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15/08/2010 - 02h55

Obras projetadas por Ruy Ohtake alteram a paisagem de Heliópolis; veja vídeo

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GABRIELA LONGMAN
DE SÃO PAULO

Do alto de seus 72 anos, Ruy Ohtake atravessa extremos. Deixa seu escritório na avenida Faria Lima (zona oeste) e, em 40 minutos sem trânsito, chega a Heliópolis (zona sul), bairro formado por casas simples, comércio popular, funilarias, botecos e barracos aglomerados a perder de vista. Autor de prédios conhecidos do skyline paulistano, como o hotel Unique ou o instituto Tomie Ohtake, o arquiteto, trabalha há sete anos na maior favela da cidade, procurando estabelecer ali uma espécie de laboratório de urbanização e participação social.

Newton Santos/Hype/Folhapress
Projeto desenvolvido pelo arquiteto Ruy Ohtake, na favela de Heliópolis, na cidade de São Paulo
Projeto desenvolvido pelo arquiteto Ruy Ohtake, na favela de Heliópolis, situada na zona sul da cidade de São Paulo

"Encontrei nessa comunidade uma solidariedade que não existe em outras partes da cidade. Eu, por exemplo, não conheço os vizinhos do meu prédio", contou à sãopaulo durante uma visita ao bairro.

A experiência na região começou em 2003, a convite de um dos líderes comunitários. Primeiro, o arquiteto desenvolveu um projeto de intervenção cromática, com a pintura de três ruas escolhidas pelo bairro. Depois, com recursos captados com um banco, ajudou na instalação de uma pequena biblioteca, juntando duas casinhas numa pequena reforma. A contrapartida estabelecida por ele foi que a gestão do espaço fosse toda feita pelos moradores. "Funcionou. Fiquei muito impressionado com o nível de organização que encontrei ali."

Alguns anos mais tarde, quando a prefeitura estudava a construção de três creches no bairro, ouviu das lideranças do Unas (União de Núcleos Associações e Sociedades de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco): "Precisa falar com o Ruy". Foi assim que a intervenção do arquiteto começou a ganhar status oficial e verbas mais sólidas, vindas da iniciativa pública. O raio de ação cresceu exponencialmente.

As três creches foram construídas com projeto arquitetônico padrão da prefeitura, mas Ohtake ajudou a posicioná-las, num terreno vizinho a duas escolas municipais. Nascia, aos poucos, o projeto de um polo educativo e cultural, numa área de 35 mil m2, fechada à entrada de carros. Os sete prédios --projetados, pintados ou reformados por Ohtake-- que hoje estão ali formam um conjunto sem muros, e a área verde entre eles serve como parque para a comunidade nos finais de semana.

Composto por duas escolas (que já existiam), as novas creches (inauguradas entre 2008 e 2009), uma escola técnica profissionalizante, aberta no ano passado, e um centro cultural que acaba de ser entregue, o conjunto ainda não está completo. A construção de uma biblioteca, um centro esportivo e um espaço para oficinas já foi aprovada pela prefeitura, e os equipamentos devem ser entregues nos próximos dois anos.

Formado pela FAU-USP em 1960, Ohtake tornou-se um amante das linhas curvas tanto quanto o "mestre" Niemeyer (o interior da Escola Técnica de Heliópolis remete imediatamente ao prédio da bienal). Filho da artista plástica Tomie Ohtake, 96, Ruy atribui à cor uma importância de primeira ordem. Os tons vibrantes que caracterizam seus projetos estão presentes em todas as construções que fez no bairro.

O centro cultural, por exemplo, foi pintado em tons de roxo e azul porque "a preocupação estética está em primeiro plano". O novo prédio tem um cinema, um auditório ao ar livre, uma galeria para exposições e salas de múltiplo uso.

"Não vejo a hora de ver tudo funcionando", diz Arlete Persoli. "Estamos só aguardando a nomeação de um grupo gestor [pela Secretaria da Educação] para começar as atividades." Indicada pela comunidade, ela será a coordenadora do espaço.

Estudantes da oitava série na escola Presidente Campos Salles, as amigas Thainara Cerqueira, 15, Isabela Mendes, 15, e Juliane Ferreira, 14, elogiaram as transformações no espaço escolar e disseram, ao sair da sala de aula, que frequentam o "parque" no fim de semana.

"Falta só uma quadra coberta", diz o namorado de uma delas, da mesma faixa etária, interrompendo a conversa. Segundo dados do IBGE, 92% da população de Heliópolis são de origem nordestina, com 53% na faixa etária de 0 a 25 anos.

Além do projeto urbanístico de Ohtake, há mais de cem entidades (religiosas, associações de moradores e ONGs) realizando trabalhos sociais em Heliópolis, de acordo com um levantamento realizado pela Fundação Cásper Líbero e o Unas. O Instituto Baccarelli, por exemplo, criou em 1996 um projeto de formação em musica erudita que atende hoje a cerca de 550 crianças e jovens de baixa renda.

"Condomínio residencial"

Paulo Pampolin/Hype/Folhapress
Vista aérea de projeto desenvolvido pelo arquiteto Ruy Ohtake, na favela de Heliópolis, em São Paulo.
Na imagem, a vista aérea de projeto desenvolvido pelo arquiteto Ruy Ohtake, na favela de Heliópolis, em São Paulo

Fora os projetos para o polo educativo e cultural, a atual empreitada de Ruy Ohtake é a construção de um conjunto habitacional com 71 edifícios, todos redondos, num terreno que pertencia à Sabesp e hoje é da Sehab (Secretaria Municipal de Habitação). Ousado, o formato arredondado deve aumentar o espaço de circulação entre os prédios e eliminar noções de "frente" e "fundo" dos prédios tradicionais.

"Não gosto do termo 'conjunto habitacional', prefiro chamar de 'condomínio residencial'", defende o arquiteto. Cada edifício tem quatro andares e 18 apartamentos de 52 m². Duas unidades no térreo são reservadas para idosos ou cadeirantes. A primeira fase, com 23 unidades, deve ser entregue no final de 2010. A construção dos 48 restantes está prevista para começar no início de 2011. "Os prédios têm baixo custo de construção, mas poderiam perfeitamente estar numa área nobre da cidade."

O trabalho em Heliópolis está longe de ocupar a totalidade da agenda do arquiteto, pai de dois flhos. Ohtake, que em 50 anos de carreira fez projetos no Brasil, Japão, Espanha, Estados Unidos, entre outros, continua com seu escritório "comercial" a pleno vapor, trabalhando num aquário para o Pantanal, estruturando um plano de revitalização para a orla de Bertioga, recebendo estrangeiros para reuniões.

Nesta semana, ele tem uma tarefa especial a cumprir: cinco de seus projetos, a urbanização de Heliópolis entre eles, foram escolhidos para integrar o acervo de arquitetura do Centre Pompidou, em Paris. Seguido a orientação de três curadores do museu, o arquiteto precisa separar e organizar aproximadamente 120 croquis para enviar à instituição francesa. Heliópolis, em desenho, vai sair para o mundo.

Simbolismo e autoestima

O envolvimento da comunidade de Heliópolis com Ruy Ohtake ocorreu sem a intermediação do Estado: moradores pediram ajuda ao festejado arquiteto em busca de uma vida melhor. Inicialmente essa ação apresentou resultados incipientes, em fachadas coloridas e pequenas reformas; agora, com o auxílio do Estado, surgem os primeiros frutos amadurecidos.

A arquitetura é diferenciada? Sim: no lugar dos conjuntos habitacionais convencionais, torres redondas; para que fazer escola padrão se é possível construir um espaço aberto e com grande vazio central? Como de costume, os traços Ohtake são reconhecidos com facilidade. Mais difícil é identificar a maneira "moderna" de implantar os edifícios de forma isolada na área verde como se fossem objetos --como faria Oscar Niemeyer.

Os projetos representam o arquiteto em sua melhor forma? Não: apesar de sua obra ter como base uma retórica de cunho social, Ohtake (como a maior parte dos arquitetos) tem pouca facilidade em transformar orçamentos magros em joias arquitetônicas. Sua expressão necessita de técnicas e materiais sofisticados, diferentemente de obras dos raros projetistas cuja força emana de poucos recursos (como Lelé, no Brasil, ou o extraordinário escritório Rural Studio, dos Estados Unidos). Ainda assim, os prédios de Heliópolis possuem carga simbólica suficiente para melhorar a autoestima do entorno. O arquiteto e a comunidade dão exemplo de um tipo de ação positiva para a cidade formal e informal.

Vídeo

 

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