Conservadorismo e custo elevado barram produção sustentável, diz cantor sertanejo

Criador de gado, Leo Chaves, que integrou a dupla Victor e Leo, afirma que hobby cada vez mais vira um negócio

O músico e criador de gado Leo Chaves, que integrou a dupla Victor e Leo, durante o 2º fórum Agronegócio Sustentável, em São Paulo - Reinaldo Canato/Folhapress
Bianka Vieira
São Paulo

“O que um cantor sertanejo vai falar para mim aqui num seminário sobre agronegócio?” A pergunta feita por Leo Chaves, durante o 2º fórum Agronegócio Sustentável, foi respondida por ele mesmo: “um bom cantor pode ser um bom palestrante. Se um cara estudar e ter dedicação, ele quebra tendências.”

Quebrar tendências e expectativas já é característica da vida de Leo: após integrar a dupla sertaneja Victor e Leo por 26 anos e anunciar uma pausa por tempo indeterminado, hoje ele se dedica a ser palestrante, criador de gado, escritor e presidente executivo do Instituto Hortense, que atende escolas rurais periféricas.

“Cada vez mais vira um negócio”, afirmou o cantor, que fundou, em 2012, a Fazenda Senepol Paraíso (termo que nomeia a raça de gado criada por ele), localizada em Uberlândia (Minas Gerais). “Começou como um hobby, mas hoje tenho parceiros que representam minha genética [do gado Senepol criado em sua fazenda] e a responsabilidade cresceu.”

Leo afirmou que o manejo inadequado do solo, o desmatamento desordenado e a falta de gestão eficiente são fatores que impactam negativamente o ambiente, mas fez ressalva quanto a críticas ao segmento que não propõe soluções para os problemas enfrentados.

“O setor automobilístico também provoca o aquecimento global e de uma forma muito mais intensa que um boi. Há a questão da indústria farmacêutica também. Só que na televisão você vê propaganda de remédios e de carros; do setor alimentício, não vê quase nada”, disse ao mencionar que o agronegócio é desvalorizado no país.

Entre as principais dificuldades enfrentadas hoje para produzir carne com baixas taxas de carbono, ele destacou o custo alto e o longo prazo exigidos pelo investimento.

“São cinco, seis anos para ter a atividade da pecuária integrada. O tradicionalismo, o saudosismo e o conservadorismo ainda reinam. Um fazendeiro, quando ouve falar nisso, acaba ficando no sistema de pecuária extensiva, que infelizmente não é hoje eficiente e nem integrado ao ambiente."

A falta de oportunidades educacionais e de informação no setor rural são, para Leo, adendos que dificultam a transição para um modelo mais sustentável.

“Deveria vir da educação formar, nas escolas, jovens que pensem numa responsabilidade social. Isso é um déficit de oportunidade não só do agronegócio, mas em qualquer esfera do Brasil.” O cantor afirma ter planos de fundar uma escola agrícola de educação básica.

Leo ainda criticou o fato de que donos de fazendas que têm o agronegócio como atividade secundária —assim como ele, para quem a música é o ofício principal— não repassam o conhecimento que adquirem a funcionários que vivem o dia a dia do campo.

“Se eu não ofereço oportunidades e recursos para o meu funcionário, ele não tem nem desenvolvimento tecnológico digital, não sabe fazer um relatório, meta de resultado, planejamento estratégico, não tem um cronograma anual de ações. Isso vira um problema muito mais sério”, afirma o cantor.

O 2º fórum Agronegócio Sustentável foi realizado pela Folha, com patrocínio do Banco do Brasil, e aconteceu no auditório do jornal, nesta quarta-feira (28), em São Paulo.

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