Países pobres lideram crescimento global da indústria de turismo

Questões tributárias e estruturais dificultam avanço brasileiro em viagens corporativas, mais rentáveis

Débora Yuri
São Paulo

Homem de terno, de costas, puxa mala em corredor de aeroporto
Executivo se desloca pelo aeroporto de Congonhas, em São Paulo - Keiny Andrade/Folhapress

Gigante adormecido? O apelido pode ser aplicado a alguns setores econômicos brasileiros, mas dificilmente será tão preciso como no caso do turismo.

A indústria mundial das viagens cresceu mais que a economia global no período de 2011 a 2016, ano da última medição consolidada do WTTC (World Travel & Tourism Council). Quem puxa a curva ascendente são mercados em desenvolvimento.

Assim, países como Azerbaijão, Mongólia, Costa Rica, Tailândia e Sri Lanka figuram entre os dez primeiros do ranking que aponta os maiores crescimentos.

Para os próximos dez anos, a projeção da entidade é que a porção em desenvolvimento do mapa-múndi siga liderando as estatísticas de avanço, com Namíbia, Quirguistão, Ruanda, Myanmar e Índia entre os destaques.

Além da tendência de valorização dos destinos outrora coadjuvantes, joga a favor do Brasil seu imenso potencial turístico. No ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial, o país é o número um do mundo no quesito recursos naturais. Em recursos culturais, ele atinge a oitava posição.

O aumento no número de visitantes internacionais, entretanto, ainda é muito tímido, e seus gastos em território brasileiro representam apenas 6,5% do PIB nacional do setor. No segmento de viagens de negócios, responsável por 60% da receita do turismo brasileiro, o percentual de chegadas estrangeiras está em queda desde 2014.

Quando considera o ambiente de negócios de 136 países estudados, o índice do Fórum Econômico Mundial coloca o Brasil em 129º lugar.

Para estimular a indústria brasileira do turismo, é necessário reduzir entraves tributários e investir em conectividade, segurança pública, sinalização turística e infraestrutura, no diagnóstico do consultor Luiz Barretto, ex-ministro do Turismo e ex-presidente nacional do Sebrae.

"Teríamos de implantar uma política de Estado e continuidade. E isso vale também para os poderes estaduais e municipais", afirma.

Novos desafios do país, como a infraestrutura digital, impactam uma área que responde por 8,5% do PIB nacional (direto e indireto), emprega 7 milhões de pessoas e movimenta mais de 50 setores da economia.

"Talvez o wi-fi seja, hoje, o elemento mais importante na hora de decidir onde um evento será realizado e onde alguém irá se hospedar."

GRANDE NEGÓCIO

Outro obstáculo é o Brasil estar no hemisfério Sul, distante para os grandes mercados emissores, EUA e Europa, e também para os mais aquecidos —China e Japão. Ásia, Leste Europeu, Portugal e México são exemplos recentes de crescimento beneficiados por vantagens geográficas.

"Precisamos de política de promoção, que estacionou. O Brasil é multifacetado, deve ir além do sol e da praia para captar feiras e congressos. O Peru conseguiu transformar sua gastronomia, que há 15 anos não era nada, em uma marca", compara Barretto.

Segundo Vinícius Lummertz, presidente da Embratur, a perda de recursos da entidade nos últimos anos afetou o desempenho brasileiro no turismo de negócios.

O país já foi top 10 no ranking de destinos que mais recebem eventos, medido pela ICCA (Associação Internacional de Congressos e Convenções). Caiu para o 15º lugar.

"O Brasil não leva a sério o turismo. Ele não é, de forma geral, uma prioridade na estratégia do país nem dos municípios. Suécia e Portugal aumentaram gastos e subiram posições, porque perceberam que isso é um grande negócio", diz Lummertz.

"E o segmento corporativo é o mais rentável. O que se busca nessa área é integrar evento, localização e lazer."

Quase nenhum destino nacional tem uma cadeia produtiva completa para receber grandes eventos internacionais, segundo Glauber Eduardo Santos, professor de economia do turismo da USP.

"Este cliente não decide pela compra de um almoço, e sim de uma viagem inteira. Não dá para ter refeições e hospedagem, mas ficar sem segurança, sem infraestrutura de transporte e sem serviços de apoio qualificados. Resolver uma parte do problema é o mesmo que resolver nada."

Há dois tipos de países em desenvolvimento que viveram grande crescimento turístico, ele explica: os que estavam realmente se desenvolvendo, como Coreia do Sul, Cingapura e Hong Kong, e os que decidiram oferecer ao viajante serviços públicos melhores do que ao residente --casos do México, da Costa Rica e da Tailândia.

"Mas você precisa passar o turista na frente do cidadão local. E isso gera desconforto, como aconteceu no Rio com a Olimpíada", diz.

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