Inteligência artificial já cria roteiro, compõe música e pinta quadro

Ferramentas digitais estimulam criatividade e geram medo de obsolescência entre artistas

Clara Balbi Louise Soares
São Paulo

A ideia de que a criatividade é exclusivamente humana está com os dias contados. Hoje, existem inteligências artificiais capazes de escrever roteiros, compor músicas, desenvolver videogames e até inventar receitas.

As novas possibilidades oferecidas pela tecnologia geram receios inéditos de substituição por automação entre os profissionais da economia criativa, que engloba atividades como cinema, design, música, gastronomia e artes.

Homem encara olho que segura com a mão direita
Cena do curta-metragem "Sunspring" (2016), com roteiro da inteligência artificial Benjamin - Divulgação

“Eles se imaginam ‘blindados’ porque não são trabalhadores de chão de fábrica. Só que a inteligência artificial vai impactar todas as profissões, inclusive essas”, diz Ana Carla Fonseca, sócia da consultoria Garimpo de Soluções e especialista em economia criativa.

A inteligência artificial pode ajudar o processo criativo de três formas. Ela pode ser usada como um cardápio de opções, caso da Angelina, criada pelo desenvolvedor britânico Michael Cook para produzir videogames e combinar suas melhores versões.

Outra possibilidade é a filtragem e organização de dados, como fez o artista britânico James Bridle em sua instalação “Five Eyes” (2015), exibida no Museu Victoria & Albert, em Londres. A obra classificava as mais de 4,5 milhões de peças do museu segundo parâmetros usados pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos para identificar ameaças terroristas.

Por fim, a inteligência artificial pode criar experiências novas. Um exemplo é o quadro “The Butcher’s Son”, do artista visual alemão Mario Klingemann. Laureado em setembro com com o prêmio de arte digital Lumen, o trabalho tem ares de pintura, mas foi produzido por uma máquina ensinada a replicar retratos.

Klingemann é um dos artistas residentes do Google Arts & Culture, uma das iniciativas da gigante digital que combinam arte e tecnologia. Além dela, há o Project Magenta, que une machine learning e música, e o Google Deep Dream, que modifica desenhos e fotos a partir de algoritmos de reconhecimento de imagens.

Pesquisadora sênior do Google PAIR (People + Artificial Intelligence Research), Fernanda Viégas esclarece que, apesar dos avanços, as inteligências artificiais estão longe de alcançar a sofisticação do cérebro humano. “Conseguimos correr, pular, cantar. Não existe inteligência artificial que consiga fazer essas coisas com competência.”

Mais importante, os robôs dependem em última instância de instruções dadas por pessoas. “Se sabem desenhar, é porque lhes mostramos uma imensidade de desenhos”, diz.

Os desenvolvedores de inteligências artificiais dizem que o objetivo não é substituir artistas por máquinas. Eles defendem a colaboração entre ambos como uma maneira de expandir os horizontes da criatividade humana.

O aplicativo de geração de receitas Plant Jammer, por exemplo, tem dois chefs e uma inteligência artificial (batizada de Eddie, a Berinjela) em sua equipe. A conversa entre os cozinheiros e o robô tem levado a novas combinações.

“Nossos chefs tendem a cozinhar os mesmos pratos”, diz o dinamarquês Michael Haase, 35, fundador do aplicativo. “Se eu pedir uma receita com brócolis, eles vão preparar alguma coisa com avelã, romã e azeite de oliva. Se o Plant Jammer sugerir que acrescentem mostarda, eles vão por um caminho diferente”.

Os criadores do robô roteirista Benjamin concordam. Para o americano Ross Goodwin e o britânico Oscar Sharp, o diferencial da plataforma é justamente sua falta de coerência narrativa.

Pesquisador do Google Artists and Machine Intelligence (AMI), Goodwin diz que as inteligências artificiais têm potencial de modificar o processo criativo, como foi o caso da fotografia digital há alguns anos. “Você sempre pode tirar uma nova foto. Da mesma forma, quando falamos do Benjamin, não há custo para produzir grandes quantidades de texto”, afirma.

O Amper Music, criado em 2013 por um trio de compositores de Hollywood, é outro exemplo da tendência. O software produz trilhas sonoras em instantes a partir de acordes gravados em estúdio. Basta que o usuário estabeleça o clima (romântico, alegre, animado), o gênero (rock, pop, ou cinematográfico), e a duração da trilha desejada.

Segundo o cofundador do programa, Drew Silverstein, 30, a ideia é que a inteligência artificial poupe editores e produtores de vídeo de passar horas à procura da trilha ideal em bibliotecas de músicas.

Mas as trilhas artísticas, em que o processo criativo por trás das canções é valorizado, ainda teriam um lugar cativo na indústria midiática. Na prática, ele próprio, compositor em filmes como “Uma Ladra sem Limites” (2013), estrelado por Melissa McCarthy, não perderia o emprego.

Para a portuguesa Mariana Pestana, uma das curadoras da exposição “The Future Starts Here”, que ficou em cartaz até novembro no Museu Victoria & Albert, em Londres, a história mostra que a insegurança gerada pelo desenvolvimento de novas tecnologias não se justifica. Mas é preciso tomar cuidado com a tendência à uniformização de gostos que elas podem trazer.

A curadora cita plataformas como o Instagram e o Airbnb, que inauguraram padrões estéticos para fotografias e para decoração de imóveis. “No início da internet, havia a promessa de que qualquer pessoa teria espaço para se expressar”, diz a curadora. “Hoje, como as ferramentas estão concentradas em um grupo pequeno de empresas, elas provocam uma homogeneização.”

Ex-curador do MAM-Rio e atual responsável pela curadoria do Prêmio PIPA, de arte contemporânea, Luiz Camillo Osorio argumenta que a dependência das inteligências artificiais de grandes volumes de dados também pode culminar na repetição de padrões conhecidos. 

“Uma máquina jamais poderia inventar o ready-made”, afirma o curador, referindo-se à estratégia inaugurada por Marcel Duchamp em 1917 ao exibir um urinol em uma exposição. “Um robô não deslocaria o mictório para o interior do museu. Agora, deslocará mictórios para o museu, pois acha que isso é arte.”

Desenvolvimento de tecnologia abre novo campo para criativos

Se os robôs vêm ganhando espaço em atividades humanas, por outro lado, seu desenvolvimento também oferece oportunidades de trabalho. Afinal, inteligências artificiais como assistentes pessoais precisam de roteiristas para redigir suas falas e desenvolver suas personalidades.

Jonathan Foster, 50, tinha uma carreira consolidada como roteirista e escritor quando recebeu um convite para trabalhar na Microsoft, produzindo conteúdo para a plataforma de jogos Xbox. Após um tempo na função, foi encarregado de liderar uma equipe de 30 redatores e roteiristas responsáveis por escrever as falas e formular a personagem da assistente virtual Cortana. 

O americano vê um futuro promissor para profissionais criativos no campo da inteligência artificial e cita como diferencial o fator humano que podem agregar aos projetos.

O jornalista brasileiro Renan Leahy, 39, também migrou para o campo. Atual gerente de conteúdo para a Cortana na América Latina, ele aconselha profissionais criativos que queiram atuar nesse ramo a não ter medo do novo.

“Ainda é uma área incipiente. Descobrimos no dia a dia o que dá certo ou não”, diz. 

A inteligência artificial tem aberto portas em vários setores. A empresa de recursos humanos 99Jobs abraçou a tecnologia para selecionar aspirantes a vagas em empresas como Itaú e Natura. A criação dos chatbots dotados de nomes e personalidades humanas envolve uma equipe mista de profissionais de RH, tecnologia e criativos, entre eles redatores, videomakers e atores. 

Apesar das iniciativas, Foster acredita que a arte continuará a ser o domínio da expressão humana. Para ele, a tecnologia é uma espécie de “pincel superinteligente”. 

“É como um elefante que pinta um quadro. Todos acham fofo e alguém talvez até compre o quadro. Mas, no fim, é apenas um elefante”, afirma Foster.


CONHEÇA ALGUMAS PLATAFORMAS DE CRIAÇÃO

Angelina A inteligência artificial gera milhares de videogames e mistura os melhores resultados para formar um novo jogo

Plant Jammer O aplicativo usa um mapa de sabores desenvolvido por chefs para sugerir novas receitas

Benjamin O robô parte de uma base de dados de roteiros de ficção científica para produzir novos textos

Amper Music O software, que ainda funciona como plugin para edição, combina acordes gravados em estúdio e cria trilhas sonoras completas

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