Paulistanos trocam ar-condicionado das academias por verde dos parques

Enquanto uma turma de quase 400 alunos recolhe seus tapetes de ioga do gramado da praça da Paz, no meio do parque Ibirapuera, na zona sul paulistana, outras 108 pessoas começam a se aquecer para uma sessão de exercícios aeróbicos, a poucos quilômetros dali.

Não passam das 10h de um domingo ensolarado, dia em que as temperaturas na capital bateram a casa dos 32ºC. Para todos os lados que se olhe há homens, mulheres e jovens empenhados em seus exercícios matinais.

De corrida ritmada ao futebol com os amigos, vale tudo. Há até grupos que, sabendo da importância de acompanhamento profissional, contratam professores especialmente para orientar seus treinos.

"Tem os sons da natureza, o ar limpo. Do lado de dentro muitas vezes ficamos em uma sala abafada, no ar-condicionado, o que não é exatamente saudável", diz Laila Gadel Marinho, 34, professora de ioga.

Ela levou a filha, Larissa, 5, ao "aulão" organizado pelo estúdio MyYoga no Ibirapuera no último dia 20. "O benefício, além dessa visão, é também a energia toda que existe em um ambiente natural. A Larissa adora", afirma a mãe.

Assim como a professora, cerca de 25 mil paulistanos passam todos os dias pelo parque da zona sul com uma única intenção: se exercitar fora de quatro paredes. No do Carmo, na zona leste, a média é de 8.000. Os dados são da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, que administra 107 espaços verdes na cidade.

Apesar de enfrentar a forte concorrência númerica das academias tradicionais -há 2.700 registradas na capital, de acordo com o Sindicato das Academias de São Paulo -, os parques podem levar vantagem quando o assunto é interação social, qualidade de vida e bem-estar.

"O fato de estar num lugar público, com mais gente, provavelmente satisfaça mais essas pessoas do que apenas a repetição de movimentos dentro de um ambiente fechado", diz Ana Lúcia Padrão dos Santos, professora doutora da Escola de Educação Física e Esporte da USP.

Fugir da rotina foi justamente o que motivou o estudante de educação física Luiz Otávio Coelho Mesquita, 22, a procurar uma nova modalidade esportiva, há dois anos.

Descobriu, pela internet, a calistenia, prática que usa o próprio peso corporal nos exercícios de força. Desde então, durante a semana, toda manhã ele se equilibra nas barras do parque da Água Branca, na zona oeste, e aos domingos treina com um grupo de 60 entusiastas do esporte, no Ibirapuera.

"Quando você vai para um local aberto e pratica uma atividade física, você não só exercita seu corpo, mas relaxa a sua mente", diz. "É uma paz de espírito diferente, ainda mais nós que vivemos nessa maluquice de trânsito."

A sensação pode estar evoluindo com o passar do tempo. Anualmente, o American College of Sports Medicine, organização de medicina esportiva, faz um levantamento das principais "tendências fitness" para o ano seguinte.

Em 2010, os "exercícios outdoor" apareciam na posição 25. No último relatório da instituição, publicado em novembro de 2014, as atividades ao ar livre subiram 13 posições no ranking geral.

Para a professora Ana Lúcia dos Santos, o salto se relaciona com a percepção de que a prática de um exercício não tem apenas a função de melhorar indicadores biológicos.

"É da necessidade humana buscar contato com outras pessoas e com o ambiente. As academias tentam criar modismos, mas quando eles se tornam comuns, novas alternativas se tornam necessárias -e os ambientes abertos são imprevisíveis", afirma.

Acostumado a correr desde 1998, ano em que disputou sua primeira São Silvestre, o veterinário Rafael França, 33, criou o grupo de corrida Bela Vista Runners há dois anos.

Uma vez por mês eles se encontram para treinos coletivos no Ibirapuera, mas estão sempre juntos nas provas de rua da cidade, aos fins de semana. Costumam participar de três competições por mês.

"O paulistano trouxe a corrida de rua e a caminhada para os parques como nenhuma outra cidade", diz o professor de educação física Marcos Paulo Reis, dono da MPR Assessoria Esportiva.

Desde 1994, São Paulo é a cidade que mais tem competições organizadas pela Corpore, entidade que representa os corredores. De lá para cá, os atletas cadastrados na entidade saltaram de quatro para 455.

A evolução, segundo Ana Lúcia, aponta para a tendência de que o paulistano cada vez mais prefere a rua.

DE RÚGBI A IOGA, SAIBA QUAIS ATIVIDADES PODEM SER FEITAS EM PARQUES

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