Descrição de chapéu 2º Seminário Economia da Arte

Festivais culturais driblam incerteza com vaquinhas e parcerias

Estudos sobre o impacto econômico desse tipo de evento são fundamentais para atrair investimentos

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Festivais de teatro, cinema e música tiveram crescimento acentuado nas últimas duas décadas, graças principalmente a leis de incentivo, que ajudaram a profissionalizar o setor. Mas a crise financeira, somada a mudanças em políticas públicas, resultou em um cenário um tanto nebuloso, segundo gestores ouvidos pela reportagem.

Além das mudanças da Lei Rouanet, houve corte de verbas de estatais. Só a Petrobras deixou de apoiar 13 eventos, entre eles a Mostra de Cinema de São Paulo, o Anima Mundi e o Festival de Brasília.

Renata de Almeida, diretora da Mostra de Cinema, ainda analisa como estruturar a 43ª edição do festival, que começa em outubro. Isso porque o patrocínio da estatal representava algo em torno de 30% do orçamento de R$ 6 milhões. 

Manter e diversificar as fontes de renda é o que busca o Festival de Teatro de Curitiba, que existe desde 1992 e tem 75% de seu patrocínio via Lei Rouanet. Segundo seu diretor, Leandro Knopfholz, a venda de ingressos representa apenas 15% da verba, pouco mais de R$ 8 milhões neste ano.

Uma aposta de festivais é a parceria com instituições culturais, que muitas vezes cedem seus espaços (como Sesc e Itaú Cultural), oferecem mão de obra e até auxiliam financeiramente.

Os parceiros têm ainda mais peso quando há programação estrangeira. A MITsp —Mostra Internacional de Teatro de São Paulo— tem buscado mais o apoio de instituições de fora que têm braços no Brasil, como o Goethe e o Institut Français.

Hoje, essas entidades respondem por 30% do orçamento do festival, de R$ 3 milhões. Tradicionalmente, custeiam o transporte de artistas e cargas, mas a MITsp tem conversado para que esse auxílio vá para os cachês de artistas estrangeiros, sobre os quais incidem impostos de 43% do valor bruto.

“O modelo de financiamento tem que mudar, de forma que dependa menos do governo”, diz o secretário-executivo de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, Cristiano Vasconcelos.

A pasta é responsável pelo Festival de Brasília, que neste ano perdeu R$ 350 mil (cerca de 10% de seu orçamento) do patrocínio da Petrobras. 

Mais impactante foi o caso do Anima Mundi, festival de desenho animado, que só aconteceu neste ano devido ao apoio de canais de TV e a uma campanha de crowdfunding, que levantou R$ 440 mil em 45 dias. Ainda assim, o orçamento foi R$ 1,5 milhão, menos da metade do previsto.

Para atrair o interesse do governo e do mercado, comenta Guilherme Marques, diretor de produção da MITsp, ainda faltam estudos que demonstrem o impacto econômico de eventos culturais. Ele lembra que, na França, o próprio governo faz esse estudo: lá, a cultura é o segundo setor que mais gera riquezas. 

No Brasil há pesquisas pontuais, como as feitas pela Fundação Getulio Vargas, segundo as quais festivais têm um retorno econômico dez vezes maior do que seus custos.

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