Incorporação da medicina de precisão tem de ser mais ágil, dizem médicos

Em seminário, médica defendeu investimento em pesquisa clínica para ampliar o acesso às novas tecnologias

Everton Lopes Batista
São Paulo

Diagnósticos e tratamentos mais precisos chegaram com a chamada medicina de precisão. Na oncologia, o uso do método potencializa as chances de cura ao escrutinar as características do tumor e aplicar o tratamento mais eficiente disponível para eliminá-lo.

No entanto, há ainda muita resistência no meio médico para a incorporação da medicina de precisão, segundo Marcelo Cruz, oncologista fellow da Northwestern University (EUA).

“Comparo a chegada dessa tecnologia com a chegada dos aplicativos de mobilidade urbana. Os taxistas ficaram revoltados no início, mas tiveram de se adaptar à nova realidade”, disse Cruz durante o seminário Medicina de Precisão Contra o Câncer, realizado pela Folha nesta quinta-feira (29), em São Paulo. O evento contou com o patrocínio do Hospital Sírio-Libanês.

Bryan Eric Strauss (esq.), biólogo molecular pesquisador no Icesp, Clarissa Baldotto, diretora do Núcleo de Integração Oncológica da Oncologia D'Or, Marcelo Cruz, oncologista fellow da Northwestern University (EUA), Claudia Collucci, jornalista da Folha em debate do seminário - Reinaldo Canato/Folhapress

“Precisamos entender que essa tecnologia veio para ficar e está cada vez melhor. Ela tem de ser incorporada rapidamente”, completou.

Com a adaptação aos novos métodos, pacientes e médicos saem ganhando, de acordo com Cruz. Entre os exemplos citados pelo médico, está a velocidade para fornecer um diagnóstico ou incorporar um novo tratamento, que aumentou drasticamente nos últimos anos com o uso de inteligência artificial.

“Hoje, temos programas que avaliam o que é publicado em revistas científicas do mundo todo e são capazes de definir para que casos a molécula que está sendo pesquisada pode ser usada”, disse o médico. Segundo Cruz, o uso de inteligência artificial foi capaz de reduzir o período que o medicamento leva da pesquisa ao uso —de cerca de 20 anos para dois ou três anos.

A manutenção desses avanços e a distribuição dos novos métodos dependem, porém, de muito investimento em pesquisa científica, de acordo com Clarissa Baldotto, diretora do Núcleo de Integração Oncológica da Oncologia D'Or.

“A medicina está ficando cada vez mais refinada, mas precisamos ainda de mais pesquisa clínica. No Brasil, temos muitas dificuldades nessa área e vários medicamentos não chegam a ser totalmente testados. Precisamos investir na pesquisa se quisermos descobrir as novidades”, disse.

A falta de pesquisa faz com que os preços dos medicamentos e procedimentos mais tecnológicos permaneçam altos, o que trava o acesso da população.

Segundo a médica, o sistema para liberar as medicações no Brasil é complexo, mas alguns mecanismos podem facilitar o acesso. Um deles é o programa de uso compassivo, conduzido pela indústria farmacêutica com a aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que permite o uso de medicamentos novos e promissores que já foram aprovados em outros países, mas que ainda não estão registrados no Brasil.

“É impossível incorporar tudo para todos, mas não podemos fechar os olhos para o que está acontecendo. Vai continuar sendo um problema. Ainda precisamos ser mais ágeis nessa incorporação, e isso me preocupa”, afirmou Baldotto.

Para Bryan Eric Strauss, biólogo molecular pesquisador no Icesp, tratamentos como a imunoterapia, que estimulam o sistema imunológico do paciente para combater o tumor, vão ficar mais acessíveis no Brasil à medida que são testados em outros países. Dentro da mesma abordagem, há ainda como fazer o tratamento usando vacinas para acordar o sistema imunológico do paciente.

Segundo o pesquisador, a tendência nessa área é que apareçam vacinas mais acessíveis. “Mesmo que sejam menos personalizadas, essa nova leva de vacinas vai conseguir tratar um maior número de pacientes com eficiência”, afirmou Strauss.

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