quase unânime, não há razão para ter veto. A prioridade é que o tema seja aprovado. Apreciado e aprovado. [A votação foi adiada depois que o senador Rodrigo Cunha, relator da proposta, retirou do texto a aplicação da taxa sobre as compras internacionais. O governo ainda negociava a reinclusão do dispositivo na votação em plenário prevista para quarta-feira (5)]

Sobre a proposta da chamada PEC das Praias, qual é a posição do governo?
Somos terminantemente contra. É uma proposta absurda. Nós consideramos legítimo questionar a tributação de laudêmio, foro e IPTU. Ajustar para que sejam tributados somente por um desses tributos, acho que é um debate necessário.

Agora, [não se pode proibir] a maioria dos brasileiros mais pobres de ter acesso à praia. Eu acharia mais adequado ter uma outra PEC só tratando desse outro tema [da tributação], porque eu acho que essa proposta já está irremediavelmente contaminada. Acho muito difícil a maioria dos meus colegas senadores querer colocar a digital em uma proposta que privatiza as praias brasileiras.

Na situação atual, existe um caminho mais difícil do que esperado para o presidente se reeleger ou fazer um sucessor?
Eu agradeço todos os dias a Deus por nós termos Lula. Só Lula seria capaz da façanha que foi a vitória da eleição de 2022. Da mesma forma, nós precisaremos de Lula em 2026.

Eu não vejo alternativa ao nome de Lula para 2026. E a condução que ele está nos dando no momento atual me dá muita segurança de que nós vamos chegar com a economia brasileira recuperada. Esse vai ser o nosso maior ativo para 2026 sob a liderança de Lula.


RAIO-X

Randolfe Rodrigues (sem partido), 51

Nasceu em Garanhuns (PE). É graduado em história e direito. Tem mestrado em políticas públicas. Começou a carreira política como deputado estadual no Amapá. É senador desde 2011. É líder do governo no Congresso.

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