Cresce tipo de crime em que vítima é forçada a produzir imagens sexuais

Perfis falsos chegam a jovens e, com chantagens, praticam estupro virtual

Fernanda Mena
Brasília

A chamada sextorsão tem se tornado a modalidade mais recorrente de abuso sexual virtual, de acordo com especialistas e investigadores entrevistados pela Folha e relatórios de organizações internacionais ligadas ao tema.

União das palavras sexo e extorsão, o crime começa com a criação de perfis falsos para a aproximação (via likes e comentários) e abordagem das vítimas. Após algum tempo de conversa, o perfil falso envia um vídeo ou uma foto íntima, igualmente falsos, mas interessantes o bastante para instigar a reciprocidade.

Quando o criminoso consegue obter da vítima foto ou vídeo íntimo, tem início um pesado processo de chantagem.

“Ele dizia que, se eu não fizesse tudo o que ele me pedisse, iria postar aquela imagem no Facebook. Entrei em desespero”, conta Maria (nome fictício), hoje com 18 anos, sobre o pesadelo que viveu aos 14.

Segundo ela, o criminoso exibiu imagens de dezenas de outras vítimas adolescentes.

A estudante Maria, 18, vítima de sextorsão aos 14 anos, e sua mãe, Sônia (nomes fictícios), 38
A estudante Maria, 18, vítima de sextorsão aos 14 anos, e sua mãe, Sônia (nomes fictícios), 38 - Pedro Ladeira/Folhapress

A prática hoje é interpretada como um estupro virtual, graças a uma mudança na redação do artigo 213 do Código Penal que caracterizou o crime de estupro como o ato de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. A pena é de seis a dez anos de prisão.

“Eu era virgem e só chorava. Tentava conter os soluços porque os meus pais estavam no quarto do lado”, conta ela, que chegou a pensar em se matar.

“Isso me jogou para a beira do abismo”, diz. “Meus pais eram muito rígidos, nunca conversaram comigo sobre nada disso. Era eu comigo mesma.”

Maria parou de comer, de estudar e não saía do quarto. “A gente via ela chorando e não entendia”, conta a mãe, Sônia (nome fictício), 38. “Eu julgava, cobrava, mas não percebia o quanto era ausente. Descobri da pior maneira possível.”

A menina contou a história a um amigo, que a convenceu a denunciar a chantagem ao Conselho Tutelar. De lá, o caso seguiu para a polícia, que conseguiu mapear outras vítimas do abusador e prendê-lo.

“A gente dá todo acesso tecnológico aos filhos e esquece que tudo isso os torna acessíveis também”, diz Ana Cristina Melo Santiago, chefe da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente do Distrito Federal, responsável pelo caso.

Segundo ela, esse tipo de crime ainda é tabu, porque a vítima se sente partícipe da violação —por ter conversado com o abusador, por ter enviado a ele material íntimo, por ter cedido às chantagens, complicando a situação.

“Avançamos muito no debate de crimes de violência contra a mulher, mas não contra a criança, em relação à qual existe ampla complacência”, avalia. “Já os adolescentes ficam num vácuo, e para eles sobra a vergonha e a culpa.”

Zoe, 14, viu, aos 11 anos, a melhor amiga de internet se transmutar em um monstro.

“Ela era dona de uma página popular e dizia que eu era bonita e coisas assim. Até o dia em que pediu para eu ir ao banheiro e dançar pelada. Fui muito inocente. Eu não achava que as pessoas eram ruins.”

Depois disso, Zoe descobriu que a amiga era um cara e que precisava atender a seus pedidos para se preservar da revelação das imagens. “Vou espalhar pra todo mundo a putinha que você é”, escrevia ele.

“Chamei minha mãe, fomos para a delegacia”, diz. “Entrei em depressão e comecei a me mutilar. Os cortes são um jeito de eu me distrair da dor psicológica com uma dor física.”

Desenho feito por Zoe (nome fictício), 14, que sofreu estupro virtual aos 11
Desenho feito por Zoe (nome fictício), 14, que sofreu estupro virtual aos 11 - Reprodução

Para a procuradora Jaqueline Buffon, do Grupo de Apoio no Combate aos Crimes Cibernéticos do Ministério Público Federal, só a prevenção pode reduzir o problema. “As pessoas não refletem antes de postar imagens ou enviá-las a alguém”, diz ela, para quem o currículo escolar deveria incluir informações sobre uso consciente dos meios digitais.

“O diálogo em casa é fundamental para que a criança sinta confiança em buscar ajuda dos pais, que precisam acompanhar o que é acessado.”

Quanto aos meios de perpetração dos crimes, chamadas em vídeo e serviços de live streaming têm emergido como ferramentas de predadores sexuais, segundo a agência Europol e ONGs como Thorn e Internet Watch Foundation.

As transmissões são usadas para a venda de imagens de exploração sexual infantil sob demanda. Um criminoso contrata um serviço em que uma criança sofre abuso ao vivo, em outra parte do mundo.

Em 2015, um médico de 29 anos do interior paulista foi preso por financiar abusos ao vivo feitos nas Filipinas. Em um deles, a criança sofreu tanta violência que morreu.

Profissionais recebem ajuda para lidar com imagens chocantes 

Protocolos e programas específicos tentam amenizar o impacto das imagens perturbadoras de abuso e exploração nos profissionais que lidam com elas no dia a dia. 

Já há programas que transformam em pinturas imagens suspeitas de conter cenas de abuso para a primeira fase de reconhecimento nos centros de checagem das grandes empresas de internet. A ideia é preservar quem passa o dia confirmando suspeitas de conteúdo impróprio.

Entre investigadores, o recurso é inútil. Eles precisam observar fotos e vídeos atentamente. Para eles, os protocolos sugerem a quebra sistemática do trabalho para sessões de despressurização em salas com leituras e games.

“Ainda que seja chocante, é um trabalho que precisa ser feito. E os profissionais fazem algum tipo de rodízio porque as imagens são perversas”, afirma Alessandro Barreto, chefe do Laboratório de Inteligência Cibernética do Ministério de Justiça e responsável pelas operações Luz na Infância, de combate ao armazenamento dessas imagens.

Jaqueline Buffon avalia que profissionais que lidam com as imagens no cotidiano precisam de acompanhamento psicológico. “É algo muito difícil e doloroso de ver. Agride a gente. Quando comecei a trabalhar com isso, há dez anos, os casos não eram tão terríveis. E eles não podem ser tomados como uma coisa comum.” 

Para Bruno Requião, agente da PF que ajudou a aplicar modelos matemáticos no combate a redes de pedofilia, “ninguém gosta de trabalhar com esse tema, porque o identifica com filhos ou sobrinhos”. Ao mesmo tempo, diz, é recompensador conseguir salvar crianças desse tipo de violência.

 
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