Você não entende, depois nega e, por fim, se desespera, diz mãe de vítima de abuso sexual

Dor de ter visto filha de 8 anos lidar com a violência durará pelo resto da vida, afirma ela

Fernanda Mena
São Paulo

Primeiro, veio uma mudança de comportamento. Aos 8 anos, Gabriela (nome fictício) começou a bater nos colegas e até nos pais. Irritada e nervosa, a menina chorava e esperneava com frequência quando contrariada.

Depois, voltou a fazer xixi na calça. Em seguida, surgiram assaduras nos genitais, que a família atribuiu a longos períodos de contato da pele sensível com as roupas molhadas de urina.

“Quando olho de trás pra frente, fica tudo muito evidente”, lamenta a advogada Carla (nome fictício), 38, mãe de Gabriela. “Os sinais são absolutamente claros. Mas a gente não consegue enxergar que esses monstros podem estar tão perto, especialmente numa cidade grande e num contexto de classe social mais alta.”

Preocupada, Carla se aconselhou com amigas e procurou a escola em que a menina estudava, em São Paulo. “Ouvi que estava ficando louca e que o comportamento poderia ter a ver com uma pré-adolescência precoce. Ouvi que era uma mãe muito permissiva.”

Obra da série ‘Brinquedos 1’ (pintura a óleo), de Ana Elisa Egreja
Obra da série ‘Brinquedos 1’ (pintura a óleo), de Ana Elisa Egreja - Filipe Berndt

Não era nada disso. Gabriela estava sendo vítima de abuso sexual pelo professor de música com quem começara a ter aulas três anos antes.

Educado, jovem, divertido, ele tinha experiência em escolas de elite de São Paulo. Educadores e pais de colegas da criança tinham dado referências dele. Vivia com a mulher num bairro de classe média alta de São Paulo. Parecia acima de qualquer suspeita.

Em outubro de 2018, ele foi preso em uma operação da Polícia Federal, acusado de ter produzido e publicado imagens de abuso sexual infantil em fóruns na chamada dark web, acessível por softwares especiais.

Os materiais encontrados na casa dele confirmaram as investigações. Na ocasião, Carla recebeu um telefonema de uma pessoa próxima contando que o professor havia sido preso em flagrante.

“Primeiro, você não entende direito. Depois, nega. E, então, se desespera”, diz. “Eu fui juntando o quebra-cabeça. Liguei para uma pessoa, depois para outra”, lembra.

Ela conta que foi procurada pela polícia, mas que não quis saber detalhes do que aconteceu com Gabriela. “Eu imagino, né? Mas achei que isso não faria diferença àquela altura. É tudo muito agressivo.”

Quadro da série ‘Brinquedos 1’, de Ana Elisa Egreja
Quadro da série ‘Brinquedos 1’, de Ana Elisa Egreja - Filipe Berndt

A mãe conta que acompanhava as aulas no início. Com o tempo, o professor sugeriu que sua presença estaria atrapalhando a concentração da menina e que ficar sozinho com ela seria mais produtivo.

“Você nunca acha que isso vai acontecer debaixo do seu nariz. Eu achava que era uma mãe muito cuidadosa e esclarecida. Já tinha feito um trabalho preventivo com ela. Li livrinhos infantis sobre ninguém poder colocar as mãos no genital, no bumbum. Busquei vídeos educativos. E, mesmo assim… É assustador”, emociona-se.

Carla diz ter claro para si que o tema é tabu e que profissionais da educação não estão capacitados para identificar sinais dados pelas crianças.

“A gente tem que falar abertamente sobre o assunto. Falar que essas pessoas existem e podem estar em qualquer lugar. Que isso acontece em todas as classes sociais e lugares. Hoje não existe nenhum trabalho de prevenção nas escolas.”

Pouco tempo depois da prisão do professor, Gabriela perguntou à mãe se ele não viria mais dar aulas. “Eu disse: ‘Ele foi para um lugar bem longe e não vem nunca mais. Não foi certo o que ele fez com você. E ele não vai fazer aquilo nunca mais’. A mudança de comportamento dela foi imediata.”

Ainda assim, o abuso é uma dor insistente. “Não tem nenhum dia em que isso não me venha à cabeça. Como eu poderia ter evitado? Como vai ser no dia em que ele sair? Eu acho que é uma coisa que vai me acompanhar pelo resto da vida. E a ela também.” 

Não há padrão de agressor nem ambiente seguro contra o abuso e a exploração, indica guia sueco

O braço sueco da ONG Ecpat (End Child Prostitution and Trafficking), que trabalha para acabar com a exploração sexual de crianças, fez uma pesquisa sobre os tipos de imagens com conteúdo sexual infantil autoproduzido.

A organização analisou 300 fotos e vídeos reportadas em um mês e também conversou com crianças para entender como elas se sentiam a respeito dos nudes. Abaixo estão algumas considerações sobre o estudo e dicas para proteger as crianças.

1 – O número de casos denunciados está crescendo
Nos últimos anos, houve aumento nos casos em que crianças produziram fotos ou vídeos de si mesmas com conteúdo sexual reportado à Epcat.

2 – As imagens e vídeos acabam em sites nos quais abusadores buscam material
Embora isso não seja algo novo, é preocupante o aumento na quantidade de material autoproduzido disponível na internet.

3 – A maioria das imagens é de meninas na puberdade
O tipo de foto mais comum é o de uma adolescente no espelho, no quarto ou banheiro, tirada por seu celular, e closes de genitais e seios. A maioria está na puberdade e 1 em cada 5 está na pré-puberdade.

4 – Os meninos também são vítimas de exploração
Dentre o material analisado, houve 3 fotos e 20 vídeos de meninos em atos sexuais.

5 – As crianças produzem esse tipo de conteúdo por razões diversas e complexas
Quando os adultos pensam em crianças tirando fotos sexuais, sua reação costuma ser negativa. Mas a coisa não é tão simples. Imagens voluntárias e não compartilhadas não têm necessariamente consequências negativas. Aliás, muitas crianças dizem o contrário: que essas imagens, feitas por elas mesmas, podem aumentar sua autoestima. Tirar essas fotos é normal nos dias de hoje para muitas crianças. As entrevistadas disseram que descobriram os nudes via Snapchat, durante o ginásio.

6 – As crianças são ameaçadas online 
Nem todo material autoproduzido é criado de maneira voluntária. Crianças e adolescentes também enfrentam aliciamento, ameaças, extorsão e coerção na internet. Enquanto alguns criminosos aliciam as crianças online tentando criar uma relação com a vítima, outros recorrem diretamente às ameaças. 
O agressor pode ameaçar machucar um animal de estimação, um irmão, seu pai, sua mãe ou um amigo. Se eles já tiverem acesso a imagens, podem usar desses artifícios para exigir mais material.

7 – Não há padrão de agressor nem ambiente seguro
Criminosos geralmente entram em contato com a criança ou o adolescente por meio de mídias sociais ou aplicativos de mensagem, mas também por email, sites de relacionamento ou jogos que tenham chat. Uma criança pode ser ameaçada por algum conhecido ou por alguém que encontrou na internet.

8 – As consequências podem durar a vida toda
Nudes autoproduzidas que são compartilhadas sem consentimento violam os direitos das crianças. Elas ficam bastante preocupadas mesmo que suas fotos não sejam divididas com terceiros. Caso sejam compartilhadas, o trauma pode durar para sempre. 
Quem divulga essas imagens sem o consentimento da vítima comete um crime. E é muito difícil remover o material da internet, o que significa que a criança terá de enfrentar o problema para sempre.

9 – Fale com a criança no ritmo dela. Não interrompa
É necessário entender que compartilhar nudes é algo rotineiro para algumas crianças. É preciso compreender o porquê, além de alertá-las sobre os riscos inerentes a esse comportamento.

10 – Não ameace tirar seu celular nem proibi-la de usar a internet
Conversar sobre os riscos e como se proteger traz melhores resultados.

11 – Tente não deixar a criança com vergonha
Se as imagens chegarem à internet, não julgue. Fique calmo e apoie a criança. Nunca é culpa dela.

12 - Denuncie
A maioria dos sites tem funções para denunciar conteúdo ilegal ou inapropriado. 

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