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15/10/2010 - 15h13

Canil Central da PM completa 60 anos e quer adquirir mais cachorros para a Copa do Mundo

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FLÁVIA MANTOVANI
DE SÃO PAULO

Há um lugar na cidade no qual muitos policiais vão ao trabalho mesmo nos dias de folga ou até de férias --voluntariamente. É o Canil Central da PM: lá, cada agente sai sempre com o mesmo cachorro, e há aqueles que se apegam tanto ao animal que vão lá dar afeto e cuidados mesmo quando poderiam estar em casa, descansando.

É por isso também que, ao se aposentarem, aos oito anos de idade, os cães vão para a casa do policial que mais tempo ficou com eles. O pastor-alemão Avalon, por exemplo, vai ficar com o cabo Gilson Ferreira Alves, 42, em janeiro. Alves trabalha lá há 22 anos, e já recebeu outros cachorros na residência. "Nossa relação é de companheirismo, amizade. É um parceiro nas horas difíceis e nas de alegria. Às vezes nos comunicamos apenas por olhares", diz.

Fred Chalub/Folhapress
Soldado Romero e o cão Brown fazem demonstração de como verificar uma mala com suspeita de conter explosivos
Soldado Romero e o cão Brown fazem demonstração de como verificar uma mala com suspeita de conter explosivos

O Canil Central, que acaba de completar 60 anos, fica numa área de 42.683 m2, com muito verde e até esquilos e bugios, na Serra da Cantareira (região norte). Na entrada, um busto homenageia o cabo Dick, cachorro que ficou famoso na década de 1950 por ter encontrado um garoto desaparecido e, com isso, salvado o canil, que ia ser fechado pelo então governador Jânio Quadros (1917-1992). O prêmio para quem encontrasse a criança era uma promoção, e o bicho ganhou o status de cabo.

Hoje, são 81 cães, machos e fêmeas, das raças pastor-alemão, pastor-belga malinois, rottweiler, doberman e labrador. Há também dois bracos-alemães que estão em teste. Todos têm pedigree, e sua saúde e seu comportamento são avaliados por veterinários antes da compra. Consomem cerca de 90 kg de ração por dia. "O temperamento tem que ser equilibrado. O cão não pode ser muito agressivo nem muito medroso, e tem que ser curioso", explica o tenente Alexandre Farrath Jr., subcomandante do Canil Central --há outros 22 canis setoriais no Estado, com 390 cães policiais no total.

A instituição quer adquirir mais animais, principalmente por causa do aumento da demanda que haverá na Copa do Mundo de 2014. Para isso, precisa conseguir autorização para aumentar o número de boxes: atualmente, são 90.

Policiamento

Os nomes dos cães costumam vir no pedigree: Argos, Brown, Laika, Krugger e Billy são alguns. Eles trabalham com policiamento ostensivo, controle de rebeliões, busca de pessoas e detecção de explosivos e entorpecentes. A maioria (70%) faz policiamento. Os demais são de faro, e há alguns com dupla função.

Segundo Farrath, numa situação como contenção de presos rebelados, um cão equivale a seis ou sete homens. "Isso por causa do aspecto psicológico. Ele amedronta muito, e a pessoa sabe que, se for enfrentar, vai ser mordida." A orientação aos policiais é recorrer à mordida antes de usar a arma de fogo.

Os cachorros ainda participam de demonstrações em escolas, com truques como pular em um aro de fogo. "Queremos um dia oferecer cinoterapia [terapia com cães] para deficientes", diz o sargento Keith Peruzzo, comandante da demonstração.

Cada PM trabalha 12 horas e fica 36 de folga, e o animal acompanha o ritmo. Todos têm que passar pelo curso de cinotecnia, que ensina a lidar com os cachorros e a adestrá-los.

No canil, há uma clínica veterinária. De madrugada, fica um enfermeiro de plantão e um veterinário de prontidão, em casa. "O cão não escolheu estar aqui, então tentamos tornar a vida dele a melhor possível. Para trabalhar aqui, não basta gostar de ser policial, tem que amar os cães", afirma Peruzzo.

Policial vira "terapeuta"

Quando um cachorro está estressado, os policiais já sabem a quem chamar: há 24 anos no local, o cabo Jorge Camargo, 49, virou quase um "terapeuta" canino. A técnica é simples: dar alegria ao animal para que ele produza serotonina, o hormônio do prazer. "Tenho brinquedos, levo o cão para um passeio para baixar a adrenalina", conta.

Formado em teologia, Camargo diz que teorias como as de Pavlov (que estudou os reflexos condicionados) ajudaram a entender os cães. O amor pelos animais vem de família. O pai dele foi criador de pastores-alemães e trabalhou no Canil Central nos anos 1970, e seu irmão ficou lá por 27 anos. Hoje, em casa, ele tem dois poodles --sua mulher fica insegura com cães maiores.

10 curiosidades sobre os cães da polícia

1. Em uma escala de uso progressivo da força pelo policial, a mordida é o penúltimo passo: vem antes apenas do uso da arma de fogo

2. Entre os cães farejadores, uns localizam drogas e outros, explosivos. Enquanto os primeiros podem "atacar" o pacote encontrado, os demais são treinados para não mexer em nada: após detectarem o perigo, eles se sentam

3. Nenhum cachorro de fora pode entrar no canil, para evitar a transmissão de doenças

4. A maioria dos comandos de adestramento vem do inglês (como "seat" ou "stay"), mas há um bem brasileiro: o "ribalá", para o cão subir na viatura, é uma expressão nordestina

5. Nos treinos, a droga ou o explosivo são colocados em um brinquedo. Na vida real, o policial joga um brinquedo depois que o cachorro encontra a droga, para que ele continue fazendo essa associação

6. Para adestrar os cães, são usadas três recompensas: carinho, comida e brinquedo

7. As viaturas são adaptadas para levar os animais: o banco traseiro é retirado e coloca-se um tablado de madeira no lugar

8. Muita gente liga interessada em doar cães, mas os critérios para aceitá-los são rígidos. Eles têm que ter até um ano e meio, pedigree e passar por testes veterinários e comportamentais

9. O cão aprende a manter a mordida fixa, para imobilizar mais e machucar menos. Mas o impacto chega a ser de 500 kg

10. Muitos pensam que cães que farejam drogas são viciados, mas eles não têm contato direto com a droga

 

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